A Guerra dos Judeus - Livro IV 11
Livro IV: os zelotes, Gamala e a ascensão de Vespasiano
Como, após a conquista e a morte de Vitélio, Vespasiano apressou sua viagem a Roma, mas Tito, seu filho, voltou a Jerusalém.
Depois de responder às embaixadas e de distribuir os cargos de poder com justiça, de acordo com o mérito de cada um, Vespasiano chegou a Antioquia. Ali ponderou qual seria o melhor caminho a tomar. Preferiu ir para Roma a marchar até Alexandria, pois via que Alexandria já estava segura em suas mãos, enquanto os assuntos de Roma haviam sido lançados na desordem por Vitélio. Por isso enviou Múrcio à Itália e lhe confiou um exército considerável, tanto de cavaleiros como de infantes. Mas Múrcio teve receio de ir por mar, porque estavam em pleno inverno. Conduziu então o seu exército por terra, através da Capadócia e da Frígia.
Nesse meio tempo, Antônio Primo tomou a terceira das legiões que estavam na Mísia, pois era o governador daquela província, e apressou-se para combater Vitélio. Diante disso, Vitélio enviou Cecina com um grande exército, depositando nele enorme confiança por tê-lo visto derrotar Otão. Cecina partiu de Roma com muita pressa e encontrou Antônio nas proximidades de Cremona, na Gália, cidade que fica na fronteira da Itália. Mas, ao ver ali que o inimigo era numeroso e bem organizado, não se atreveu a enfrentá-lo. E, como julgasse perigosa uma retirada, começou a pensar em entregar o seu exército a Antônio. Reuniu então os centuriões e tribunos sob o seu comando e os persuadiu a passar para o lado de Antônio. Para isso, diminuía a reputação da causa de Vitélio e exagerava o poder de Vespasiano. Disse-lhes ainda que com um havia apenas o nome vazio do domínio, mas com o outro estava o poder real. Que era melhor para eles anteciparem a necessidade e conquistarem favor, evitando de antemão o perigo enquanto ainda corriam o risco de ser derrotados em batalha, e passarem voluntariamente para o lado de Antônio. Que Vespasiano era capaz, por si só, de subjugar o que ainda não se rendera, mesmo sem a ajuda deles, ao passo que Vitélio não conseguia preservar nem o que já tinha com essa ajuda.
Cecina disse isso, e muito mais no mesmo sentido, e os persuadiu a aderir a ele. Tanto ele quanto o seu exército desertaram. Mas, naquela mesma noite, os soldados se arrependeram do que haviam feito. Um medo tomou conta deles, de que talvez Vitélio, que os enviara, levasse a melhor. Sacando as espadas, atacaram Cecina para matá-lo. E o teriam feito, se os tribunos não tivessem caído de joelhos e suplicado que não o fizessem. Assim, os soldados não o mataram, mas o prenderam como traidor e se preparavam para enviá-lo a Vitélio. Quando Antônio Primo soube disso, levantou imediatamente os seus homens, mandou que vestissem as armaduras e os conduziu contra os que tinham se revoltado. Diante disso, estes se puseram em formação de batalha e resistiram por algum tempo, mas logo foram derrotados e fugiram para Cremona. Então Primo tomou os seus cavaleiros, cortou-lhes a entrada na cidade, cercou e destruiu grande multidão deles diante dos muros e irrompeu na cidade junto com os demais, dando aos seus soldados licença para saqueá-la. Foi ali que pereceram muitos estrangeiros que eram mercadores, além de muitos dos habitantes daquela região. Entre eles, o exército inteiro de Vitélio, que somava trinta mil e duzentos homens, enquanto Antônio perdeu não mais que quatro mil e quinhentos dos que tinham vindo com ele da Mísia. Depois soltou Cecina e o enviou a Vespasiano para lhe dar a boa notícia. Cecina chegou, foi recebido por ele e encobriu o escândalo de sua traição com as honras inesperadas que recebeu de Vespasiano.
