Antiguidades Judaicas - Livro II 16

Livro II: José no Egito, Moisés e o Êxodo

Como o mar se dividiu para os hebreus, quando eram perseguidos pelos egípcios, dando-lhes oportunidade de escapar deles.

Depois de dizer isso, Moisés conduziu o povo até o mar, à vista dos egípcios, que estavam por perto. Mas eles vinham tão exaustos pela fadiga da perseguição que resolveram adiar o combate para o dia seguinte. Quando chegou à beira do mar, Moisés tomou o seu cajado e suplicou a Deus, invocando-o como auxílio e socorro, e disse: "Tu sabes, Senhor, que está além da força e da capacidade humanas escapar das dificuldades em que nos encontramos. a ti cabe trazer livramento a este exército, que deixou o Egito por tua ordem. Não esperamos nenhum outro socorro nem recurso, e recorremos apenas à esperança que temos em ti. Se existe algum meio que nos prometa fuga pela tua providência, é a ti que olhamos para obtê-lo. Que venha depressa e manifeste a tua força diante de nós. Levanta este povo para a coragem e a esperança de livramento, pois ele afundou num profundo desânimo. Estamos num lugar sem saída, mas ainda assim é um lugar que te pertence. O mar é teu, e tuas são as montanhas que nos cercam. Por isso estas montanhas se abrirão, se tu ordenares, e o mar também, se tu ordenares, virará terra seca. Aliás, poderíamos escapar voando pelos ares, se tu decidisses dar-nos esse caminho de salvação."
Depois de dirigir essas palavras a Deus, Moisés feriu o mar com o cajado. As águas se partiram ao golpe e, recolhendo-se sobre si mesmas, deixaram o chão seco, como estrada e via de fuga para os hebreus. Ao ver essa manifestação de Deus, e que o mar se afastava do seu lugar deixando terra seca, Moisés foi o primeiro a entrar nele. Mandou que os hebreus o seguissem por aquela estrada divina, que se alegrassem com o perigo em que estavam os inimigos que os perseguiam, e que dessem graças a Deus por um livramento tão surpreendente vindo dele.
Enquanto os hebreus não paravam, mas avançavam com afinco, guiados pela presença de Deus com eles, os egípcios pensaram a princípio que estavam fora de si e corriam de modo imprudente para a destruição certa. Mas, ao verem que haviam percorrido um longo trecho sem nenhum dano e que nenhum obstáculo ou dificuldade lhes surgia no caminho, apressaram-se a persegui-los, na esperança de que o mar também ficasse calmo para eles. Puseram a cavalaria à frente e desceram eles mesmos ao mar. Os hebreus, enquanto os egípcios vestiam suas armaduras e gastavam tempo nisso, saíram na frente, escaparam deles e chegaram primeiro à terra do outro lado, sem nenhum dano. Isso animou os egípcios, que os perseguiram com mais ousadia, esperando que tampouco a eles viesse algum mal. Mas os egípcios não perceberam que entravam numa estrada feita para os hebreus, e não para outros, uma estrada feita para o livramento dos que estavam em perigo, e não para os que ansiavam por usá-la para a destruição alheia. Por isso, assim que todo o exército egípcio estava dentro dela, o mar voltou ao seu lugar e desceu numa torrente levantada por tempestades de vento, cercando os egípcios. Caíram também chuvas do céu, trovões terríveis e relâmpagos, com lampejos de fogo. Raios também foram lançados contra eles. Não houve nada do que Deus costuma enviar sobre os homens como sinal de sua ira que não acontecesse naquele momento. Uma noite escura e sombria caiu sobre eles. E assim todos esses homens pereceram, de modo que não restou um único homem para ser mensageiro dessa calamidade aos demais egípcios.
Os hebreus não conseguiam se conter de alegria diante do seu livramento extraordinário e da destruição dos inimigos. Agora de fato se julgavam firmemente livres, depois que os que queriam forçá-los à escravidão foram destruídos, e ao verem que tinham Deus tão claramente por protetor. Tendo escapado do perigo dessa maneira, e além disso vendo os inimigos punidos de um modo nunca registrado a respeito de nenhum outro povo, os hebreus passaram a noite inteira cantando hinos e em festa. Moisés também compôs um cântico a Deus, com seus louvores e ações de graças por sua bondade, em versos hexâmetros.
Quanto a mim, narrei cada parte desta história tal como a encontrei nos Livros sagrados. E ninguém se admire do estranho da narrativa, como se um caminho tivesse sido aberto para aqueles homens de tempos antigos, que estavam livres da maldade das eras modernas, quer isso tenha acontecido pela vontade de Deus, quer por si mesmo. Pois, em favor dos que acompanhavam Alexandre, rei da Macedônia, que viveu relativamente pouco tempo, o mar da Panfília recuou e lhes abriu passagem por si mesmo, quando não tinham outro caminho a seguir. Refiro-me ao momento em que era a vontade de Deus destruir a monarquia dos persas. E isso é reconhecido como verdadeiro por todos os que escreveram sobre os feitos de Alexandre. Mas, quanto a esses acontecimentos, que cada um decida como quiser.
No dia seguinte, Moisés recolheu as armas dos egípcios, que foram trazidas ao acampamento dos hebreus pela corrente do mar e pela força dos ventos que a ajudava. Ele concluiu que isso também acontecera por providência divina, para que não ficassem sem armas. Então, depois de mandar que os hebreus se armassem com elas, conduziu-os ao monte Sinai, a fim de oferecer sacrifício a Deus e fazer oblações pela salvação da multidão, como lhe fora ordenado de antemão.