A Guerra dos Judeus - Livro I 33
Livro I: dos Macabeus à morte de Herodes, o Grande
A águia de ouro é despedaçada. A crueldade de Herodes quando estava prestes a morrer. Ele tenta se matar. Ordena a execução de Antípater. Sobrevive a ele cinco dias e então morre.
A doença de Herodes foi ficando cada vez mais severa, e isso porque esses males caíram sobre ele já velho e num estado de melancolia. Ele estava com quase setenta anos, e as desgraças que sofrera por causa dos filhos haviam tirado dele todo prazer de viver, mesmo quando estava de boa saúde. A dor de saber que Antípater continuava vivo agravava ainda mais sua doença. Herodes resolveu então matá-lo, não de qualquer jeito, mas assim que ficasse bom de novo, e decidiu que ele seria executado [em público].
Aconteceu também, em meio às suas outras desgraças, uma certa revolta popular. Havia na cidade [Jerusalém] dois homens eruditos, tidos como os mais hábeis nas leis do país e, por isso, muito respeitados em toda a nação: um era Judas, filho de Séforis, e o outro Matias, filho de Margalo. Muitos jovens acorriam a eles quando expunham as leis, e a cada dia juntava-se uma espécie de exército de rapazes que estavam virando homens. Quando esses dois mestres souberam que o rei definhava de melancolia e doença, deixaram escapar a seus conhecidos que era a hora certa de defender a causa de Deus e derrubar o que fora erguido contra as leis do país. Não era lícito que houvesse no templo qualquer coisa como imagens, rostos ou figuras semelhantes de qualquer animal. Ora, o rei havia colocado uma águia de ouro sobre o grande portão do templo, e esses mestres exortavam os jovens a derrubá-la. Diziam que, se algum perigo surgisse, era glorioso morrer pelas leis do país, pois a alma é imortal e um gozo eterno de felicidade aguardava quem morresse por essa causa. Já os covardes, sem sabedoria para amar a própria alma como devia, preferiam a morte por doença à morte que resulta de uma conduta virtuosa.
No exato momento em que esses homens faziam tal discurso a seus discípulos, espalhou-se o boato de que o rei estava morrendo, o que fez os jovens partirem para a ação com ainda mais ousadia. Eles desceram do alto do templo com cordas grossas, em pleno meio-dia, com muita gente presente no templo, e derrubaram a águia de ouro a golpes de machado. Isso logo foi contado ao capitão do templo nomeado pelo rei, que veio correndo com um grande contingente de soldados, prendeu cerca de quarenta jovens e os levou ao rei. Quando ele perguntou, antes de tudo, se haviam tido a audácia de derrubar a águia de ouro, eles confessaram que sim. Perguntou então por ordem de quem haviam feito aquilo, e responderam: por ordem da lei do país. Quando ele perguntou ainda como podiam estar tão alegres prestes a serem executados, responderam que era porque gozariam de maior felicidade depois de mortos.
Diante disso, o rei ficou tão furioso que venceu a doença [por um momento], saiu e falou ao povo. Fez uma acusação terrível contra aqueles homens, dizendo que eram culpados de sacrilégio e que, a pretexto da lei, tramavam coisas ainda maiores, e julgava que mereciam ser punidos como ímpios. O povo então ficou com medo de que muitos fossem considerados culpados, e pediu que ele punisse primeiro os que haviam incitado tudo aquilo, depois os que foram pegos em flagrante, e que largasse a raiva contra os demais. O rei concordou, embora não sem dificuldade, e ordenou que os que haviam descido com cordas, junto com seus rabinos, fossem queimados vivos, mas entregou os outros presos aos oficiais competentes, para que estes os executassem.
Depois disso, a doença tomou todo o seu corpo e o desordenou em todas as partes com vários sintomas. Tinha uma febre branda, uma coceira insuportável em toda a superfície da pele, dores contínuas no cólon, inchaços com retenção de líquido nos pés, uma inflamação no abdômen e uma putrefação do membro genital que gerava vermes. Além disso, sofria de dificuldade para respirar, e só conseguia respirar sentado e ereto, e tinha convulsões em todos os membros. Por isso os adivinhos diziam que essas doenças eram um castigo pelo que ele fizera aos rabinos. Mesmo assim, ele lutava contra os inúmeros males, ainda queria viver, esperava se recuperar e considerava vários métodos de cura. Atravessou o rio Jordão e foi usar os banhos quentes de Calírroe, cujas águas correm para o lago Asfaltite, mas são doces o bastante para se beber. Ali os médicos acharam adequado banhar todo o seu corpo em óleo morno, baixando-o num grande recipiente cheio de óleo. Com isso seus olhos falharam, e ele ia e vinha como se estivesse morrendo. Quando os criados se agitaram com alvoroço, ele voltou a si ao som das vozes. Mesmo assim, perdeu depois a esperança de recuperação e deu ordem para que cada soldado recebesse cinquenta dracmas, e que seus comandantes e amigos recebessem grandes somas de dinheiro.
