O Banquete 6
O diálogo de Platão sobre o amor (Eros): sete discursos num banquete ateniense que culminam na ascensão da alma do belo sensível ao Belo em si
Discurso de Agatão: Eros, o mais jovem e belo dos deuses
Muito bem, Fedro, disse Agatão. Não vejo motivo para não fazer meu discurso, pois terei muitas outras chances de conversar com Sócrates. Deixe-me dizer primeiro como devo falar, e só depois falar.
Os que falaram antes de mim, em vez de elogiar o deus Amor ou explicar a sua natureza, parecem ter felicitado os homens pelos benefícios que ele lhes traz. Eu prefiro elogiar primeiro o próprio deus, e só depois falar dos seus dons. Esse é sempre o modo certo de elogiar qualquer coisa.
Posso dizer, sem ser ímpio nem ofender, que de todos os deuses felizes ele é o mais feliz, porque é o mais belo e o melhor. E é o mais belo: para começar, é o mais jovem dos deuses.
Da sua juventude ele mesmo é a prova, pois foge da velhice, que é bem rápida, mais rápida do que gostaríamos. O Amor a detesta e nem chega perto dela. Ele anda sempre com os jovens, e é jovem, porque o velho ditado está certo: o semelhante sempre se aproxima do semelhante.
Embora eu concorde com Fedro em muitas coisas, não concordo que o Amor seja mais antigo do que Jápeto e Crono. Sustento que ele é o mais jovem dos deuses, e jovem para sempre.
Aqueles antigos conflitos entre os deuses, que Hesíodo e Parmênides contam, se é que diziam a verdade, aconteceram por Necessidade, não por Amor. Se o Amor estivesse entre eles, não teria havido mutilações, prisões nem outras violências, mas amizade e paz, como há agora, desde que o Amor reina entre os deuses.
O Amor é jovem e também delicado. Ele precisaria de um poeta como Homero para descrever a sua delicadeza. Homero diz que Atê é uma deusa e é delicada, ao menos nos pés: 'Seus pés são delicados, pois ela não pisa no chão, mas anda sobre as cabeças dos homens.'
Parece-me uma bela prova da delicadeza dela: que não anda sobre o que é duro, mas sobre o que é macio. Vamos usar a mesma prova para o Amor. Ele não anda sobre a terra nem sobre os crânios, que nem são tão macios, mas habita e caminha no que há de mais macio entre as coisas.
Pois é nos sentimentos e nas almas dos deuses e dos homens que ele fixa morada. E não em todas as almas sem exceção: onde encontra um caráter duro, ele vai embora; onde encontra um caráter macio, ali se instala.
Tocando sempre, com os pés e por toda parte, no que há de mais macio entre o mais macio, ele tem que ser, por força, a coisa mais delicada de todas.
Ele é, então, o mais jovem e o mais delicado, e além disso tem a forma flexível. Pois não seria capaz de se enrolar em tudo, nem de entrar em cada alma e sair dela sem ser notado, se fosse rígido.
Uma grande prova da sua forma harmoniosa e flexível é a sua graça, que todos reconhecem ser, de modo especial, marca do Amor. A falta de graça e o Amor estão sempre em guerra um com o outro.
A beleza da sua cor se revela pelo fato de ele viver entre as flores: o Amor não pousa sobre corpo, alma ou qualquer coisa que esteja sem flor ou já murcha, mas se assenta e permanece onde o lugar é florido e perfumado.
Sobre a beleza do deus já basta isso, embora ainda reste muito a dizer. Agora preciso falar da sua virtude. O maior ponto é que o Amor não comete injustiça nem a sofre, nem em relação a deus nem a homem.
Ele não sofre nada pela força, se é que sofre algo, pois a força não toca o Amor. E quando age, não age pela força, porque todos servem ao Amor de boa vontade. E o que se acorda livremente, entre quem quer e quem aceita, as leis, senhoras da cidade, dizem que é justo.
Além da justiça, ele tem também a maior moderação. Reconhece-se que moderação é dominar prazeres e desejos, e que nenhum prazer é mais forte do que o Amor. Se os prazeres são mais fracos do que ele, então o Amor os domina; e quem domina prazeres e desejos é, sem dúvida, muito moderado.
Quanto à coragem, nem mesmo Ares, o deus da guerra, resiste ao Amor. Não é Ares que possui o Amor, mas o Amor que possui Ares, no amor por Afrodite, como se conta. E quem possui é mais forte do que o possuído. Vencendo o mais corajoso de todos, o Amor seria, ele próprio, o mais corajoso.
Já falei da justiça, da moderação e da coragem do deus. Falta a sabedoria, e vou tentar não ficar abaixo do que posso. Primeiro, para que eu também honre a minha arte como Erixímaco honrou a dele: o deus é um poeta tão sábio que torna outros poetas. Qualquer um vira poeta quando o Amor o toca, mesmo que antes não tivesse nada de musical nele.
Isso nos serve de prova de que o Amor é um bom poeta em toda forma de criação ligada às artes. Pois o que alguém não tem ou não conhece, não pode dar a outro nem ensinar.
E quem vai negar que a geração de todos os seres vivos é obra da sabedoria do Amor, por meio da qual nascem e crescem todos os animais? E na produção das artes, não sabemos que aquele a quem esse deus serve de mestre se torna notável e brilhante, e que fica na escuridão aquele a quem o Amor não toca?
O tiro com arco, a medicina e a adivinhação foram descobertos por Apolo guiado pelo desejo e pelo amor, de modo que ele também é discípulo do Amor. As Musas o foram na música, Hefesto na metalurgia, Atena na tecelagem, e Zeus no governo de deuses e homens.
Por isso é que as coisas dos deuses se organizaram quando o Amor surgiu entre eles, o amor pela beleza, está claro, pois o Amor não tem nada a ver com a feiura. Antes disso, como eu disse no começo, muitas coisas terríveis aconteciam entre os deuses, por causa do reinado da Necessidade. Mas, desde que esse deus nasceu, do amor pelas coisas belas brotou todo bem para deuses e homens.
Assim me parece, Fedro: o Amor é, primeiro, em si mesmo, o mais belo e o melhor, e depois é a causa de outras coisas iguais nos demais. Ocorre-me dizer também alguns versos, de que ele é aquele que produz 'paz entre os homens e bonança no mar, repouso dos ventos e sono para quem sofre.'
Ele nos esvazia da estranheza e nos enche de familiaridade, fazendo com que nos reunamos uns com os outros em encontros como este, sendo o guia em festas, em coros e em sacrifícios. Oferece a brandura e expulsa a rudeza, generoso na benevolência e avaro na malevolência, gracioso e bom.
É visto pelos sábios e admirado pelos deuses; invejado por quem não o tem e precioso para quem o tem. É pai do luxo, da delicadeza, do prazer, da graça, do desejo e da saudade. Cuida dos bons e ignora os maus. No esforço, no medo, no anseio e na palavra, é o melhor timoneiro, companheiro, defensor e salvador.
É ornamento de todos os deuses e homens, o guia mais belo e o melhor, a quem todo homem deve seguir, cantando-lhe belos hinos e tomando parte no canto com que ele encanta o pensamento de todos os deuses e homens.
Este, Fedro, é o meu discurso, que dedico ao deus, em parte com brincadeira, em parte com a seriedade moderada de que sou capaz.