A Guerra dos Judeus - Livro I 17
Livro I: dos Macabeus à morte de Herodes, o Grande
A morte de José [irmão de Herodes], anunciada a Herodes em sonhos. Como Herodes foi salvo duas vezes de maneira admirável. Ele corta a cabeça de Pappus, o assassino de seu irmão, e a envia a [seu outro irmão] Feroras. E, em pouco tempo, sitia Jerusalém e se casa com Mariane.
Nesse meio-tempo, a situação de Herodes na Judeia ia mal. Ele havia deixado seu irmão José com plenos poderes, mas o instruíra a não fazer nenhuma investida contra Antígono até seu retorno, pois Macheras não seria um aliado em quem se pudesse confiar, como ficou claro pelo que já tinha feito. Assim que José soube que o irmão estava muito longe, no entanto, desprezou a ordem recebida e marchou em direção a Jericó com cinco coortes que Macheras enviou com ele. Essa operação tinha como objetivo apossar-se do trigo, já que estavam em pleno verão. Mas quando seus inimigos o atacaram nas montanhas, em lugares de passagem difícil, ele próprio acabou morto, lutando com muita bravura na batalha, e todas as coortes romanas foram destruídas. Essas coortes eram homens recém-recrutados, reunidos na Síria, e não havia entre eles nenhuma mistura dos chamados soldados veteranos, que poderiam ter dado sustentação aos inexperientes na guerra.
Essa vitória não bastou a Antígono. Ele chegou a tal grau de fúria que tratou o cadáver de José de forma bárbara: depois de tomar posse dos corpos dos mortos, cortou-lhe a cabeça, embora seu irmão Feroras estivesse disposto a pagar cinquenta talentos como preço de resgate. E agora os assuntos da Galileia caíram em tamanha desordem depois dessa vitória de Antígono que os partidários dele levaram os principais homens do lado de Herodes até o lago e ali os afogaram. Houve também uma grande mudança na Idumeia, onde Macheras erguia um muro em torno de uma das fortalezas, chamada Gitta. Herodes ainda não tinha sido informado dessas coisas, pois depois da tomada de Samósata, quando Antônio pôs Sósio à frente dos assuntos da Síria e lhe deu ordens para ajudar Herodes contra Antígono, ele partiu para o Egito. Sósio, então, enviou duas legiões à frente para a Judeia, em auxílio a Herodes, e logo seguiu em pessoa com o resto do seu exército.
Quando Herodes estava em Dafne, perto de Antioquia, teve alguns sonhos que claramente pressagiavam a morte do irmão. Ao saltar da cama, agitado, chegaram mensageiros que lhe deram notícia daquela tragédia. Depois de lamentar a desgraça por algum tempo, deixou de lado a maior parte do luto e apressou-se a marchar contra os inimigos. Tendo cumprido uma marcha acima de suas forças e chegado até o Líbano, recrutou oitocentos homens dos que viviam perto daquela montanha como auxiliares e juntou a eles uma legião romana. Com essa força, antes do amanhecer, fez uma incursão na Galileia, enfrentou os inimigos e os empurrou de volta ao lugar de onde tinham saído. Lançou também um ataque imediato e contínuo contra a fortaleza. Ainda assim, uma tempestade terrível o obrigou a acampar nas aldeias vizinhas antes que pudesse tomá-la. Mas alguns dias depois, quando a segunda legião enviada por Antônio se juntou a ele, os inimigos se assustaram com o seu poder e abandonaram as fortificações durante a noite.
Depois disso, ele marchou através de Jericó, com toda a pressa que podia, para se vingar dos assassinos do irmão. Ali lhe ocorreu um sinal providencial, do qual escapou de forma inesperada, ganhando assim a reputação de ser muito querido por Deus. Naquela noite, muitos dos principais homens jantaram com ele. Terminado o banquete, depois que todos os convidados saíram, a casa desabou imediatamente. Como julgou que aquilo era um sinal geral dos perigos que enfrentaria e de como escaparia deles na guerra que estava prestes a travar, partiu de manhã com o exército. Cerca de seis mil inimigos desceram correndo das montanhas e começaram a lutar com os que iam na vanguarda. Mesmo assim, não tiveram audácia suficiente para enfrentar os romanos no corpo a corpo, mas atiravam pedras e dardos a distância, e com isso feriram um número considerável de homens. Nessa ação, o próprio Herodes foi ferido por um dardo.
Como Antígono queria parecer superior a Herodes não só na coragem, mas também no número de homens, enviou Pappus, um de seus companheiros, com um exército contra Samaria, e coube a ele enfrentar Macheras. Mas Herodes percorreu o território inimigo, arrasou cinco pequenas cidades, matou dois mil homens que estavam nelas, queimou suas casas e então voltou ao acampamento. Seu quartel-general ficava na aldeia chamada Caná.
