O Mujique Marei 1

Conto-memória de 1876: preso na Sibéria, Dostoiévski recorda como na infância o camponês Marei o consolou com ternura, e por essa lembrança reencontra a dignidade do povo que o cercava

Entendi, enfim, que não havia lobo nenhum, e que o grito que eu ouvira era coisa da minha cabeça. Mesmo assim, aquele grito tinha sido tão claro e nítido, mas gritos desses (não de lobos) eu tinha imaginado uma ou duas vezes antes, e disso eu tinha consciência. (Essas alucinações foram passando mais tarde, conforme cresci.) "Bom, então eu vou indo", disse, olhando para ele com timidez, como a pedir permissão. "Pode ir, e eu fico de olho em você enquanto vai. Não deixo o lobo te pegar", acrescentou, ainda sorrindo para mim com a mesma expressão maternal. "Pronto, Cristo esteja com você! Vai, corre então." E fez o sinal da cruz sobre mim e depois sobre si mesmo.