Metafísica - Livro XII 6
Livro XII (Lambda): a substância eterna e o Motor Imóvel, a teologia de Aristóteles
Por que tem de existir uma substância eterna que seja pura realização
Como existem três tipos de substância, dois deles físicos e um imóvel, é sobre esse último que precisamos afirmar o seguinte: é necessário que exista uma substância eterna e imóvel. Pois as substâncias são as primeiras de todas as coisas que existem, e se todas elas fossem destrutíveis, então tudo seria destrutível.
Mas é impossível que o movimento tenha começado a existir ou venha a deixar de existir, pois ele sempre deve ter existido. O mesmo vale para o tempo: ele não pode ter começado nem vai acabar, porque não poderia haver um antes e um depois se o tempo não existisse. O movimento, então, é contínuo no mesmo sentido em que o tempo é contínuo, pois o tempo ou é a mesma coisa que o movimento ou é uma propriedade dele. E não há movimento contínuo a não ser o movimento no espaço, e, dentre esses, só o movimento circular é contínuo.
Agora, se existe algo capaz de mover ou agir sobre as coisas, mas que de fato não está fazendo isso, então não necessariamente haverá movimento, porque aquilo que tem uma capacidade não precisa exercê-la.
Portanto, nada se ganha mesmo que admitamos a existência de substâncias eternas, como fazem os que acreditam nas Formas, a não ser que haja nelas algum princípio capaz de causar mudança. E mesmo isso não basta, nem basta acrescentar outra substância além das Formas, porque, se ela não agir, não haverá movimento.
E mais: ainda que ela aja, isso não será suficiente caso a sua essência seja apenas capacidade, pois nesse caso não haverá movimento eterno, já que aquilo que existe apenas em potência pode também não existir. Tem de haver, então, um princípio cuja própria essência seja a realização plena (ato).
Além disso, essas substâncias devem existir sem matéria, pois precisam ser eternas, se é que algo é eterno. Logo, elas têm de ser pura realização plena (ato).
Há, no entanto, uma dificuldade. Costuma-se pensar que tudo o que age é capaz de agir, mas que nem tudo o que é capaz de agir de fato age, de modo que a capacidade viria antes. Só que, se for assim, nada do que existe precisaria existir, porque é possível que tudo tenha a capacidade de existir sem ainda existir de fato.
E mesmo se seguirmos os teólogos, que geram o mundo a partir da noite, ou os filósofos da natureza, que dizem que 'todas as coisas estavam juntas', chegamos ao mesmo resultado impossível. Pois como haveria movimento se não existe uma causa de fato em atividade? A madeira não vai se mover sozinha: a arte do carpinteiro precisa agir sobre ela. Nem o sangue menstrual nem a terra se põem em movimento por conta própria: a semente é que precisa agir sobre a terra, e o sêmen sobre o sangue.
É por isso que alguns pensadores admitem uma atividade eterna, por exemplo Leucipo e Platão, pois dizem que sempre houve movimento. Mas não explicam por que esse movimento existe nem o que ele é, nem, se o mundo se move de tal ou tal jeito, nos dizem a causa disso.
Ora, nada se move ao acaso: tem de haver sempre algo presente para movê-lo. Por exemplo, na prática uma coisa se move de um jeito por natureza e de outro jeito pela força ou pela influência da razão ou de outra coisa qualquer. (E, além disso, que tipo de movimento vem primeiro? Isso faz uma diferença enorme.)
Mas, ao menos no caso de Platão, não cabe apontar aqui aquilo que ele às vezes supõe ser a fonte do movimento, ou seja, aquilo que se move a si mesmo. Pois, segundo a explicação dele, a alma é posterior e surge ao mesmo tempo que os céus.
Supor que a capacidade vem antes da realização, então, está em certo sentido certo e em certo sentido errado, e já explicamos esses dois sentidos. Que a realização vem antes é algo confirmado por Anaxágoras (pois a 'razão' de que ele fala é realização em ato), por Empédocles na sua doutrina do amor e da discórdia, e pelos que dizem que sempre há movimento, como Leucipo.
Portanto, não houve caos nem noite durante um tempo infinito, mas as mesmas coisas sempre existiram, seja passando por um ciclo de mudanças, seja seguindo alguma outra lei, já que a realização vem antes da capacidade.
Se, então, há um ciclo constante, alguma coisa tem de permanecer sempre agindo do mesmo modo. E se vai haver geração e destruição, tem de existir algo mais que esteja sempre agindo de modos diferentes. Esse algo, portanto, age de uma forma por si mesmo e de outra forma em virtude de outra coisa, ou seja, em virtude de um terceiro agente ou do primeiro.
Ora, tem de ser em virtude do primeiro. Caso contrário, seria de novo esse terceiro a causar o movimento tanto do segundo agente quanto do terceiro. Por isso é melhor dizer que é o primeiro. Pois foi ele a causa da regularidade eterna, enquanto outra coisa é a causa da variação, e está claro que os dois juntos são a causa da variedade eterna.
É exatamente esse o caráter que os movimentos de fato exibem. Que necessidade há, então, de buscar outros princípios?