Cartas - Livro IV 24

Cartas sobre casamento, generosidade cívica, processos e a arte de escrever

Caio Plínio a seu caro Fábio Valente, saudações.

pouco, depois que falei diante dos centúnviros num julgamento de quatro tribunais reunidos, veio-me à lembrança que eu havia atuado, ainda jovem, igualmente num julgamento de quatro tribunais.
A mente, como costuma, avançou para mais longe: comecei a recordar quais companheiros de trabalho eu tivera neste julgamento e quais naquele. Eu era o único que tinha falado em ambos: tamanhas mudanças produzem ou a fragilidade da condição mortal ou a inconstância da fortuna.
Alguns dos que então atuaram morreram, outros estão no exílio; a um a idade e a saúde aconselharam o silêncio, outro desfruta por vontade própria de um ócio felicíssimo; um comanda um exército, a outro a amizade do imperador afastou dos deveres civis.
Quantas coisas mudaram à nossa volta! Pelos estudos avançamos, pelos estudos corremos perigo, e de novo avançamos:
as amizades dos homens de bem nos serviram, as dos homens de bem nos prejudicaram e de novo nos servem. Se você contar os anos, é tempo escasso; se contar as reviravoltas, julgaria ser uma era inteira;
o que pode servir de lição para nada desesperar, em nada confiar, quando vemos tantas variações girar num mundo tão volúvel.
Para mim é hábito compartilhar com você todos os meus pensamentos e adverti-lo com os mesmos preceitos ou exemplos com que advirto a mim mesmo; e esta foi a razão desta carta. Até logo.