Meditações 1

O caderno pessoal do imperador-filósofo Marco Aurélio (séc. II): anotações estoicas sobre o dever, a razão, a aceitação do destino e a brevidade da vida

As dívidas de gratidão: o que Marco Aurélio aprendeu com cada mestre e familiar

Do meu avô Vero aprendi a ter bom caráter e a controlar meu temperamento.
Pela reputação e pela memória do meu pai, aprendi a modéstia e a firmeza de um homem.
Da minha mãe aprendi a reverência aos deuses, a generosidade e o cuidado de me afastar não das más ações, mas até dos maus pensamentos. Aprendi também a viver de forma simples, longe dos hábitos dos ricos.
Do meu bisavô aprendi a não frequentar as escolas públicas, mas a ter bons professores em casa, e a entender que vale a pena gastar bem com isso.
Do meu preceptor aprendi a não torcer pelo time verde nem pelo azul nas corridas do Circo, e a não tomar partido entre os gladiadores de escudo pequeno ou grande. Com ele também aprendi a suportar o esforço, a precisar de pouco, a trabalhar com as próprias mãos, a não me meter na vida dos outros e a não dar ouvidos a fofocas.
De Diogneto aprendi a não me ocupar com bobagens e a não dar crédito a charlatães e mágicos que falam de feitiços, de expulsão de demônios e coisas assim. Aprendi a não criar codornas para rinha nem a me empolgar com essas distrações, a aceitar que me falem com franqueza, a me dedicar à filosofia. Ouvi primeiro Báquio, depois Tandásis e Marciano, escrevi diálogos quando jovem e quis dormir em cama dura sobre uma pele de animal, como pede a disciplina dos gregos.
De Rústico recebi a impressão de que meu caráter precisava ser corrigido e cuidado. Com ele aprendi a não me perder em rivalidades de retórica vazia, a não escrever sobre teorias abstratas, a não fazer discursos para impressionar nem a me exibir como alguém muito disciplinado ou caridoso. Aprendi a deixar de lado a retórica, a poesia e a linguagem rebuscada, a não andar pela casa com roupa de sair e a escrever cartas simples, como a que ele mandou de Sinuessa à minha mãe. Aprendi a me reconciliar fácil com quem me ofendeu ou me fez mal, assim que essa pessoa mostrasse vontade de fazer as pazes, a ler com atenção sem me contentar com uma compreensão superficial, e a não concordar depressa com quem fala demais. Devo a ele também ter conhecido os escritos de Epicteto, que me emprestou da sua própria coleção.
De Apolônio aprendi a liberdade interior e a firmeza de propósito sem hesitação, a não olhar para nada além da razão, nem por um instante. Aprendi a ser sempre o mesmo, em dores agudas, na perda de um filho e em longas doenças. Vi nele, em exemplo vivo, que a mesma pessoa pode ser ao mesmo tempo muito firme e flexível, e ensinar sem irritação. Tive diante dos olhos um homem que considerava sua experiência e seu talento de explicar a filosofia os menores de seus méritos. Com ele aprendi a receber favores dos amigos sem me sentir rebaixado nem deixar de reconhecê-los.
De Sexto aprendi a benevolência e o exemplo de uma casa governada como um pai governa, e a ideia de viver de acordo com a Natureza. Aprendi a ter dignidade sem afetação, a cuidar com atenção dos interesses dos amigos, a suportar os ignorantes e os que opinam sem pensar. Ele sabia se adaptar a todos, e a conversa com ele era mais agradável que qualquer bajulação, ao mesmo tempo em que era profundamente respeitado por quem convivia com ele. Sabia descobrir e organizar, de modo inteligente e ordenado, os princípios necessários para a vida. Nunca demonstrava raiva ou qualquer outra paixão, mas era totalmente livre delas e, ao mesmo tempo, muito afetuoso. Sabia elogiar sem alarde e tinha muito conhecimento sem ostentação.
De Alexandre, o gramático, aprendi a não ficar corrigindo os outros, a não repreender com desprezo quem usasse uma expressão errada, estranha ou malsoante, mas a introduzir com habilidade a forma correta, em tom de resposta, de confirmação ou de discussão sobre o assunto em si, e não sobre a palavra, ou por meio de alguma outra sugestão delicada.
De Frontão aprendi a perceber quanta inveja, falsidade e hipocrisia num tirano, e que em geral os que chamamos de aristocratas costumam ser pessoas de pouco afeto.
