A Guerra dos Judeus - Livro IV 3
Livro IV: os zelotes, Gamala e a ascensão de Vespasiano
Sobre João de Giscala. Sobre os zelotes e o sumo sacerdote Anano. E também como os judeus provocaram revoltas uns contra os outros [em Jerusalém].
Quando João entrou em Jerusalém, o povo inteiro entrou em alvoroço. Cerca de dez mil pessoas se aglomeravam ao redor de cada um dos fugitivos que chegavam até eles e perguntavam que desgraças haviam ocorrido lá fora. A respiração desses fugitivos vinha tão curta, ofegante e acelerada que, por si só, denunciava o enorme aperto em que se encontravam. Mesmo assim, eles falavam grosso em meio às suas desventuras e fingiam dizer que não tinham fugido dos romanos, mas que tinham vindo para ali a fim de combatê-los com menos risco. Diziam que seria insensato e inútil expor-se a perigos desesperados por causa de Giscala e de outras cidades fracas como ela, quando deveriam guardar suas armas e seu ardor e reservá-los para sua capital. Mas, quando relataram a tomada de Giscala e a sua retirada digna daquele lugar, como alegavam, muitos do povo entenderam que aquilo não passava de uma fuga. E, sobretudo quando souberam dos que haviam sido feitos cativos, ficaram em grande confusão e concluíram que aqueles fatos eram sinais claros de que também eles seriam capturados. Quanto a João, pouco se importava com os que tinha deixado para trás. Ele andava por entre o povo e o convencia a ir para a guerra, enchendo todos de esperança. Afirmava que a situação dos romanos era débil e exaltava o próprio poder. Zombava também da ignorância dos despreparados, como se aqueles romanos, ainda que ganhassem asas, jamais conseguiriam voar por cima do muro de Jerusalém, eles que tinham encontrado tamanhas dificuldades para tomar as aldeias da Galileia e tinham quebrado suas máquinas de guerra contra aqueles muros.
Esses discursos de João corromperam boa parte dos jovens e os inflamaram para a guerra. Mas, quanto aos mais prudentes e aos de idade avançada, não havia um sequer que não previsse o que estava por vir, e por isso lamentavam, como se a cidade já estivesse perdida. O povo vivia nessa confusão. Cabe observar, no entanto, que a multidão vinda do interior já estava em discórdia antes mesmo de começar a revolta de Jerusalém. Tito foi de Giscala a Cesareia, e Vespasiano foi de Cesareia a Jâmnia e a Azoto, e tomou as duas. Depois de pôr guarnições nelas, voltou trazendo grande número de pessoas que tinham passado para o seu lado, pois ele lhes dera a mão direita garantindo a sua segurança. Havia, além disso, desordens e guerras civis em todas as cidades. Todos os que estavam livres dos romanos voltavam as mãos uns contra os outros. Havia também um conflito amargo entre os que desejavam a guerra e os que desejavam a paz. No início, esse temperamento briguento se apoderou de famílias particulares, incapazes de chegar a um acordo entre si. Depois disso, até as pessoas mais queridas umas das outras romperam todos os limites em relação aos seus próximos, e cada um se juntou aos da sua opinião e já começou a se posicionar contra os outros. Assim, surgiram revoltas por toda parte, enquanto os que defendiam mudanças e desejavam a guerra, pela sua juventude e ousadia, levavam vantagem sobre os homens mais velhos e prudentes. Em primeiro lugar, o povo de cada lugar se entregou à pilhagem. Depois, formavam bandos para roubar a gente do interior. A ponto de, em barbárie e iniquidade, os da mesma nação em nada diferirem dos romanos. Pelo contrário, parecia coisa bem mais leve ser arruinado pelos romanos do que por eles mesmos.
As guarnições romanas que guardavam as cidades, em parte por incômodo de assumir tal trabalho e em parte pelo ódio que nutriam pela nação judaica, pouco ou nada faziam para socorrer os desgraçados. Até que os chefes desses bandos de salteadores, fartos das pilhagens no interior, se reuniram de todas as partes e formaram uma corja de perversidade, e todos juntos se infiltraram em Jerusalém. A cidade estava agora sem governante e, segundo o costume antigo, recebia sem distinção todos os que pertenciam à sua nação. Eles os recebiam então porque todos supunham que aqueles que entravam tão depressa na cidade vinham por afeto e para ajudar. Embora esses mesmos homens, além das revoltas que provocavam, fossem também a causa direta da destruição da cidade. Como eram uma multidão improdutiva e inútil, consumiam de antemão os mantimentos que poderiam ter bastado aos combatentes. Além disso, além de provocarem a guerra, foram a causa da revolta e da fome dentro dela.
