Imitação de Cristo - Livro IV 18
Livro IV: a devota exortação à sagrada comunhão
Que o homem não seja perscrutador curioso do Sacramento, mas humilde imitador de Cristo, submetendo seu entendimento à santa fé
Deves guardar-te da curiosa e inútil perscrutação deste profundíssimo Sacramento, se não queres afundar no abismo da dúvida. Quem perscruta a majestade será esmagado pela glória. Mais pode Deus operar do que o homem pode entender. Tolerável é a piedosa e humilde investigação da verdade, sempre disposta a deixar-se ensinar e a caminhar segundo as sãs sentenças dos Padres.
Bem-aventurada simplicidade, que abandona os difíceis caminhos das questões e segue pela senda plana e firme dos mandamentos de Deus. Muitos perderam a devoção quando quiseram perscrutar coisas demasiado altas. De ti se exige a fé e uma vida sincera, não a altura do entendimento nem a profundidade dos mistérios de Deus. Se não entendes nem compreendes o que está abaixo de ti, como compreenderás o que está acima de ti? Submete-te a Deus e humilha o teu entendimento à fé, e te será dada a luz da ciência, conforme te for útil e necessário.
Alguns são gravemente tentados acerca da fé e do Sacramento, mas isto não se lhes deve imputar, e sim antes ao inimigo. Não te preocupes, não disputes com os teus pensamentos, nem respondas às disputas e dúvidas lançadas pelo diabo. Mas crê nas palavras de Deus. Crê nos seus santos e profetas, e fugirá de ti o maligno inimigo. Pois muitas vezes aproveita ao servo de Deus suportar tais coisas. Com efeito, o demônio não tenta os infiéis e os pecadores, que já possui com segurança; mas os fiéis devotos ele tenta e atormenta de vários modos.
Caminha, portanto, com fé simples e indubitável, e com simples reverência aproxima-te do Sacramento. Tudo o que não conseguires entender, confia-o com segurança ao Deus onipotente. Deus não te engana; engana-se quem confia demasiado em si mesmo. Deus caminha com os simples, revela-se aos humildes, dá entendimento aos pequeninos, abre o sentido às mentes puras e esconde a graça dos curiosos e soberbos. A razão humana é débil e pode enganar-se; mas a fé verdadeira não pode enganar-se.
Toda razão e investigação natural deve seguir a fé, não precedê-la nem quebrantá-la. Pois a fé e o amor sobretudo aqui sobressaem, e operam de modos ocultos neste santíssimo e sobre-excelentíssimo Sacramento. Deus eterno e imenso, e de infinito poder, faz coisas grandes e inescrutáveis no céu e na terra; e não há como investigar as suas obras maravilhosas. Se as obras de Deus fossem tais que pudessem ser facilmente apreendidas pela razão humana, não se deveriam chamar maravilhosas nem inescrutáveis.