De Alexandre, o platônico, aprendi a não dizer a ninguém, nem por escrito, com frequência e sem necessidade, que estou sem tempo, e a não usar a desculpa de estar ocupado para fugir das obrigações com as pessoas que convivem comigo.
De Cátulo aprendi a não ser indiferente quando um amigo reclama de algo, mesmo que reclame sem razão, mas a tentar restaurar a boa relação com ele. Aprendi a falar bem dos professores, como se conta de Domício e Atenódoto, e a amar de verdade os meus filhos.
Do meu irmão Severo aprendi a amar os meus, a verdade e a justiça. Por meio dele conheci Trásea, Helvídio, Catão, Díon e Bruto, e formei a ideia de um Estado em que existe a mesma lei para todos, governado com direitos iguais e liberdade igual de expressão, e a ideia de um governo que respeita acima de tudo a liberdade dos governados. Aprendi com ele constância e firmeza no apreço pela filosofia, disposição para fazer o bem e dar aos outros com generosidade, e a manter boas esperanças e a crer que sou amado pelos amigos. Notei que ele não escondia suas opiniões sobre quem condenava, de modo que seus amigos não precisavam adivinhar o que ele queria ou não queria: tudo era claro.
De Máximo aprendi a governar a mim mesmo e a não me deixar desviar por nada, a manter o bom humor em qualquer circunstância, inclusive na doença, e a unir no caráter doçura e dignidade, fazendo o que me cabia sem reclamar. Todos acreditavam que ele pensava o que dizia e que em tudo o que fazia não tinha intenção. Nunca se espantava nem se assustava, nunca tinha pressa nem adiava as coisas, não ficava perplexo nem abatido, não ria para disfarçar irritação nem era, por outro lado, raivoso ou desconfiado. Costumava fazer o bem, perdoava com facilidade e era avesso à mentira. Dava a impressão de um homem que não podia ser desviado do caminho certo, e não de alguém que tinha sido corrigido. Ninguém jamais poderia se sentir desprezado por Máximo nem se julgar melhor que ele. Tinha também o dom de ser bem-humorado de modo agradável.
No meu pai observei a mansidão de temperamento e a firmeza inabalável nas decisões que tomava após pensar bem, e nenhuma vaidade naquilo que os homens chamam de honras. Observei seu amor ao trabalho e à perseverança, sua disposição de ouvir quem tivesse algo útil a propor para o bem comum e sua firmeza em dar a cada um conforme o merecido. Sabia, pela experiência, a hora de agir com força e a hora de afrouxar. Tinha vencido toda paixão por rapazes, considerava-se um cidadão igual aos outros e dispensava os amigos da obrigação de jantar com ele ou de acompanhá-lo em viagem, e quem deixava de acompanhá-lo por algum motivo urgente sempre o encontrava o mesmo. Investigava com cuidado tudo o que precisava decidir, era persistente e nunca abandonava a análise contentando-se com as primeiras aparências. Sabia manter os amigos sem se cansar deles nem ser exagerado no afeto, contentava-se com o que tinha e era alegre. Previa as coisas com antecedência e cuidava até dos menores detalhes sem alarde. Cortava logo os aplausos do povo e toda bajulação, estava sempre atento ao que o governo precisava e administrava bem os gastos, suportando com paciência as críticas que recebia por isso. Não era supersticioso com os deuses nem buscava agradar o povo com presentes ou bajulação, mas era sóbrio em tudo, firme, e nunca tinha pensamentos ou atos mesquinhos nem gosto por novidades. Usava as comodidades da vida que a sorte lhe dava em abundância sem arrogância e sem desculpas: quando as tinha, desfrutava delas com naturalidade, e quando não as tinha, não sentia falta. Ninguém poderia dizer que ele fosse um sofista, um servo atrevido ou um pedante, mas todos o reconheciam como um homem maduro, completo, acima da bajulação, capaz de cuidar dos seus assuntos e dos dos outros. Além disso, honrava os verdadeiros filósofos, sem censurar os falsos nem se deixar enganar por eles. Era fácil na conversa e agradável sem afetação. Cuidava da saúde do corpo com medida, não como quem se apega demais à vida nem por vaidade nem por descuido, de modo que, graças a esse cuidado, quase nunca precisava de médico, remédios ou tratamentos. Cedia sem inveja a vez aos que tinham algum talento, como a eloquência ou o conhecimento das leis e dos costumes, e os ajudava para que cada um ganhasse a fama merecida. Agia sempre