Havia ainda, além desses, outros salteadores que vinham do interior e entravam na cidade. Juntando-se aos que eram piores que eles próprios, não deixavam de praticar nenhuma espécie de barbárie. Eles não mediam sua coragem apenas pelos roubos e saques, mas iam ao ponto de assassinar pessoas. E isso não à noite, nem às escondidas, nem contra gente comum, mas faziam abertamente, em pleno dia, e começaram pelos homens mais ilustres da cidade. O primeiro de quem trataram foi Antipas, de linhagem real e o homem mais poderoso de toda a cidade, a ponto de os tesouros públicos terem sido confiados aos seus cuidados. Eles o prenderam e o encarceraram, e fizeram o mesmo em seguida com Levias, pessoa de grande renome, e com Sofas, filho de Raguel, ambos também de linhagem real. Além desses, fizeram o mesmo com os homens principais do interior. Isso causou pavor terrível entre o povo, e cada um se contentava em cuidar da própria segurança, como faria se a cidade tivesse sido tomada na guerra.
Mas esses homens não se satisfaziam com as prisões em que tinham colocado os já mencionados. Nem julgavam seguro mantê-los assim sob custódia por muito tempo, já que eram homens muito poderosos e tinham famílias numerosas, capazes de vingá-los. Pensavam até que o próprio povo talvez se comovesse tanto com aqueles atos injustos a ponto de se levantar em bloco contra eles. Resolveram, portanto, matá-los. Para essa execução, enviaram um certo João, o mais sanguinário de todos eles. Esse homem também era chamado, na língua do nosso país, de filho de Dorcas. Mais dez homens entraram com ele na prisão, de espadas em punho, e degolaram os que ali estavam presos. O grande pretexto mentiroso que esses homens deram para tamanha atrocidade foi este: que aqueles haviam mantido conversas com os romanos para entregar Jerusalém a eles. Assim, alegavam ter matado apenas traidores da liberdade comum. No fim das contas, ficaram ainda mais insolentes com essa ousadia, como se tivessem sido benfeitores e salvadores da cidade.
O povo havia chegado a tal grau de baixeza e medo, e esses salteadores a tal grau de loucura, que os últimos se arrogaram o direito de nomear sumos sacerdotes. Anulando a sucessão segundo as famílias das quais costumavam ser escolhidos os sumos sacerdotes, ordenaram para esse cargo pessoas desconhecidas e de baixa condição, para terem o apoio delas em seus empreendimentos perversos. Pois quem obtinha a mais alta de todas as honras sem mérito algum era obrigado a se submeter aos que lha concediam. Eles também punham os homens principais uns contra os outros por meio de várias artimanhas e truques, e conseguiam a oportunidade de fazer o que quisessem por causa das brigas mútuas daqueles que poderiam ter obstruído seus planos. Até que, por fim, fartos das injustiças que tinham cometido contra os homens, transferiram seu comportamento ultrajante contra o próprio Deus e entraram no santuário com os pés impuros.
Agora a multidão já estava a ponto de se levantar contra eles, pois Anano, o mais antigo dos sumos sacerdotes, os persuadia a isso. Ele era homem muito prudente e talvez tivesse salvado a cidade, se ao menos pudesse ter escapado das mãos dos que tramavam contra ele. Aqueles homens fizeram do templo de Deus uma fortaleza para si e um lugar para onde podiam recorrer a fim de evitar os perigos que temiam do povo. O santuário havia se tornado um refúgio e uma oficina de tirania. Eles ainda misturavam zombaria às misérias que provocavam, e isso era mais insuportável do que os próprios atos. Para testar o espanto que causariam no povo e o alcance do próprio poder, decidiram dispor do sumo sacerdócio sorteando-o, quando, como já dissemos, ele deveria ser transmitido por sucessão dentro de uma família. O pretexto que deram para essa tentativa estranha foi uma prática antiga, alegando que nos tempos antigos isso se decidia por sorteio. Mas, na verdade, aquilo não passava da dissolução de uma lei inegável e de uma manobra ardilosa para se apoderar do governo, vinda daqueles que se atreviam a nomear governantes ao próprio bel-prazer.
