Antiguidades Judaicas - Livro I 4
Livro I: da Criação a Isaque e Jacó
A respeito da Torre da Babilônia e da confusão das línguas.
Noé teve três filhos: Sem, Jafé e Cam, nascidos cem anos antes do dilúvio. Foram eles os primeiros a descer das montanhas para as planícies e a fixar ali moradia. Convenceram outros, que temiam muito as terras baixas por causa do dilúvio e por isso resistiam a deixar os lugares altos, a se arriscar e seguir o exemplo deles. A planície em que se estabeleceram primeiro chamava-se Sinar. Deus também lhes ordenou que enviassem colônias para longe, a fim de povoar toda a terra, para que não provocassem revoltas entre si, mas cultivassem grande parte da terra e desfrutassem de seus frutos em abundância. Mas eram tão mal instruídos que não obedeceram a Deus. Por isso caíram em calamidades e perceberam pela experiência de que pecado tinham sido culpados. Pois, quando prosperavam com uma juventude numerosa, Deus os exortou novamente a enviar colônias. Mas eles, imaginando que a prosperidade de que gozavam não vinha do favor de Deus, e supondo que o próprio poder deles era a verdadeira causa da abundância em que viviam, não lhe obedeceram. Mais ainda: a essa desobediência à vontade divina acrescentaram a suspeita de que tinham recebido a ordem de fundar colônias separadas justamente para que, divididos uns dos outros, fossem oprimidos com mais facilidade.
Foi Ninrode quem os incitou a tal afronta e desprezo a Deus. Ele era neto de Cam, o filho de Noé, homem ousado e de grande força nas mãos. Persuadiu o povo a não atribuir a Deus a sua felicidade, como se ela viesse por meio dele, mas a acreditar que era a própria coragem deles que lhes garantia essa felicidade. Aos poucos, transformou o governo em tirania, pois não via outra forma de afastar os homens do temor de Deus senão colocá-los em dependência constante de seu próprio poder. Ele também dizia que se vingaria de Deus, caso Deus quisesse afogar o mundo de novo, pois construiria uma torre alta demais para que as águas pudessem alcançá-la, e assim vingaria a destruição de seus antepassados.
A multidão estava bem disposta a seguir a decisão de Ninrode e a considerar covardia submeter-se a Deus. Então construíram uma torre, sem poupar esforços nem se descuidar do trabalho. Por causa da quantidade de mãos empregadas nela, a torre cresceu muito, mais depressa do que qualquer um esperava. Mas sua espessura era tão grande e a construção tão sólida que, à vista, sua grande altura parecia menor do que realmente era. Foi construída com tijolos cozidos, unidos por argamassa feita de betume, para que não estivesse sujeita a deixar entrar água. Quando Deus viu que agiam com tamanha loucura, não resolveu destruí-los por completo, já que não tinham ficado mais sábios com a destruição dos pecadores anteriores. Mas provocou um tumulto entre eles, fazendo surgir línguas diferentes e fazendo com que, pela multidão dessas línguas, não conseguissem se entender uns aos outros. O lugar onde construíram a torre chama-se hoje Babilônia, por causa da confusão daquela língua que antes compreendiam com facilidade, pois os hebreus designam pela palavra Babel a confusão. A Sibila também menciona essa torre e a confusão das línguas, quando diz o seguinte: "Quando todos os homens eram de uma só língua, alguns deles construíram uma torre alta, como se assim pudessem subir ao céu. Mas os deuses enviaram tempestades de vento e derrubaram a torre, e deram a cada um a sua própria língua. E foi por isso que a cidade se chamou Babilônia." Quanto à planície de Sinar, na região da Babilônia, Hesteu a menciona quando diz o seguinte: "Os sacerdotes que se salvaram tomaram os vasos sagrados de Júpiter Enialo e vieram para Sinar da Babilônia."