conforme as tradições do país, sem se exibir por isso. Não gostava de mudanças nem era inconstante, mas preferia ficar nos mesmos lugares e nas mesmas ocupações, e depois das crises de dor de cabeça voltava logo renovado às tarefas de sempre. Tinha poucos segredos, raríssimos, e sobre assuntos públicos. Mostrava bom senso e economia na realização de espetáculos públicos, na construção de obras e nas doações ao povo, pois era um homem que olhava para o que devia ser feito, e não para a fama que os atos rendem. Não tomava banho em horas impróprias, não gostava de construir casas, não se importava com o que comia nem com o tecido e a cor das roupas nem com a beleza dos escravos. Sua roupa vinha de Lório, sua vila no litoral, e em geral de Lanúvio. Sabemos como tratou o cobrador de impostos em Túsculo que lhe pediu desculpas, e assim era todo o seu jeito. Não havia nele nada de áspero, implacável ou violento, nem nada, por assim dizer, levado ao extremo, mas examinava cada coisa com calma, como se tivesse tempo de sobra, sem confusão, de modo ordenado, firme e coerente. Caberia a ele o que se conta de Sócrates: que sabia tanto se privar quanto desfrutar das coisas que muitos não conseguem dispensar nem aproveitar sem excesso. Ser forte o bastante para suportar a falta e ser sóbrio no prazer é a marca de quem tem uma alma perfeita e invencível, como ele mostrou na doença de Máximo.
Aos deuses devo ter tido bons avós, bons pais, uma boa irmã, bons professores, bons companheiros, bons parentes e amigos, quase tudo de bom. Devo aos deuses também não ter ofendido nenhum deles, embora tivesse uma índole que, se a ocasião tivesse surgido, poderia ter me levado a algo assim. Mas, por favor deles, nunca houve uma combinação de circunstâncias que me pusesse à prova. Agradeço aos deuses por não ter sido criado por mais tempo junto da concubina do meu avô, por ter preservado a flor da juventude e por não ter me tornado homem antes da hora, adiando até esse tempo. Agradeço por ter sido submetido a um governante e pai capaz de tirar de mim todo orgulho e de me levar a entender que é possível viver num palácio sem precisar de guardas, roupas bordadas, tochas, estátuas e outras ostentações, e que está ao alcance de um homem assim se aproximar do modo de vida de um cidadão comum sem por isso ser mais mesquinho de pensamento ou mais frouxo na ação no que precisa ser feito pelo bem público à altura de um governante. Agradeço aos deuses por terem me dado um irmão capaz de me despertar, pelo seu caráter, a cuidar de mim mesmo, e que ao mesmo tempo me alegrava com seu respeito e afeto. Agradeço por meus filhos não serem tolos nem terem defeitos físicos, por eu não ter avançado mais na retórica, na poesia e nos outros estudos, nos quais talvez teria me perdido se tivesse visto que progredia neles. Agradeço por ter colocado logo no lugar de honra os que me criaram, que pareciam desejar isso, sem adiar com a desculpa de fazê-lo depois, que ainda eram jovens. Agradeço por ter conhecido Apolônio, Rústico e Máximo, e por ter recebido impressões claras e frequentes sobre o que é viver de acordo com a Natureza, de modo que, no que dependia dos deuses e da sua ajuda, nada me impedia de viver assim, ainda que eu fique aquém disso por culpa minha e por não seguir os avisos dos deuses, quase suas instruções diretas. Agradeço por meu corpo ter resistido tanto tempo a uma vida assim, por nunca ter tocado em Benedita nem em Teodoto e por, mesmo tendo caído em paixões, ter me curado delas. Agradeço por, ainda que muitas vezes irritado com Rústico, nunca ter feito nada de que me arrependesse, e por minha mãe, embora destinada a morrer cedo, ter passado comigo os últimos anos de vida. Agradeço por nunca ter ouvido que me faltavam meios quando quis ajudar alguém em necessidade, e por nunca eu mesmo ter precisado receber algo de outra pessoa. Agradeço por ter uma esposa assim, obediente, afetuosa e simples, e por ter tido bons preceptores para os meus filhos. Agradeço por terem me sido mostrados remédios em sonhos, entre outros contra a tosse com sangue e a tontura, e por, quando me inclinei à filosofia, não ter caído nas mãos de nenhum sofista nem perdido tempo com historiadores, com a resolução de silogismos ou com o estudo dos fenômenos celestes. Pois tudo isso precisa da ajuda dos deuses e da sorte.