O Sonho de um Homem Ridículo 5

Conto de 1877: um niilista decide se matar, sonha com uma terra sem pecado, provoca a sua queda e desperta convertido à verdade de que bastaria amar uns aos outros

A corrupção do paraíso e a verdade que ele viu

Sim, sim, tudo terminou comigo corrompendo todos eles! Como isso pôde acontecer eu não sei, mas me lembro com clareza. O sonho abraçou milhares de anos e deixou em mim apenas a sensação do todo. sei que eu fui a causa do pecado e da ruína deles.
Como uma triquina vil, como um germe da peste que infecta reinos inteiros, foi assim que eu contaminei toda aquela terra, tão feliz e sem pecado antes da minha chegada. Eles aprenderam a mentir, ganharam gosto pela mentira e descobriram o encanto da falsidade.
No começo talvez tenha começado de modo inocente, com uma brincadeira, com galanteio, com um jogo amoroso, talvez de fato com um germe; mas esse germe da falsidade abriu caminho até o coração deles e os agradou. Então logo nasceu a sensualidade, a sensualidade gerou o ciúme, o ciúme gerou a crueldade... Ah, eu não sei, eu não me lembro; mas logo, muito logo correu o primeiro sangue.
Eles ficaram pasmos e horrorizados, e começaram a se cindir e a se dividir. Formaram alianças, mas era cada um contra o outro. Vieram as censuras, as recriminações. Eles vieram a conhecer a vergonha, e a vergonha os levou à virtude. Surgiu a concepção da honra, e cada aliança começou a agitar suas bandeiras.
Começaram a torturar os animais, e os animais se afastaram deles para dentro das florestas e se tornaram hostis a eles. Começaram a lutar pela separação, pelo isolamento, pela individualidade, pelo meu e pelo teu. Começaram a falar línguas diferentes. Vieram a conhecer a dor e amaram a dor; tiveram sede de sofrimento, e diziam que a verdade podia ser alcançada através do sofrimento. Então surgiu a ciência.
À medida que se tornavam maus, começaram a falar de fraternidade e de humanitarismo, e compreendiam essas ideias. À medida que se tornavam criminosos, inventaram a justiça e redigiram códigos legais inteiros para observá-la, e, para garantir que fossem cumpridos, ergueram uma guilhotina.
Eles mal se lembravam do que tinham perdido; na verdade, se recusavam a crer que algum dia tinham sido felizes e inocentes. Chegavam a rir da possibilidade dessa felicidade no passado, e a chamavam de sonho. Não conseguiam nem imaginá-la em forma e figura definidas, mas, coisa estranha e admirável de contar, embora tivessem perdido toda a na sua felicidade passada e a chamassem de lenda, ansiavam tanto por ser felizes e inocentes mais uma vez que sucumbiram a esse desejo como crianças, fizeram dele um ídolo, ergueram templos e adoraram a sua própria ideia, o seu próprio desejo; e, ao mesmo tempo, embora cressem plenamente que era inatingível e não podia se realizar, mesmo assim se curvavam diante dele e o adoravam em lágrimas!
Ainda assim, se tivesse acontecido de eles retornarem à condição inocente e feliz que haviam perdido, e se alguém a tivesse mostrado a eles outra vez e lhes perguntado se queriam voltar a ela, com certeza teriam recusado. Eles me responderam:
"Podemos ser falsos, maus e injustos, nós sabemos disso e choramos por isso, nos afligimos por isso; nós nos atormentamos e nos punimos talvez mais do que aquele Juiz misericordioso que nos julgará e cujo Nome não conhecemos. Mas nós temos a ciência, e por meio dela vamos encontrar a verdade e vamos chegar a ela conscientemente. O conhecimento é mais alto que o sentimento, a consciência da vida é mais alta que a vida. A ciência vai nos dar a sabedoria, a sabedoria vai revelar as leis, e o conhecimento das leis da felicidade é mais alto que a felicidade."