Diante disso, mandaram chamar uma das tribos sacerdotais, chamada Eniaquim, e sortearam qual de seus membros seria o sumo sacerdote. Por sorte, o resultado caiu de modo a expor a iniquidade deles da forma mais evidente: caiu sobre um homem chamado Fânias, filho de Samuel, da aldeia de Aftá. Ele não só era indigno do sumo sacerdócio como nem ao menos sabia bem o que era o sumo sacerdócio, de tão rústico que era. Mesmo assim, arrastaram esse homem do campo contra a própria vontade, como se estivessem encenando uma peça no palco, e o enfeitaram com um rosto falso. Vestiram-no também com os trajes sagrados e, a cada momento, o instruíam sobre o que devia fazer. Esse ato horrendo de perversidade era diversão e passatempo para eles, mas levou os outros sacerdotes, que de longe viam a sua lei virada em chacota, a derramar lágrimas e a lamentar amargamente a dissolução de tão sagrada dignidade.
Agora o povo já não suportava a insolência desse procedimento, e todos juntos corriam com ardor para derrubar aquela tirania. De fato, foram Górion, filho de José, e Simeão, filho de Gamaliel, que os encorajaram. Andavam de um lado para outro enquanto o povo se reunia em multidões e, quando os encontravam a sós, pediam que não suportassem mais, mas que punissem aquelas pragas e flagelos da sua liberdade e purgassem o templo daqueles que o profanavam com sangue. Os mais respeitados entre os sumos sacerdotes, Jesus, filho de Gamala, e Anano, filho de Anano, quando estavam nas assembleias, repreendiam com dureza o povo por sua preguiça e o incitavam contra os zelotes. Pois esse era o nome pelo qual aqueles homens eram conhecidos, como se fossem zelosos em boas obras, e não antes zelosos nas piores ações e desregrados nelas além do exemplo dos outros.
Quando a multidão se reuniu em assembleia, e todos estavam indignados com a tomada do santuário por aqueles homens, com seus roubos e assassinatos, mas ainda não tinham começado a atacá-los (a razão era esta: imaginavam ser difícil reprimir aqueles zelotes, como de fato era), Anano se pôs no meio deles. Lançando os olhos seguidamente ao templo, com os olhos cheios de lágrimas, disse: "Sem dúvida teria sido bom para mim morrer antes de ver a casa de Deus cheia de tantas abominações, ou estes lugares sagrados, que não deveriam ser pisados ao acaso, repletos dos pés desses bandidos derramadores de sangue. Mesmo assim, eu, que estou revestido com as vestes do sumo sacerdócio e sou chamado por esse nome venerável [de sumo sacerdote], ainda vivo, e até gosto demais de viver, e não consigo me submeter a uma morte que seria a glória da minha velhice. Se eu fosse o único envolvido, e estivesse como que num deserto, entregaria a minha vida, e isso somente por amor a Deus. Pois de que serve viver entre um povo insensível às próprias calamidades, onde não resta nenhuma noção de qualquer remédio para as misérias que recaem sobre ele? Pois, quando vocês são presos, suportam; quando são espancados, ficam calados; e quando o povo é assassinado, ninguém se atreve sequer a soltar um gemido em público. Que tirania amarga é a que nos oprime! Mas por que me queixo dos tiranos? Não foram vocês, e a sua tolerância para com eles, que os alimentaram? Não foram vocês que fizeram vista grossa aos que primeiro se reuniram, quando eram apenas poucos, e que, com o seu silêncio, fizeram com que se tornassem muitos? E que, ao serem coniventes quando eles pegaram em armas, na prática os armaram contra vocês mesmos? Vocês deveriam ter impedido as primeiras investidas deles, quando começaram a ofender os seus parentes. Mas, por negligenciar esse cuidado a tempo, vocês encorajaram esses miseráveis a saquear homens. Quando as casas foram pilhadas, ninguém disse uma palavra. Foi por isso que eles levaram os donos daquelas casas, e, quando esses eram arrastados pelo meio da cidade, ninguém vinha em seu auxílio. Em seguida, passaram a acorrentar aqueles que vocês entregaram nas mãos deles. Não direi quantos eram, nem que tipo de homens eram os que trataram assim, mas certamente eram pessoas que ninguém acusava e ninguém condenava. E, como ninguém os socorreu quando foram acorrentados, a consequência foi que vocês viram essas mesmas pessoas serem mortas. Vimos isso também, de modo que ainda o melhor do rebanho de animais irracionais, por assim dizer, foi levado ao sacrifício, sem que ninguém dissesse uma palavra ou movesse a mão direita para salvá-los. Vão suportar, então? Vão suportar ver o seu santuário pisado? Vão construir degraus para esses ímpios, pelos quais possam subir a graus ainda maiores de insolência? Não vão derrubá-los do alto? Pois a esta altura eles já teriam avançado a atrocidades maiores, se tivessem conseguido derrubar algo maior do que o santuário. Eles se apoderaram do lugar mais forte de toda a cidade. Chamem-no de templo, se quiserem, embora seja como uma cidadela ou fortaleza. Ora, enquanto vocês têm a tirania de tal modo fortificada e veem os seus inimigos acima das suas cabeças, de que