Imitação de Cristo - Livro III 2
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Que a verdade fala interiormente sem ruído
Falai, Senhor, porque o vosso servo escuta. Eu sou vosso servo: dai-me entendimento, para que eu conheça os vossos testemunhos. Inclinai o meu coração para as palavras da vossa boca. Destile como o orvalho a vossa palavra. Diziam outrora os filhos de Israel a Moisés: Fala-nos tu, e ouviremos; não fale Deus conosco, para que não morramos. Não assim, Senhor, não assim peço, mas antes, com o profeta Samuel, humilde e ardentemente vos suplico: Falai, Senhor, porque o vosso servo escuta. Que não me fale Moisés, nem algum dos profetas, mas falai antes Vós, Senhor Deus, inspirador e iluminador de todos os profetas; porque Vós sozinho, sem eles, podeis instruir-me perfeitamente, ao passo que eles, sem Vós, de nada aproveitarão.
Podem na verdade as palavras soar, mas não conferem o espírito. Falam belíssimamente, mas, calando-Vos, não inflamam o coração. Transmitem as letras, mas Vós abris o sentido. Referem os mistérios, mas Vós abris o entendimento das coisas seladas. Promulgam os mandamentos, mas Vós ajudais a cumpri-los. Mostram o caminho, mas Vós dais forças para andar. Eles agem apenas por fora, mas Vós instruís e iluminais os corações. Eles regam exteriormente, mas Vós dais a fecundidade. Eles clamam com palavras, mas Vós concedeis ao ouvido o entendimento.
Que não me fale, pois, Moisés, mas Vós, Senhor Deus meu, verdade eterna, para que eu não venha a morrer e a tornar-me sem fruto, se for apenas advertido por fora e não inflamado por dentro; para que não me seja para condenação a palavra ouvida e não posta em prática, conhecida e não amada, crida e não guardada. Falai, portanto, Senhor, porque o vosso servo escuta: pois tendes palavras de vida eterna. Falai-me para alguma consolação da minha alma e para a emenda de toda a minha vida, e a Vós para glória e perpétua honra.