Ele então voltou e chegou a Jericó, num estado de melancolia tão profundo que quase ameaçava morte imediata, e foi quando partiu para uma maldade horrenda. Reuniu os homens mais ilustres de toda a nação judaica, de cada vila, num lugar chamado Hipódromo, e os trancou ali. Depois chamou sua irmã Salomé e o marido dela, Alexas, e fez este discurso: "Sei muito bem que os judeus vão celebrar uma festa quando eu morrer. No entanto, está em meu poder ser pranteado por outro motivo e ter um funeral grandioso, se vocês obedecerem às minhas ordens. Cuidem apenas de mandar soldados cercarem esses homens que agora estão presos e os matem assim que eu morrer. Aí toda a Judeia, e cada família dela, vai chorar, querendo ou não."
Essas foram as ordens que ele deu. Nisso chegaram cartas de seus embaixadores em Roma, informando que Acme havia sido executada por ordem de César e que Antípater fora condenado à morte. Escreveram, no entanto, que se Herodes preferisse antes bani-lo, César permitia que o fizesse. Por um instante ele reanimou e teve vontade de viver, mas logo foi vencido pelas dores, ficou perturbado pela falta de alimento e por uma tosse convulsiva, e tentou antecipar a morte natural. Pegou uma maçã e pediu uma faca, pois costumava descascar maçãs e comê-las. Olhou ao redor para ver se havia alguém que o impedisse, e ergueu a mão direita como se fosse se apunhalar. Mas Aquiabo, seu primo de primeiro grau, veio correndo, segurou-lhe a mão e o impediu. Naquele momento fez-se grande lamento no palácio, como se o rei estivesse expirando. Assim que Antípater ouviu aquilo, criou ânimo e, com alegria no rosto, suplicou aos guardas que o soltassem e o deixassem ir, mediante uma soma de dinheiro. Mas o carcereiro-chefe não só impediu essa intenção como correu a contar ao rei o que ele planejava. Diante disso, o rei gritou mais alto do que sua doença bem permitia e imediatamente mandou alguns guardas matarem Antípater. Mandou também enterrá-lo em Hircânio, alterou de novo o testamento e nele fez Arquelau, seu filho mais velho e irmão de Antipas, seu sucessor, e fez Antipas tetrarca.
Herodes sobreviveu cinco dias à execução do filho e então morreu, tendo reinado trinta e quatro anos desde que mandara matar Antígono e obtivera seu reino, mas trinta e sete anos desde que fora feito rei pelos romanos. Quanto à sua sorte, foi próspera em todos os outros aspectos, se é que algum homem pode sê-lo, pois, de homem comum, conquistou um reino, manteve-o por tanto tempo e o deixou aos próprios filhos. Mas nos assuntos domésticos ele foi um homem dos mais infelizes. Antes que os soldados soubessem da morte dele, Salomé e o marido saíram e libertaram os que estavam presos, a quem o rei mandara matar, dizendo-lhes que ele mudara de ideia e queria que cada um deles fosse mandado para casa. Quando esses homens partiram, Salomé contou aos soldados [que o rei estava morto], reuniu-os e ao resto da multidão numa assembleia no anfiteatro de Jericó, onde Ptolomeu, a quem o rei confiara seu anel de selo, apresentou-se diante deles. Ele falou da felicidade que o rei havia alcançado, consolou a multidão e leu a carta deixada para os soldados, na qual Herodes os exortava com insistência a serem leais ao sucessor. Depois de ler a carta, abriu e leu o testamento, em que Filipe herdaria a Tracônites e as regiões vizinhas, Antipas seria tetrarca, como já dissemos, e Arquelau era feito rei. Ptolomeu tinha recebido a ordem de levar o anel de Herodes a César, junto com as disposições que ele fizera, lacradas, porque César seria o senhor de todas as decisões tomadas e confirmaria o testamento. E Herodes ordenou que as disposições fossem mantidas como estavam em seu testamento anterior.
Houve então uma aclamação a Arquelau, para felicitá-lo pela ascensão, e os soldados, junto com a multidão, andavam em grupos prometendo-lhe lealdade e ainda rogando a Deus que abençoasse seu governo. Depois disso, dedicaram-se a preparar o funeral do rei. Arquelau não poupou nada em magnificência, e trouxe todos os ornamentos reais para aumentar a pompa do morto. Havia um esquife todo de ouro, bordado com pedras preciosas, e um leito de púrpura de tecido variado, com o corpo morto sobre ele, coberto de púrpura. Puseram-lhe um diadema na cabeça, uma coroa de ouro acima dele e um cetro na mão direita. Perto do esquife estavam os filhos de Herodes e uma multidão de parentes. Em seguida vinham os guardas e o regimento dos trácios, os germanos também, e os gauleses, todos equipados como se fossem para a guerra. Mas o resto do exército ia à frente, armado, seguindo seus capitães e oficiais de forma ordenada. Depois deles, quinhentos criados e libertos da casa seguiam com especiarias perfumadas nas mãos. O corpo foi levado por duzentos estádios até Herodião, onde Herodes dera ordem de ser sepultado. E isto basta como conclusão da vida de Herodes.