Foi isso que eles disseram, e depois de dizer tais coisas cada um começou a amar a si mesmo mais do que a qualquer outro, e na verdade não podiam agir de outro modo. Todos ficaram tão ciumentos dos direitos da própria personalidade que faziam o máximo possível para cercear e destruir esses direitos nos outros, e fizeram disso a coisa principal da vida.
Veio a escravidão, até mesmo a escravidão voluntária; o fraco se submetia avidamente ao forte, com a condição de que este o ajudasse a subjugar o ainda mais fraco. Então vieram santos a esse povo, chorando, e lhes falaram do seu orgulho, da sua perda de harmonia e de justa proporção, da sua perda da vergonha. Foram alvo de riso ou apedrejados. Sangue santo correu no umbral dos templos.
Então surgiram homens que começaram a pensar em como reunir todos de novo, de modo que cada um, mesmo amando a si mesmo acima de tudo, não interferisse nos outros, e todos pudessem viver juntos em algo parecido com uma sociedade harmoniosa. Verdadeiras guerras nasceram em torno dessa ideia.
Todos os combatentes, ao mesmo tempo, criam firmemente que a ciência, a sabedoria e o instinto de autopreservação acabariam por forçar os homens a se unir numa sociedade harmoniosa e racional; e assim, enquanto isso, para apressar as coisas, "os sábios" se esforçavam para exterminar o mais rápido possível todos os que "não eram sábios" e não compreendiam a sua ideia, para que estes não atrapalhassem o seu triunfo.
Mas o instinto de autopreservação foi enfraquecendo depressa; surgiram homens, soberbos e sensuais, que exigiam tudo ou nada. Para obter tudo, recorriam ao crime, e, se não tinham êxito, ao suicídio. Surgiram religiões com um culto da não existência e da autodestruição em nome da paz eterna do aniquilamento.
Por fim esse povo se cansou do seu trabalho sem sentido, e sinais de sofrimento vieram aos seus rostos, e então proclamaram que o sofrimento era uma beleza, pois no sofrimento havia sentido. Eles glorificavam o sofrimento em suas canções.
Eu andava no meio deles, torcendo as mãos e chorando por eles, mas eu os amava talvez mais do que antigamente, quando não havia sofrimento nos seus rostos e quando eles eram inocentes e tão belos. Eu amava a terra que eles haviam poluído ainda mais do que quando era um paraíso, quando mais não fosse porque a tristeza tinha chegado a ela. Ai de mim! Eu sempre amei a tristeza e a tribulação, mas para mim, para mim; quanto a eles, eu chorava, com pena deles.
Eu estendia as mãos para eles em desespero, acusando, amaldiçoando e desprezando a mim mesmo. Eu lhes dizia que tudo aquilo era obra minha, minha; que tinha sido eu a trazer a eles a corrupção, a contaminação e a falsidade. Eu lhes implorava que me crucificassem, eu lhes ensinava a fazer uma cruz.
Eu não conseguia me matar, eu não tinha forças, mas queria sofrer nas mãos deles. Eu ansiava pelo sofrimento, anelava que o meu sangue fosse derramado até a última gota nessas agonias. Mas eles riam de mim, e por fim começaram a me ver como um louco.
Eles me davam razão, declaravam que tinham apenas obtido o que eles mesmos queriam, e que tudo o que agora existia não podia ter sido de outro modo. Por fim me declararam que eu estava me tornando perigoso, e que me trancariam num manicômio se eu não calasse a boca. Então uma tristeza tal tomou conta da minha alma que o meu coração se apertou, e eu senti como se estivesse morrendo; e então... então eu acordei.
Era de manhã, ou seja, ainda não era dia claro, mas eram quase seis horas. Acordei na mesma poltrona; minha vela tinha se consumido; todos dormiam no quarto do capitão, e havia um silêncio em volta, raro no nosso apartamento.
Antes de tudo, levantei de um salto em grande assombro: nada parecido jamais tinha acontecido comigo, nem mesmo no detalhe mais banal; eu nunca, por exemplo, tinha dormido daquele jeito na poltrona. Enquanto eu estava de e voltava a mim, de repente avistei o meu revólver caído ali, carregado, pronto, mas no mesmo instante o empurrei para longe!