serve deliberar? E com que sustentam o ânimo? Talvez esperem os romanos, para que protejam os nossos lugares santos. Será que as nossas coisas chegaram a esse ponto? Será que chegamos a tal grau de miséria que se espera que os nossos próprios inimigos tenham pena de nós? Ó criaturas desgraçadas! Não vão se levantar e voltar-se contra os que os ferem? Vocês podem observar isso nas próprias feras: elas se vingam dos que as ferem. Não vão lembrar, cada um de vocês, as calamidades que vocês mesmos sofreram, nem pôr diante dos olhos as aflições que vocês mesmos passaram? E essas coisas não vão aguçar as suas almas para a vingança? Estará então perdida por completo a mais honrosa e mais natural das nossas paixões, refiro-me ao desejo de liberdade? Na verdade, estamos apaixonados pela escravidão e apaixonados pelos que nos dominam, como se tivéssemos recebido dos nossos antepassados esse princípio de submissão. No entanto, eles enfrentaram muitas e grandes guerras pela liberdade. E não foram tão dominados pelo poder dos egípcios ou dos medos a ponto de deixar de fazer o que julgavam certo, apesar das ordens em contrário. E que motivo há agora para uma guerra com os romanos? (Não me meto a decidir se é uma guerra vantajosa e proveitosa ou não.) Que pretexto há para ela? Não é para que possamos desfrutar da nossa liberdade? E então, não vamos suportar que os senhores da terra habitada sejam senhores sobre nós, e, ao mesmo tempo, suportar tiranos do nosso próprio país? Devo dizer, no entanto, que a submissão a estrangeiros pode ser suportada, porque a sorte já nos condenou a ela, ao passo que a submissão a gente perversa da nossa própria nação é covarde demais e foi trazida sobre nós pelo nosso próprio consentimento. Mas, já que tive ocasião de mencionar os romanos, não vou ocultar uma coisa que, enquanto falo, me vem à mente e me afeta bastante. É esta: ainda que fôssemos capturados por eles (Deus não permita que isso aconteça), nada poderíamos sofrer que fosse mais difícil de suportar do que o que estes homens já trouxeram sobre nós. Como, então, podemos evitar derramar lágrimas, quando vemos as ofertas romanas no nosso templo, enquanto vemos, ao mesmo tempo, gente da nossa própria nação tomando os nossos despojos, saqueando a nossa gloriosa capital e massacrando os nossos homens, atrocidades das quais os próprios romanos teriam se abstido? Ver aqueles romanos jamais ultrapassarem os limites destinados aos profanos, nem se atreverem a violar qualquer um dos nossos costumes sagrados, e até sentirem horror na alma ao contemplar de longe aqueles muros sagrados, enquanto alguns que nasceram neste mesmo país, foram criados nos nossos costumes e se chamam judeus andam por entre os lugares santos no exato momento em que as suas mãos ainda estão quentes do massacre dos seus próprios compatriotas? Além disso, alguém pode temer uma guerra lá fora, e com gente que terá moderação muito maior do que a do nosso próprio povo? Pois, na verdade, se pudermos ajustar as nossas palavras às coisas que elas representam, é provável que mais tarde se descubra que os romanos são os defensores das nossas leis, e os de dentro de nós, os seus subversores. E agora estou convencido de que cada um de vocês aqui veio convencido, antes mesmo de eu falar, de que esses destruidores das nossas liberdades merecem ser eliminados, e de que ninguém consegue sequer imaginar um castigo que eles não tenham merecido pelo que fizeram, e de que todos vocês estão revoltados contra eles por causa daquelas suas ações perversas, com as quais sofreram tanto. Mas talvez muitos de vocês se assustem com a multidão desses zelotes e com a sua audácia, assim como com a vantagem que têm sobre nós por estarem em posição mais alta. Essas circunstâncias, como foram causadas pela sua negligência, vão se tornar ainda maiores se forem negligenciadas por mais tempo. Pois o número deles aumenta a cada dia, à medida que todo homem mau corre para se juntar aos que são iguais a ele. E a sua audácia se inflama porque não encontram obstáculo aos seus planos. Quanto à sua posição mais alta, vão usá-la também como artilharia, se lhes dermos tempo para isso. Mas tenham certeza disto: se subirmos para combatê-los, eles ficarão mais dóceis por causa da própria consciência, e as vantagens que têm na altura da sua posição vão perder pela força da razão que se oporá a eles. Talvez também o próprio Deus, ofendido por eles, faça com que aquilo que atiram contra nós volte contra eles mesmos, e esses ímpios sejam mortos pelos seus próprios dardos. Basta que apareçamos diante deles, e eles serão reduzidos a nada. De qualquer modo, é justo, se houver algum perigo na empreitada, morrer diante destes portões santos e entregar a própria vida, se não pelos nossos filhos e esposas, ao menos por amor a Deus e por amor ao seu santuário. Eu os ajudarei tanto com o meu conselho quanto com a minha mão. Não faltará nenhuma sagacidade nossa para o seu apoio, e vocês também não me verão poupar o meu corpo."
