Cartas - Livro IV 30

Cartas sobre casamento, generosidade cívica, processos e a arte de escrever

Caio Plínio a seu caro Licínio Sura, saudações.

Trouxe para você, da minha terra natal, a título de pequeno presente, uma questão digníssima dessa sua profundíssima erudição.
Uma fonte brota na montanha, desce por entre as rochas e é recolhida numa pequena sala de jantar feita à mão; ali, retida por um instante, despenca no lago Lário. Sua natureza é admirável: três vezes por dia ela cresce e decresce, com aumentos e diminuições em horas fixas.
Isso se claramente e se observa com o maior prazer. Você se recosta ao lado e come, e bebe até da própria fonte (pois é geladíssima); enquanto isso, ela, em momentos certos e medidos, ora baixa, ora sobe.
Você coloca um anel ou outra coisa qualquer num ponto seco: a água o alcança aos poucos e por fim o cobre, depois o descobre de novo e gradualmente o deixa a seco. Se observar por mais tempo, verá os dois processos uma segunda e uma terceira vez.
Será que algum sopro mais oculto ora alarga, ora fecha a boca e a garganta da fonte, conforme entra e a encontra ou se retira, expulso?
É o que vemos acontecer nos frascos e em outros recipientes do mesmo tipo, cuja saída não é aberta nem imediatamente livre. Pois também eles, embora inclinados e virados, retêm o que derramam, por certas pausas do ar que resiste, como que em soluços repetidos.
Ou será que esta fonte tem a mesma natureza do oceano, e, pela mesma razão por que ele é impelido ou reabsorvido, esta umidade modesta é alternadamente suprimida e expelida?
Ou será que, assim como os rios que correm para o mar são repelidos por ventos contrários e pela maré que os enfrenta, algo que repele o curso desta fonte?
Ou haverá nas veias ocultas uma medida certa, de modo que, enquanto reúne o que esvaziara, o fluxo é menor e mais lento, e, quando o reuniu, jorra mais ágil e mais abundante?
Ou haverá não sei que contrapeso escondido e cego que, quando esvaziado, ergue e atrai a fonte, e, quando cheio, a retém e a sufoca?
Investigue você as causas (pois você é capaz) que produzem tamanho prodígio: a mim basta, e mais que isso, ter descrito bem o que se produz. Até logo.