Imitação de Cristo - Livro III 24

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Em que consistem a firme paz do coração e o verdadeiro progresso

Filho, eu disse: A paz vos deixo, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Todos desejam a paz, mas nem todos cuidam daquilo que pertence à verdadeira paz. A minha paz está com os humildes e mansos de coração; a tua paz estará em muita paciência. Se me ouvires e seguires a minha voz, poderás gozar de muita paz. Que farei eu, então, em cada coisa? Atenta no que fazes e no que dizes, e dirige toda a tua intenção para isto: agradar somente a mim, e nada cobiçar ou buscar fora de mim. Mas também das palavras e dos atos dos outros nada julgues temerariamente, nem te envolvas em coisas que não te foram confiadas; e poderá acontecer que pouco ou raramente sejas perturbado.
Porém, nunca sentir perturbação alguma, nem padecer incômodo algum do coração ou do corpo, não é próprio do tempo presente, mas do estado do eterno repouso. Não julgues, pois, que encontraste a verdadeira paz se não sentiste peso algum, nem que então tudo esteja bem se não suportas nenhum adversário, nem que isto seja a perfeição se tudo sucedeu segundo o teu desejo. Tampouco te reputes algo de grande ou te julgues especialmente amado se estiveres em grande devoção ou doçura: porque nestas coisas não dão a conhecer o verdadeiro amador da virtude, nem nelas consiste o progresso e a perfeição do homem.
Em que, então, Senhor? Em oferecer-te de todo o teu coração à divina vontade, não buscando o que é teu, nem no pequeno nem no grande, nem no tempo nem na eternidade, de modo que permaneças com um mesmo e igual semblante na ação de graças, pesando em balança igual tanto as prosperidades como todas as adversidades. Se fores tão forte e longânimo na esperança que, retirada a consolação interior, preparares o teu coração para suportar coisas ainda maiores, e não te justificares nem te louvares como santo, então andas pela verdadeira e reta via da paz, e haverá esperança indubitável de que de novo verás a minha face no júbilo. E se chegares ao pleno desprezo de ti mesmo, sabe que então gozarás de abundância de paz, segundo a possibilidade da tua peregrinação.