Imitação de Cristo - Livro III 45
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Que se deve confiar em Deus quando se levantam os dardos das palavras
Filho, mantém-te firme e espera em mim. Pois o que são as palavras senão palavras? Voam pelo ar, mas não ferem a pedra. Se és culpado, considera que de bom grado queiras emendar-te. Se nada tens na consciência, pondera: pondera que de bom grado queiras suportar isto por Deus. Pouco é que ao menos suportes às vezes palavras, tu que ainda não és capaz de tolerar açoites violentos. E por que tão pequenas coisas te chegam ao coração? Senão porque ainda és carnal, e atentas aos homens mais do que convém? Pois, porque temes ser desprezado, não queres ser repreendido pelos teus excessos, e procuras o abrigo das escusas.
Mas examina-te melhor, e reconhecerás que ainda vive em ti o mundo, e o vão amor de agradar aos homens. Pois, quando foges de ser humilhado e também confundido por tuas faltas, é certo que nem és verdadeiramente humilde, nem verdadeiramente morto para o mundo, nem o mundo está crucificado para ti. Mas ouve as minhas palavras, e não te importarás com dez mil palavras dos homens. Eis que, se todas as coisas fossem ditas contra ti que com a maior malícia se pudessem inventar, que te prejudicaria, se de todo as deixasses passar, e não as estimasses mais do que uma palha? Acaso poderiam arrancar-te ao menos um cabelo?
Mas os que não têm o coração no íntimo, nem a Deus diante dos olhos, facilmente e com ligeireza se comovem com palavra de censura. Aquele, porém, que confia em mim, e não deseja apoiar-se no próprio juízo, estará livre do terror humano. Pois eu sou o juiz e o conhecedor de todos os segredos; eu sei de que maneira a coisa se passou; eu conheço o que faz a injúria e o que a suporta. De mim saiu esta palavra; com a minha permissão isto aconteceu, para que se revelem os pensamentos de muitos corações. Eu julgarei o culpado e o inocente; mas a ambos quis provar antes por oculto juízo.
O testemunho dos homens muitas vezes engana; o meu juízo é verdadeiro, há de permanecer e não será subvertido. Está oculto na maioria das vezes, e a poucos se manifesta em cada caso; nunca, porém, erra, nem pode errar, ainda que aos olhos dos insensatos não pareça reto. A mim, portanto, se deve recorrer em todo juízo, e não apoiar-se no próprio parecer; pois o justo não se perturbará, seja o que for que de Deus lhe sobrevenha. E se algo injustamente for proferido contra ele, não se importará muito; mas também não exultará vãmente, se por outros for razoavelmente escusado. Pondera, com efeito, que eu sou aquele que perscruta os corações e os rins; que não julgo segundo a face e a aparência humana. Pois muitas vezes se acha culpável aos meus olhos aquilo que pelo juízo dos homens se crê louvável.
Senhor Deus, juiz justo, forte e paciente, que conheceis a fragilidade e a perversidade dos homens, sede a minha força e toda a minha confiança; pois não me basta a minha consciência. Vós sabeis o que eu não sei, e por isso em toda repreensão devi humilhar-me e suportar com mansidão. Perdoai-me, pois, propício, todas as vezes que assim não procedi; e dai-me de novo a graça de uma mais ampla paciência. Melhor é para mim a vossa copiosa misericórdia para alcançar o perdão do que a minha presumida justiça para defesa de uma consciência oculta. E ainda que nada tenha na consciência, contudo não posso por isso justificar-me: porque, afastada a vossa misericórdia, nenhum vivente será justificado diante de vós.