Imitação de Cristo - Livro IV 10
Livro IV: a devota exortação à sagrada comunhão
Que a sagrada Comunhão não deve ser abandonada com facilidade
É preciso recorrer com frequência à fonte da graça e da divina misericórdia, à fonte da bondade e de toda pureza, para que possais curar-vos de vossas paixões e vícios, e mereçais tornar-vos mais forte e mais vigilante contra todas as tentações e enganos do demônio. O inimigo, sabendo que na sagrada Comunhão está posto o maior fruto e remédio, esforça-se por todo modo e ocasião para afastar e impedir, quanto pode, os fiéis e devotos.
Pois, quando alguns se dispõem para a sagrada Comunhão, sofrem piores assaltos e ilusões de Satanás. Esse mesmo espírito, como está escrito em Jó, vem entre os filhos de Deus, para perturbar com sua costumeira malícia, ou para tornar os fiéis demasiado temerosos e perplexos, a fim de diminuir o fruto de seus afetos, ou de tirar-lhes a fé combatendo-a, para que porventura ou abandonem de todo a Comunhão, ou a ela se acheguem com tibieza. Mas não se deve dar atenção alguma às suas astúcias e fantasias, por mais torpes e horríveis que sejam, e sim revolver todos esses fantasmas contra a própria cabeça dele. Deve-se desprezar e zombar do miserável, e por causa de seus insultos e das perturbações que suscita não se há de omitir a sagrada Comunhão.
Muitas vezes também impede a excessiva solicitude por ter devoção, e certa ansiedade quanto à confissão a ser feita. Procede segundo o conselho dos sábios; e depõe a ansiedade e o escrúpulo, porque eles impedem a graça de Deus e destroem a devoção da mente. Por causa de alguma pequena tribulação ou perturbação, não deixes a sagrada Comunhão; mas vai antes contrita e perdoa de boa vontade aos outros todas as ofensas. E se ofendeste a alguém, pede humildemente perdão: e Deus de boa vontade te perdoará.
De que serve adiar por muito tempo a confissão, ou diferir a sagrada Comunhão? Purifica-te quanto antes; cospe depressa o veneno, apressa-te a receber o remédio, e te sentirás melhor do que se tivesses adiado por muito tempo. Se hoje adiares por causa disto, amanhã talvez surja algo maior, e assim poderias ficar muito tempo impedido da Comunhão e tornar-te mais inapto. Quanto antes puderes, sacode de ti o presente peso e a inércia, porque de nada adianta angustiar-se por muito tempo, passar muito tempo na tribulação e, por causa dos obstáculos cotidianos, apartar-se das coisas divinas; antes, prejudica muito protelar por muito tempo a Comunhão: pois isso costuma trazer também grave torpor. Ai de dor! Alguns tíbios e dissolutos aceitam de bom grado as demoras em confessar-se, e por isso desejam diferir a sagrada Comunhão, para não serem obrigados a guardar-se com maior cuidado.
Ai, quão pouca caridade e quão débil devoção têm aqueles que tão facilmente adiam a sagrada Comunhão. Quão feliz e aceito a Deus é tido aquele que de tal modo vive, e com tamanha pureza guarda a sua consciência, que estaria preparado e bem disposto a comungar até mesmo todos os dias, se lhe fosse lícito e o pudesse fazer sem chamar a atenção. Se alguém às vezes se abstém por humildade, ou por causa legítima que o impeça, é digno de louvor pela reverência. Mas se o torpor se insinuou, deve despertar-se a si mesmo e fazer o que está em seu poder, e o Senhor virá ao encontro de seu desejo pela boa vontade, que Ele de modo especial considera.
Quando, porém, está legitimamente impedido, terá sempre boa vontade e piedosa intenção de comungar: e assim não ficará privado do fruto do Sacramento. Pois qualquer devoto pode, todos os dias e a toda hora, achegar-se de modo salutar e sem proibição à Comunhão espiritual de Cristo. E, contudo, em certos dias e no tempo estabelecido, deve receber sacramentalmente o Corpo de seu Redentor com afetuosa reverência, e buscar mais o louvor e a honra de Deus do que a própria consolação. Pois comunga mística e invisivelmente, e é renovado, todas as vezes que devotamente recorda o mistério da encarnação de Cristo e a sua paixão, e se inflama no amor dele.
Aquele, porém, que não se prepara de outro modo senão quando a festa o instiga ou o costume o compele, muitas vezes estará despreparado. Bem-aventurado quem se oferece ao Senhor em holocausto, todas as vezes que celebra ou comunga. Não sejas no celebrar demasiado prolixo nem apressado; mas guarda o bom modo comum daqueles com quem vives. Não deves gerar aos outros incômodo e tédio, mas guarda o caminho comum segundo o amor das instituições, e antes servir à utilidade dos outros do que à própria devoção ou afeto.