Imitação de Cristo - Livro III 11

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Que os desejos do coração devem ser examinados e moderados

Filho, ainda te resta aprender muitas coisas que ainda não aprendeste bem. Quais são elas, Senhor? Que ponhas o teu desejo inteiramente segundo o meu beneplácito, e não sejas amante de ti mesmo, mas sim cobiçoso amante e zeloso da minha vontade. Os desejos muitas vezes te inflamam e te impelem com veemência; mas considera se te moves mais por minha honra ou pela tua, ou por teu próprio proveito. Se eu sou a causa, ficarás bem contente com tudo quanto eu ordenar. Se, porém, sob isso se esconde algo de proveito próprio, eis o que te impede e te pesa.
Guarda-te, pois, de te apoiares demasiado sobre um desejo concebido de antemão, sem me consultares, para que depois não te arrependas e te desagrade aquilo que primeiro te agradou, e pelo que zelaste como se fosse melhor. Pois nem toda afeição que parece boa deve ser logo seguida; nem tampouco toda afeição contrária deve, à primeira, ser evitada. Convém às vezes usar de refreamento, mesmo nos bons empenhos e desejos, para que pela importunidade não venhas a incorrer em distração da mente, para que não geres escândalo aos outros pela tua falta de disciplina, ou ainda para que, pela resistência dos outros, não sejas de súbito perturbado e caias.
Às vezes, porém, é preciso usar de violência e contrariar virilmente o apetite sensitivo, sem atender ao que a carne quer e ao que não quer; mas antes empenhar-te nisto: que ela, ainda contra a vontade, esteja sujeita ao espírito, e por tanto tempo deve ser castigada e forçada a permanecer sob servidão, até que esteja preparada para tudo, e aprenda a contentar-se com pouco e a deleitar-se com o que é simples, sem murmurar contra nenhum incômodo.