O Mujique Marei 1
Conto-memória de 1876: preso na Sibéria, Dostoiévski recorda como na infância o camponês Marei o consolou com ternura, e por essa lembrança reencontra a dignidade do povo que o cercava
E quando desci da tarima e olhei ao meu redor, lembro que de repente senti que podia olhar para aquelas pobres criaturas com olhos bem diferentes, e que, por algum milagre, todo o ódio e toda a raiva tinham sumido por completo do meu coração. Andei de um lado para outro, fitando os rostos que cruzavam comigo. Aquele camponês de cabeça raspada, com a face marcada a ferro como a de um criminoso, berrando a sua canção rouca de bêbado, pode ser que seja justamente aquele Marei; eu não posso enxergar dentro do seu coração.