Ah, agora, vida, vida! Ergui as mãos e clamei à verdade eterna, não com palavras, mas com lágrimas; o êxtase, um êxtase incomensurável, inundou a minha alma. Sim, vida e a difusão da boa nova! Ah, naquele momento eu resolvi difundir a nova, e resolvi, claro, para a vida inteira. Eu vou difundir a nova, eu quero difundir a nova, de quê? Da verdade, pois eu a vi, vi com os meus próprios olhos, vi em toda a sua glória.
E desde então eu venho pregando! Mais do que isso, eu amo todos os que riem de mim mais do que a qualquer outro. Por que isso é assim eu não sei e não consigo explicar, mas que seja. Dizem que eu sou vago e confuso, e, se eu sou vago e confuso agora, o que serei mais adiante? É verdade mesmo: eu sou vago e confuso, e talvez, com o passar do tempo, fique ainda mais.
E claro que vou cometer muitos enganos antes de descobrir como pregar, ou seja, descobrir que palavras dizer, que coisas fazer, pois é uma tarefa muito difícil. Eu vejo tudo isso claro como a luz do dia, mas, escutem, quem é que não comete erros? E, no entanto, vocês sabem, todos rumam para o mesmo alvo, todos buscam de qualquer modo a mesma direção, do sábio ao mais reles ladrão, que por estradas diferentes. É uma verdade velha, mas eis o que de novo: eu não posso errar muito.
Pois eu vi a verdade; eu a vi e sei que as pessoas podem ser belas e felizes sem perder a capacidade de viver na terra. Eu não vou crer e não posso crer que o mal seja a condição normal da humanidade. E é justamente dessa minha que eles riem. Mas como é que eu posso deixar de crer nela? Eu vi a verdade, não é como se eu a tivesse inventado com a minha mente, eu a vi, vi, e a imagem viva dela encheu a minha alma para sempre.
Eu a vi em tal perfeição plena que não consigo crer que seja impossível as pessoas a terem. E então, como é que eu posso errar? Vou dar alguns escorregões, sem dúvida, e talvez fale numa linguagem de segunda mão, mas não por muito tempo: a imagem viva do que eu vi estará sempre comigo e sempre vai me corrigir e me guiar. Ah, eu estou cheio de coragem e de frescor, e vou seguir em frente, em frente, ainda que por mil anos!
Vocês sabem, no começo eu pretendia esconder o fato de que os corrompi, mas isso foi um erro, foi o meu primeiro erro! Mas a verdade me sussurrou que eu estava mentindo, e me preservou e me corrigiu. Mas como estabelecer o paraíso, eu não sei, porque não sei pôr isso em palavras. Depois do meu sonho eu perdi o domínio das palavras. Todas as palavras principais, de todo modo, as mais necessárias.
Mas não importa: eu vou e vou seguir falando, não vou parar, pois de qualquer modo eu a vi com os meus próprios olhos, embora não consiga descrever o que vi. Mas os zombadores não compreendem isso. Foi um sonho, dizem eles, delírio, alucinação. Ah! Como se isso quisesse dizer tanta coisa! E eles são tão orgulhosos! Um sonho! O que é um sonho? E a nossa vida não é um sonho?
Vou dizer mais. Suponham que esse paraíso jamais venha a acontecer (isso eu compreendo), mesmo assim eu vou continuar a pregá-lo. E, no entanto, como é simples: num único dia, numa única hora, tudo poderia se ajeitar de uma vez! A coisa principal é amar os outros como a si mesmo, eis a grande coisa, e isso é tudo; mais nada é preciso, vocês vão descobrir na mesma hora como ajeitar tudo.
E, no entanto, é uma verdade velha que foi dita e redita um bilhão de vezes, mas não passou a fazer parte das nossas vidas! A consciência da vida é mais alta que a vida, o conhecimento das leis da felicidade é mais alto que a felicidade, é contra isso que se tem de lutar. E eu vou lutar. Se ao menos todos quiserem, tudo pode se ajeitar de uma vez.
E eu fui atrás daquela menininha... e vou seguir em frente, em frente!