Com a notícia de que Antônio se aproximava, Sabino ganhou coragem em Roma. Reuniu as coortes de soldados que faziam a guarda noturna e, durante a noite, apoderou-se do Capitólio. Ao raiar do dia, muitos homens de prestígio passaram para o seu lado, junto com Domiciano, filho de seu irmão, cujo apoio teve grande peso para a conquista do governo. Vitélio não se incomodava muito com esse Primo, mas estava furioso com os que tinham se revoltado ao lado de Sabino. Sedento de sangue nobre, por sua própria crueldade natural, enviou contra o Capitólio a parte do exército que viera com ele. Muitos atos audaciosos foram praticados de ambos os lados, tanto deles quanto dos que ocupavam o templo. Mas, no fim, os soldados vindos da Germânia, mais numerosos que os outros, tomaram posse da colina. Ali Domiciano, junto com muitos outros romanos importantes, escapou providencialmente, enquanto o restante da multidão foi inteiramente massacrado. O próprio Sabino foi levado a Vitélio e morto em seguida. Os soldados também saquearam os ornamentos do templo e o incendiaram. Mas, no espaço de um dia, chegou Antônio com o seu exército. Foi enfrentado por Vitélio e suas tropas e, depois de uma batalha travada em três pontos diferentes, estes últimos foram todos destruídos. Então Vitélio saiu do palácio, embriagado e saciado de uma refeição extravagante e luxuosa, como quem está em extrema desgraça. Arrastado pela multidão e ultrajado com toda sorte de tormentos, teve a cabeça cortada no meio de Roma, depois de manter o governo por oito meses e cinco dias. E, se tivesse vivido muito mais, não posso deixar de pensar que o Império não teria sido suficiente para a sua luxúria. Dos outros que foram mortos, contaram-se mais de cinquenta mil. Essa batalha foi travada no terceiro dia do mês de Apeleu [Casleu]. No dia seguinte, Múrcio entrou na cidade com o seu exército e ordenou que Antônio e os seus homens parassem de matar, pois ainda revistavam as casas e matavam muitos dos soldados de Vitélio, além de muita gente do povo, supondo que fossem do partido dele. A fúria deles impedia qualquer distinção precisa entre esses e os outros. Em seguida, Múrcio apresentou Domiciano e o recomendou à multidão, até que o pai dele viesse em pessoa. Assim, o povo, agora livre dos seus temores, fez aclamações de alegria por Vespasiano, como seu imperador, e celebrou dias de festa pela sua confirmação e pela queda de Vitélio.
Quando Vespasiano chegou a Alexandria, essa boa notícia chegou de Roma. Ao mesmo tempo vieram embaixadas de toda a parte habitada do seu domínio para felicitá-lo por sua ascensão. E, embora Alexandria fosse a maior de todas as cidades depois de Roma, mostrou-se pequena demais para conter a multidão que então acorreu a ela. Diante dessa confirmação do governo pleno de Vespasiano, agora consolidado, e da inesperada salvação dos negócios públicos dos romanos da ruína, Vespasiano voltou seus pensamentos para o que ainda restava por subjugar na Judeia. Ele mesmo, contudo, apressou-se a ir para Roma, já que o inverno estava quase no fim. Logo pôs em ordem os assuntos de Alexandria, mas enviou seu filho Tito, com uma parte seleta do exército, para destruir Jerusalém. Tito marchou a pé até Nicópolis, que fica a vinte estádios de Alexandria. Ali embarcou o seu exército em algumas naus longas e navegou pelo rio ao longo do Nomo Mendésio, até a cidade de Tmuis. Lá desembarcou, seguiu a pé e pernoitou numa pequena cidade chamada Tânis. Sua segunda parada foi Heracleópolis, e a terceira, Pelúsio. Ali deu descanso ao exército por dois dias. No terceiro dia, atravessou as bocas do Nilo em Pelúsio. Depois avançou uma etapa pelo deserto e armou o acampamento junto ao templo de Júpiter Cásio. No dia seguinte, parou em Ostracina. Essa parada não tinha água, mas os habitantes da região usam água trazida de outros lugares. Em seguida descansou em Rinocolura e de lá foi para Ráfia, que foi sua quarta parada. Essa cidade é o começo da Síria. Para a quinta parada, armou o acampamento em Gaza. Depois chegou a Ascalon, dali a Jâmnia, e em seguida a Jope, e de Jope a Cesareia, tendo decidido reunir naquele lugar todas as suas demais forças.