Meditações 3

O caderno pessoal do imperador-filósofo Marco Aurélio (séc. II): anotações estoicas sobre o dever, a razão, a aceitação do destino e a brevidade da vida

Quem é assim, e não adia estar entre os melhores, é como um sacerdote e servidor dos deuses, que usa também a divindade plantada dentro de si. Ela torna a pessoa imune ao prazer, intocada por qualquer dor, livre de todo insulto, insensível a toda maldade, atleta no mais nobre dos combates, que é não ser derrubado por nenhuma paixão, mergulhado fundo na justiça, acolhendo de toda a alma tudo o que acontece e lhe é destinado. Ela quase nunca, e por grande necessidade voltada ao bem comum, fica imaginando o que outro diz, faz ou pensa. Pois o que é seu lhe serve de matéria para agir: pensa sem parar no que lhe coube da soma das coisas, faz boas as próprias ações e está convencida de que o seu quinhão é bom. Lembra também que todo ser racional é seu parente, e que cuidar de todos é próprio da natureza humana; mas se apega à opinião não de todos, e sim apenas dos que vivem reconhecidamente de acordo com a Natureza. Quanto aos que não vivem assim, tem sempre em mente como eles são em casa e fora dela, de noite e de dia, e com que gente partilham uma vida impura. Por isso não valor algum ao elogio vindo dessas pessoas, que nem de si mesmas estão satisfeitas.