Todos os dias uma grande multidão de judeus se reunia em torno dele, tanto de Jericó quanto de outras partes da região. Alguns eram movidos pelo ódio a Antígono, outros pela admiração às ações gloriosas de Herodes, mas havia ainda os levados por um desejo irracional de mudança. Ele os atacou de imediato. Quanto a Pappus e seu grupo, não se intimidaram nem com o número nem com o ardor dos inimigos, mas avançaram com grande disposição para combatê-los, e travou-se uma luta cerrada. Outras partes do exército de Antígono resistiram por algum tempo. Mas Herodes, correndo o maior dos riscos, tomado pela fúria diante do assassinato do irmão e querendo vingar-se dos responsáveis, logo derrotou os que o enfrentavam. Depois de vencê-los, voltava sempre suas forças contra os que ainda resistiam e perseguia a todos. Houve, assim, uma grande matança: alguns foram empurrados de volta para a aldeia de onde tinham saído. Ele também pressionou com força a retaguarda e matou um número enorme de homens. Entrou na aldeia junto com os inimigos, onde cada casa estava cheia de homens armados, e os andares superiores apinhados de soldados em defesa. Depois de derrotar os que estavam do lado de fora, mandou desmontar as casas e arrancar de dentro os que ali se escondiam. Sobre muitos, fez desabar os telhados, de modo que morreram aos montes. E quanto aos que fugiam dos escombros, os soldados os recebiam de espada na mão. A quantidade de mortos amontoados era tamanha que os vencedores não conseguiam passar pelas estradas. O inimigo não suportou esse golpe: quando a multidão reunida viu que os que estavam na aldeia tinham sido mortos, dispersou-se e fugiu. Confiante nessa vitória, Herodes teria marchado de imediato para Jerusalém, não fosse impedido pelo rigor do inverno que se aproximava. Esse foi o obstáculo no caminho de todo o seu avanço glorioso, e foi o que impediu que Antígono fosse derrotado naquele momento, ele que já estava inclinado a abandonar a cidade.
À noite, Herodes já havia dispensado os amigos para que descansassem da fadiga. Ele próprio tinha ido se banhar, ainda suado dentro da armadura, como um soldado comum, acompanhado de apenas um servo. Antes de entrar no banho, um dos inimigos veio de frente para ele com a espada na mão, depois um segundo, depois um terceiro e em seguida mais deles. Eram homens que tinham fugido da batalha para o banho com suas armaduras e ali permaneciam havia algum tempo, tomados de terror e escondidos. Quando viram o rei, tremeram de medo e passaram correndo por ele em fuga, embora ele estivesse nu, tentando alcançar a estrada pública. Por acaso, não havia mais ninguém por perto que pudesse capturar esses homens. Herodes ficou satisfeito por não ter sofrido nenhum dano, e assim todos eles escaparam em segurança.
No dia seguinte, Herodes mandou cortar a cabeça de Pappus, que era o general de Antígono e havia sido morto na batalha, e a enviou a seu irmão Feroras como punição pelo irmão que tinham matado, pois Pappus era quem matara José. Quando o inverno chegava ao fim, Herodes marchou para Jerusalém e levou o exército até a muralha da cidade. Era o terceiro ano desde que tinha sido feito rei em Roma. Acampou diante do templo, pois por aquele lado a cidade podia ser sitiada, e foi ali que Pompeu a tomara. Dividiu o trabalho entre o exército, demoliu os subúrbios, ergueu três aterros e deu ordens para que torres fossem construídas sobre eles, deixando os mais esforçados entre seus conhecidos nas obras. Mas ele próprio foi a Samaria casar-se com a filha de Alexandre, filho de Aristóbulo, que lhe havia sido prometida antes, como já dissemos. Realizou isso de passagem, durante o cerco da cidade, pois já tinha os inimigos em grande desprezo.
Depois de se casar com Mariane, voltou a Jerusalém com um exército ainda maior. Sósio também se juntou a ele com uma grande força, de cavaleiros e de infantes, que enviou à frente pelas regiões do interior, enquanto ele próprio marchava ao longo da Fenícia. Quando todo o exército se reuniu, somando onze regimentos de infantaria e seis mil cavaleiros, além dos auxiliares sírios, que não eram parte pequena do exército, acamparam perto da muralha norte. Herodes apoiava-se no decreto do senado que o fizera rei, e Sósio contava com Antônio, que enviara o exército sob seu comando em auxílio a Herodes.