Com esses argumentos, Anano encorajou a multidão a marchar contra os zelotes, embora soubesse como seria difícil dispersá-los, por causa do seu número, da sua juventude e da coragem das suas almas, mas sobretudo por causa da consciência do que tinham feito, pois não cederiam, já que nem sequer esperavam, no fim, perdão por aquelas atrocidades. Ainda assim, Anano resolveu enfrentar quaisquer sofrimentos que viessem sobre ele, em vez de fazer vista grossa às coisas, agora que estavam em tamanha confusão. Então a multidão clamou a ele que os conduzisse contra aqueles que tinha descrito na sua exortação, e cada um deles estava prontíssimo a correr qualquer risco por essa causa.
Enquanto Anano escolhia os seus homens e dispunha em formação de combate os que eram adequados ao seu propósito, os zelotes souberam do seu empreendimento (pois havia alguns que iam até eles e lhes contavam tudo o que o povo fazia). Irritados com isso, saltaram do templo em multidões e em grupos, e não pouparam ninguém que encontraram. Diante disso, Anano reuniu o povo de repente. Eram de fato mais numerosos que os zelotes, mas inferiores em armas, porque não tinham sido dispostos de forma regular para o combate. Mas o ânimo que todos demonstravam supria todas as suas deficiências dos dois lados. Os cidadãos tomados por uma paixão tão grande que era mais forte que as armas, e tirando do templo um grau de coragem mais poderoso que qualquer multidão. De fato, esses cidadãos achavam que não lhes seria possível morar na cidade, a menos que conseguissem eliminar os salteadores que havia nela. Os zelotes, por sua vez, achavam que, se não vencessem, não haveria castigo, por pior que fosse, que não lhes fosse aplicado. Assim, os seus combates foram conduzidos pelas suas paixões. No início, apenas atiravam pedras uns nos outros na cidade e diante do templo, e arremessavam dardos à distância. Mas, quando um lado levava vantagem sobre o outro, usavam as espadas. Houve grande matança dos dois lados, e muitos ficaram feridos. Quanto aos corpos do povo, os seus parentes os levavam para as suas casas. Mas, quando algum dos zelotes era ferido, subia ao templo e manchava aquele piso sagrado com o seu sangue, a ponto de se poder dizer que foi apenas o sangue deles que profanou o nosso santuário. Nesses combates, os salteadores sempre faziam investidas a partir do templo e levavam vantagem sobre os inimigos. Mas o povo se irritava muito, tornava-se cada vez mais numeroso e censurava os que recuavam, e os de trás não davam espaço aos que se retiravam, mas os empurravam de novo para frente. Até que, por fim, fizeram todo o seu corpo se voltar contra os adversários, e os salteadores já não conseguiam resistir, mas foram obrigados a recuar aos poucos para dentro do templo. Anano e o seu grupo irromperam nele ao mesmo tempo, junto com eles. Isso assustou terrivelmente os salteadores, porque os privou do primeiro pátio. Eles fugiram de imediato para o pátio interior e fecharam os portões. Anano não julgou apropriado fazer qualquer ataque contra os portões santos, embora os outros, lá de cima, atirassem pedras e dardos contra ele. Considerou também ilícito introduzir a multidão naquele pátio antes que fossem purificados. Por isso, escolheu por sorteio, dentre todos, seis mil homens armados e os colocou como guardas nos pórticos. Houve assim uma sucessão de guardas, um após o outro, e cada um era obrigado a cumprir o seu turno. Embora muitos dos principais da cidade fossem dispensados pelos que então assumiam o governo, mediante o pagamento de alguns mais pobres, que enviavam para montar guarda em seu lugar.
