Imitação de Cristo - Livro III 26

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Como o amor próprio nos afasta sobretudo do sumo bem

Filho, é necessário que dês tudo por tudo, e que nada sejas de ti mesmo. Sabe que o amor de ti mesmo te prejudica mais do que qualquer coisa deste mundo. Segundo o amor e o afeto que tens, cada coisa mais ou menos se apega a ti. Se o teu amor for puro e simples e bem ordenado, estarás livre do cativeiro das coisas. Não cobices o que não te é lícito possuir; não tenhas o que te pode impedir e privar da liberdade interior. É de admirar que, do mais íntimo do coração, não te entregues a mim com tudo o que podes desejar ou possuir.
Por que te consomes em tristeza? Por que te fatigas com cuidados supérfluos? Permanece firme no meu beneplácito, e não sofrerás dano algum. Se buscas isto ou aquilo, e queres estar aqui ou ali, para ter maior proveito e satisfação própria, nunca estarás em sossego, nem livre de inquietação, porque em toda coisa se achará algum defeito, e em todo lugar haverá quem te seja contrário.
Aproveita, pois, não qualquer coisa adquirida ou multiplicada exteriormente, mas antes desprezada e cortada do coração pela raiz. Isto não se entenda apenas do dinheiro e das riquezas, mas também da ambição da honra e do desejo de louvação, coisas todas que passam com o mundo. Pouco protege o lugar, se falta o espírito de fervor; nem por muito tempo permanecerá aquela paz buscada por fora, se está vazia do verdadeiro fundamento, que é o estado do coração: isto é, se não permaneceres em mim, podes mudar de lugar, mas não melhorar. Pois, surgida e aceita a ocasião, encontrarás o que fugiste, e ainda mais. Oração para a purificação do coração e a sabedoria celeste.
Fortalecei-me, ó Deus, pela graça do Espírito Santo; dai-me virtude para ser robustecido no homem interior, e para esvaziar o meu coração de toda inútil solicitude e angústia, e para não ser arrastado por vários desejos de qualquer coisa, vil ou preciosa: mas para olhar todas as coisas como passageiras, e a mim igualmente como havendo de passar com elas, pois nada permanente debaixo do sol, porque tudo é vaidade e aflição de espírito. Ó, quão sábio é quem assim considera!
Dai-me, Senhor, a sabedoria celeste, para que aprenda a buscar-Vos sobre todas as coisas e a achar-Vos, a saborear-Vos e amar-Vos sobre todas as coisas, e a entender as demais coisas segundo a ordem da vossa sabedoria, conforme elas são. Concedei-me afastar-me prudentemente de quem lisonjeia e suportar com paciência quem se opõe, pois é grande sabedoria não se deixar mover por todo vento de palavras, nem dar ouvido a quem mal lisonjeia: assim, com efeito, prossegue-se com segurança no caminho começado.