Meditações 1

O caderno pessoal do imperador-filósofo Marco Aurélio (séc. II): anotações estoicas sobre o dever, a razão, a aceitação do destino e a brevidade da vida

Aos deuses devo ter tido bons avós, bons pais, uma boa irmã, bons professores, bons companheiros, bons parentes e amigos, quase tudo de bom. Devo aos deuses também não ter ofendido nenhum deles, embora tivesse uma índole que, se a ocasião tivesse surgido, poderia ter me levado a algo assim. Mas, por favor deles, nunca houve uma combinação de circunstâncias que me pusesse à prova. Agradeço aos deuses por não ter sido criado por mais tempo junto da concubina do meu avô, por ter preservado a flor da juventude e por não ter me tornado homem antes da hora, adiando até esse tempo. Agradeço por ter sido submetido a um governante e pai capaz de tirar de mim todo orgulho e de me levar a entender que é possível viver num palácio sem precisar de guardas, roupas bordadas, tochas, estátuas e outras ostentações, e que está ao alcance de um homem assim se aproximar do modo de vida de um cidadão comum sem por isso ser mais mesquinho de pensamento ou mais frouxo na ação no que precisa ser feito pelo bem público à altura de um governante. Agradeço aos deuses por terem me dado um irmão capaz de me despertar, pelo seu caráter, a cuidar de mim mesmo, e que ao mesmo tempo me alegrava com seu respeito e afeto. Agradeço por meus filhos não serem tolos nem terem defeitos físicos, por eu não ter avançado mais na retórica, na poesia e nos outros estudos, nos quais talvez teria me perdido se tivesse visto que progredia neles. Agradeço por ter colocado logo no lugar de honra os que me criaram, que pareciam desejar isso, sem adiar com a desculpa de fazê-lo depois, que ainda eram jovens. Agradeço por ter conhecido Apolônio, Rústico e Máximo, e por ter recebido impressões claras e frequentes sobre o que é viver de acordo com a Natureza, de modo que, no que dependia dos deuses e da sua ajuda, nada me impedia de viver assim, ainda que eu fique aquém disso por culpa minha e por não seguir os avisos dos deuses, quase suas instruções diretas. Agradeço por meu corpo ter resistido tanto tempo a uma vida assim, por nunca ter tocado em Benedita nem em Teodoto e por, mesmo tendo caído em paixões, ter me curado delas. Agradeço por, ainda que muitas vezes irritado com Rústico, nunca ter feito nada de que me arrependesse, e por minha mãe, embora destinada a morrer cedo, ter passado comigo os últimos anos de vida. Agradeço por nunca ter ouvido que me faltavam meios quando quis ajudar alguém em necessidade, e por nunca eu mesmo ter precisado receber algo de outra pessoa. Agradeço por ter uma esposa assim, obediente, afetuosa e simples, e por ter tido bons preceptores para os meus filhos. Agradeço por terem me sido mostrados remédios em sonhos, entre outros contra a tosse com sangue e a tontura, e por, quando me inclinei à filosofia, não ter caído nas mãos de nenhum sofista nem perdido tempo com historiadores, com a resolução de silogismos ou com o estudo dos fenômenos celestes. Pois tudo isso precisa da ajuda dos deuses e da sorte.