Foi João quem, como já contamos, fugiu de Giscala e foi a causa da destruição de todos esses. Ele era homem de grande astúcia e trazia na alma uma forte paixão pela tirania, e, à distância, era o conselheiro nessas ações. Naquele momento, fingia ser da opinião do povo e acompanhava Anano por toda parte, quando este consultava os homens importantes todos os dias, e também à noite, quando fazia a ronda da guarda. Mas ele revelava os segredos deles aos zelotes, e tudo o que o povo deliberava chegava, por meio dele, ao conhecimento dos inimigos, até antes de ter sido bem combinado entre os próprios. E, para não cair em suspeita, cultivava a maior amizade possível com Anano e com os principais do povo. Mas esse exagero dele se voltou contra ele próprio. Pois os bajulava de modo tão extravagante que só ficava mais suspeito, e a sua presença constante em toda parte, mesmo quando não era convidado a comparecer, o tornava fortemente suspeito de trair os segredos deles ao inimigo. Pois eles percebiam claramente que os inimigos conheciam todas as resoluções tomadas contra eles nas suas reuniões. E não havia ninguém de quem tivessem tanto motivo para suspeitar dessa delação quanto esse João. Mesmo assim, não era fácil se livrar dele, de tão poderoso que se tornara pelas suas práticas perversas. Ele também era apoiado por muitos daqueles homens ilustres que eram consultados em todos os assuntos importantes. Julgou-se, portanto, razoável obrigá-lo a dar garantia da sua boa vontade sob juramento. João prestou de pronto esse juramento, de que estaria do lado do povo e não trairia nenhum dos seus planos ou ações aos inimigos, e de que os ajudaria a derrubar os que os atacassem, tanto com a sua mão quanto com o seu conselho. Então Anano e o seu grupo acreditaram no juramento dele e passaram a recebê-lo em suas reuniões sem mais suspeita. Acreditaram nele a tal ponto que o enviaram como embaixador ao templo, aos zelotes, com propostas de acordo. Pois desejavam muito evitar a profanação do templo, o quanto possível, e que ninguém da sua nação fosse morto dentro dele.
Mas então esse João, como se o seu juramento tivesse sido feito aos zelotes e para confirmar a sua boa vontade para com eles, e não contra eles, entrou no templo, pôs-se no meio deles e falou assim: que tinha corrido muitos perigos por causa deles, e a fim de lhes dar a conhecer tudo o que era tramado em segredo contra eles por Anano e o seu grupo. Mas que tanto ele quanto eles seriam lançados no mais iminente perigo, a menos que recebessem alguma ajuda providencial. Pois Anano não adiava mais nada, mas tinha convencido o povo a enviar embaixadores a Vespasiano, para convidá-lo a vir logo e tomar a cidade. E que tinha marcado um jejum para o dia seguinte contra eles, para conseguir entrar no templo a pretexto religioso, ou tomá-lo à força e ali combatê-los. Que ele não via por quanto tempo eles conseguiriam suportar um cerco, nem como poderiam combater tantos inimigos. Acrescentou ainda que foi pela providência de Deus que ele próprio fora enviado como embaixador a eles, para um acordo. Pois Anano lhes oferecia tais propostas justamente para atacá-los quando estivessem desarmados. Que deviam escolher um destes dois caminhos: ou interceder junto aos que os guardavam, para salvar a vida, ou conseguir alguma ajuda externa para si. Que, se algum deles se iludia com a esperança de perdão, caso fossem subjugados, tinha esquecido as coisas desesperadas que tinham feito, ou podia supor que, assim que os autores se arrependessem, os que tinham sofrido nas suas mãos logo se reconciliariam com eles. Ao passo que os que cometeram injustiças, ainda que finjam se arrepender delas, com frequência são odiados pelos outros justamente por esse tipo de arrependimento. E que os que sofreram, quando obtêm o poder nas mãos, costumam ser ainda mais severos com os autores. Que os amigos e parentes dos que tinham sido mortos estariam sempre armando ciladas contra eles, e que um grande número de pessoas estava muito irritado por causa das graves violações das suas leis e dos seus julgamentos [ilegais]. De modo que, ainda que uma parte se compadecesse deles, esses seriam de todo sobrepujados pela maioria.