Apologia de Sócrates 4
A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte
Dessa investigação, atenienses, surgiram muitas inimizades, das piores e mais perigosas, e dela vieram muitas calúnias. Ganhei o nome de sábio, pois quem me ouve sempre imagina que eu mesmo possuo a sabedoria que aponto faltar nos outros. Mas a verdade, atenienses, é que só o deus é sábio, e na sua resposta ele quis mostrar que a sabedoria humana vale pouco ou nada. Não estava falando de Sócrates, apenas usou o meu nome como exemplo, como se dissesse: o mais sábio entre vocês é aquele que, como Sócrates, reconhece que de nada vale a sua sabedoria.
Por isso ando ainda por aí, obediente ao deus, examinando a sabedoria de qualquer um, cidadão ou estrangeiro, que pareça sábio. E quando vejo que não é sábio, em defesa do oráculo eu lhe mostro que não é. Essa ocupação me absorve por inteiro, e não me sobra tempo para nenhum assunto público importante nem para os meus próprios negócios. Vivo em extrema pobreza por causa da minha dedicação ao deus.
Além disso, os jovens das famílias mais ricas, que têm bastante tempo livre, vêm atrás de mim por conta própria. Gostam de ver as pessoas sendo questionadas, e muitas vezes me imitam e passam a examinar os outros. Descobrem logo que há muita gente que pensa saber alguma coisa, mas sabe pouco ou nada. Então os que foram questionados por eles ficam irritados, não consigo mesmos, mas comigo. Dizem: esse maldito Sócrates é um corruptor da juventude.
E quando alguém pergunta a eles o que é que eu faço ou ensino de mau, não sabem o que dizer e ficam sem resposta. Mas, para não parecerem confusos, repetem as acusações prontas que se usam contra todos os filósofos: que ensino as coisas do céu e debaixo da terra, que não acredito nos deuses, e que faço a causa mais fraca parecer a mais forte. Eles não querem confessar a verdade, que ficou claro que só fingiam saber. E como são muitos, ambiciosos e enérgicos, e falam de mim de forma organizada e convincente, encheram os ouvidos de vocês há muito tempo com suas calúnias insistentes.
Por isso Meleto, Anito e Lícon se voltaram contra mim. Meleto, ressentido em nome dos poetas; Anito, em nome dos artesãos e políticos; Lícon, em nome dos oradores. Então, como eu disse no começo, eu me admiraria se conseguisse arrancar de vocês, em tão pouco tempo, uma calúnia tão grande. Esta é a verdade, atenienses, e eu a digo sem esconder nem disfarçar nada, grande ou pequeno. E, no entanto, sei que é justamente por causa dessa franqueza que eles me odeiam. E o ódio deles não é prova de que digo a verdade? Essa é a origem do preconceito contra mim, e é essa a sua causa, como vocês vão descobrir agora ou em qualquer outra investigação.
Quanto aos meus primeiros acusadores, esta defesa basta. Passo agora a Meleto, esse homem de bem e amigo da cidade, como ele se diz, e aos acusadores mais recentes. Tomemos de novo a denúncia deles, que diz mais ou menos assim: Sócrates é culpado de corromper a juventude e de não acreditar nos deuses da cidade, mas em outras divindades novas. Essa é a acusação. Examinemos cada parte dela.
Ele diz que faço o mal e corrompo a juventude. Mas eu, atenienses, digo que Meleto é que faz o mal, pois leva as coisas a sério como se fosse brincadeira, arrastando pessoas para o tribunal e fingindo zelo e interesse por questões com as quais nunca se importou de verdade. E vou tentar provar isso a vocês. Venha cá, Meleto, e me responda: você se preocupa muito com o aperfeiçoamento dos jovens? Sim, me preocupo. Então diga aos juízes quem é que os torna melhores. Pois você deve saber, já que se deu ao trabalho de descobrir quem os corrompe, e me acusa diante deles. Diga aos juízes quem os melhora.
Veja, Meleto, que você fica calado e não tem o que dizer. Não é isso vergonhoso, e prova suficiente do que eu digo, que você nunca se interessou pelo assunto? Mas fale, amigo, quem é que os torna melhores? As leis. Não foi isso que perguntei, meu caro, mas que pessoa, que, antes de tudo, conhece as leis. Estes juízes aqui presentes, Sócrates. Como assim, Meleto, eles são capazes de educar os jovens e torná-los melhores? Sem dúvida. Todos eles, ou alguns sim e outros não? Todos. Por Hera, que boa notícia! Há muitos que melhoram os jovens, então.
E os ouvintes que estão aqui, eles os melhoram ou não? Também. E os conselheiros? Também os conselheiros. Mas será, Meleto, que os membros da assembleia corrompem os jovens? Ou também esses os tornam melhores? Também eles. Então todo ateniense, ao que parece, torna os jovens melhores, com exceção de mim, e só eu os corrompo. É isso que você afirma? Afirmo com toda a força. Que grande infelicidade você atribui a mim. Mas me responda: você acha que é assim também com os cavalos? Que todos os homens os tornam melhores, e um só é que os estraga? Não é exatamente o contrário? Um só, ou poucos, os treinadores, são capazes de torná-los melhores, e a maioria, quando lida com eles, antes os estraga? Não é assim, Meleto, com os cavalos e com todos os outros animais?
Com certeza é, quer você e Anito digam que sim, quer digam que não. Feliz seria a juventude se tivesse um só corruptor e todo o resto a melhorasse. Mas você, Meleto, mostrou bem que nunca pensou nos jovens, e revela com clareza o seu descaso por aquilo de que me acusa. E agora, Meleto, te pergunto outra coisa, por Zeus: é melhor viver entre bons cidadãos ou entre maus? Responda, amigo, não pergunto nada difícil. Os maus não fazem mal aos que estão perto deles, e os bons não fazem o bem? Sem dúvida. E existe alguém que prefira ser prejudicado a ser ajudado pelos que convivem com ele? Responda, a lei manda responder. Alguém quer ser prejudicado? Claro que não.
E quando você me acusa de corromper a juventude, alega que eu os corrompo de propósito ou sem querer? De propósito, eu digo. Mas você acabou de admitir que os bons fazem o bem aos que estão perto, e os maus, o mal. Será que a sua sabedoria superior já percebeu isso tão cedo, e eu, na minha idade, estou em tanta ignorância a ponto de não saber que, se eu corromper alguém com quem convivo, é bem provável que eu seja prejudicado por ele? E mesmo assim eu o corromperia, e de propósito, como você diz? Nisso não acredito, Meleto, e acho que ninguém acredita.
Ou eu não corrompo, ou, se corrompo, é sem querer, de modo que você mente nos dois casos. E se corrompo sem querer, a lei não manda trazer ao tribunal por faltas involuntárias, mas chamar em particular para instruir e advertir. Pois é claro que, se eu aprender, vou parar de fazer o que faço sem querer. Mas você fugiu de conversar comigo e me instruir, e em vez disso me trouxe aqui, onde a lei manda trazer os que precisam de castigo, e não de ensino.