Cartas - Livro IV 7
Cartas sobre casamento, generosidade cívica, processos e a arte de escrever
Caio Plínio a Cácio Lépido, seu amigo, saudações.
Eu lhe digo muitas vezes que há força em Régulo. É impressionante o que ele consegue naquilo a que se dedica. Resolveu chorar o filho: chora como ninguém. Resolveu fazer o maior número possível de estátuas e retratos dele: ocupa todas as oficinas com isso, representando-o em tintas, em cera, em bronze, em prata, em ouro, em marfim e em mármore.
E ele mesmo, há pouco, diante de um auditório enorme que reuniu, recitou um livro sobre a vida dele; a vida de um menino, mas mesmo assim recitou. E esse mesmo livro, copiado em mil exemplares, distribuiu por toda a Itália e pelas províncias. Escreveu oficialmente para que os decuriões escolhessem entre eles alguém de voz potente para ler o livro ao povo: e assim foi feito.
Essa força, ou seja qual for o nome dessa determinação de obter o que quer, se ele a tivesse voltado para coisas melhores, quanto bem poderia ter feito! Embora os bons tenham menos força do que os maus, e assim como a ignorância gera audácia e a reflexão gera hesitação, assim a modéstia enfraquece os talentos retos e a audácia fortalece os perversos.
Régulo é o exemplo. Pulmões fracos, fala confusa, língua que gagueja, raciocínio lentíssimo, memória nenhuma, nada, em suma, além de um talento insano; e mesmo assim, pela impudência e por essa mesma loucura, chegou a ser tido como orador.
Por isso Herênio Senecião voltou contra ele, de modo admirável, aquela definição de orador de Catão, invertendo-a: 'O orador é um homem mau inábil em falar.' Por Hércules, nem o próprio Catão definiu tão bem o verdadeiro orador quanto este definiu Régulo.
Você tem como retribuir uma carta dessas com graça igual? Tem, se me escrever contando se algum dos meus companheiros na sua cidade, ou até você mesmo, leu esse lamentável livro de Régulo no foro, como um vendedor ambulante, levantando a voz, como diz Demóstenes, exultante e esgoelando-se.
Pois é tão ridículo que provoca mais riso do que pranto: você acreditaria que não foi escrito sobre um menino, mas por um menino. Até logo.