Metafísica - Livro IX 1
Livro IX (Teta): a distinção entre potência e ato
O que é potência: a capacidade de causar ou sofrer mudança
Já tratamos daquilo que é ser em primeiro lugar, aquilo a que todos os outros sentidos do ser se referem, ou seja, a substância. Pois é por causa da noção de substância que as outras coisas também são chamadas de ser: a quantidade, a qualidade e as demais. Todas elas, como dissemos na primeira parte deste trabalho, trazem dentro de si a noção de substância.
Ora, o ser se divide de um modo em coisa individual, qualidade e quantidade, e de outro modo se distingue conforme a potência (a capacidade) e o ato (a realização plena), e conforme a função. Vamos agora acrescentar uma discussão sobre a potência e o ato.
Primeiro vamos explicar a potência no sentido mais estrito, que, no entanto, não é o mais útil para o nosso propósito atual. Pois a potência e o ato se estendem além dos casos que envolvem movimento. Mas depois de falar dessa primeira espécie de potência, ao tratar do ato vamos também explicar as outras espécies.
Já mostramos em outro lugar que a palavra potência, assim como o verbo poder, tem vários sentidos. Desses, podemos deixar de lado todas as potências que recebem esse nome apenas por um acaso da linguagem. Algumas são chamadas assim por analogia: na geometria, por exemplo, dizemos que uma coisa é ou não é potência de outra conforme exista ou não certa relação entre elas.
Mas todas as potências que pertencem ao mesmo tipo são alguma espécie de princípio, isto é, fonte de onde algo parte. E são chamadas potências por referência a um tipo primário de potência, que é o princípio capaz de produzir mudança numa outra coisa, ou na própria coisa enquanto considerada como outra.
Pois há uma espécie que é a potência de sofrer a ação: o princípio, presente na própria coisa que sofre, de ser mudada por outra coisa ou por si mesma enquanto considerada como outra. E há outra espécie, que é o estado de não se deixar mudar para pior nem ser destruída por outra coisa ou por si mesma enquanto outra, graças a um princípio de mudança. Em todas essas definições está implicada a fórmula da potência no sentido primário.
E, mais uma vez, essas potências assim chamadas são potências ou de simplesmente agir e sofrer a ação, ou de agir e sofrer a ação bem. De modo que, mesmo nas fórmulas dessas últimas, as fórmulas das espécies anteriores de potência estão de algum modo implicadas.
Fica claro, então, que num sentido a potência de agir e a de sofrer a ação são uma só coisa. Pois uma coisa pode ser chamada capaz tanto por poder ela própria sofrer a ação quanto por poder fazer algo sofrer a ação por meio dela. Mas, em outro sentido, essas potências são diferentes.
Pois uma delas está naquilo que sofre a ação. É porque a coisa que sofre contém certo princípio, e porque até a matéria é um princípio, que ela é capaz de sofrer a ação, uma coisa por um agente, outra por outro. O que é oleoso pode ser queimado, e o que cede de certa maneira pode ser esmagado, e assim por diante em todos os outros casos.
A outra potência está no agente. Por exemplo, o calor e a arte de construir: um está naquilo que pode produzir calor, e o outro no homem que sabe construir. Por isso, enquanto uma coisa é uma unidade orgânica, ela não pode sofrer ação de si mesma, pois é uma só coisa, e não duas coisas diferentes.
Incapacidade e incapaz designam a privação que é contrária à potência desse tipo. De modo que toda potência tem o mesmo sujeito e se refere ao mesmo processo que a incapacidade correspondente.
A privação tem vários sentidos. Significa: primeiro, aquilo que não tem certa qualidade; segundo, aquilo que naturalmente teria essa qualidade mas não a tem, seja de modo geral, seja no momento em que naturalmente a teria. E isso de duas formas: ou de algum modo particular, por exemplo quando não tem a qualidade por completo, ou quando não a tem de maneira nenhuma. Em certos casos, quando coisas que naturalmente têm uma qualidade a perdem pela força, dizemos que sofreram privação.