Capítulos

Concordia do Livre Arbítrio - Parte II
Parte II - Sobre a cooperação geral de Deus
A Parte II na Obra
A Parte II da Concordia de Luís de Molina, escrita em 1588, trata da cooperação geral de Deus com as causas criadas, o que a escolástica chama de concursus generalis. Ela cobre as Disputas 25 a 35, em onze capítulos. O tema é uma pergunta antiga: se Deus é a causa primeira de tudo o que existe e acontece, como uma criatura pode ser, de fato, causa real de suas próprias ações? E, mais agudo, como o homem pode pecar sem que o pecado recaia sobre Deus, que coopera com toda ação?
Molina responde com a tese que dá nome ao molinismo neste ponto: o concurso de Deus é simultâneo, não anterior. Deus não move primeiro a causa para depois a causa agir; Deus influi diretamente no efeito, ao mesmo tempo em que a causa segunda também o produz. Essa posição se opõe à de Domingo Báñez e dos tomistas, que defendiam uma praemotio physica, uma pré-moção física pela qual Deus determina a causa segunda antes de seu ato. Molina apresenta sua doutrina como a única que preserva ao mesmo tempo a soberania de Deus e a liberdade real da criatura. Os tomistas respondiam que era ele quem comprometia a soberania. O debate seguiu sem decisão de Roma.
Conteúdo do Livro
- Disputa 25: como Deus coopera com as causas segundas em todas as suas ações e efeitos — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 1:1)
- Disputa 26: a cooperação de Deus move antes a causa, ou influi direto no efeito junto com a causa? — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 2:1)
- Disputa 27: apêndice à discussão anterior — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 3:1)
- Disputa 28: refutação de outras objeções contra a doutrina do concurso geral — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 4:1)
- Disputa 29: a cooperação geral de Deus com o livre-arbítrio nos atos naturais — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 5:1)
- Disputa 30: rejeição do exemplo usado por alguns e a explicação que Molina julga correta — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 6:1)
- Disputa 31: Deus não é a causa do pecado, mas apenas o livre-arbítrio criado — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 7:1)
- Disputa 32: a razão pela qual o pecado se atribui ao livre-arbítrio humano, não a Deus — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 8:1)
- Disputa 33: Deus é autor dos atos do nosso arbítrio e causa do elemento material do pecado? — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 9:1)
- Disputa 34: passagens da Escritura que parecem sugerir que Deus é a causa do pecado — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 10:1)
- Disputa 35: a contingência das coisas sobreviveria se Deus influísse por necessidade de natureza? — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 11:1)
Concurso Geral contra Pré-moção Física
O centro técnico da Parte II é o contraste entre dois modos de entender como Deus age junto com a criatura. Para os tomistas de Báñez, Deus aplica à causa segunda uma moção física que a leva a passar da potência ao ato: a criatura só age porque foi previamente movida por Deus, e essa pré-moção é infalível. Para Molina, isso destrói a liberdade, porque uma causa predeterminada por outra vontade já não se autodetermina. Sua alternativa é o concurso simultâneo: Deus e a criatura concorrem juntos para o mesmo efeito, lado a lado, sem que Deus pré-mova a vontade. A influência de Deus recai sobre a ação produzida, não sobre a faculdade que a produz.
Cada lado acusava o outro do mesmo defeito. Os molinistas diziam que a pré-moção física fazia de Deus o autor do pecado, já que a vontade pecaria movida por Ele. Os banezianos diziam que o concurso simultâneo tornava a ação de Deus dependente da decisão da criatura, rebaixando sua soberania. A controvérsia ficou conhecida como De auxiliis e foi examinada por uma comissão papal entre 1598 e 1607. Roma não condenou nenhuma das duas escolas e proibiu que uma chamasse a outra de herética. As duas continuam defendidas dentro do catolicismo, e o leitor encontra aqui o argumento molinista em sua forma original, não a versão de seus críticos.
Deus não é o autor de algo do qual Ele é o vingador.Luís de Molina, Concordia do Livre Arbítrio - Parte II 7:5
Relevância
A Parte II é a ponte entre a metafísica da causalidade e o problema do mal. Quem quer entender o molinismo costuma ir direto à Parte IV, sobre a presciência divina e a ciência média, mas é aqui que Molina monta a base: se o concurso de Deus é simultâneo e não predeterminante, então a vontade criada é a única origem do pecado, e Deus, que coopera apenas com o que há de positivo na ação, não é seu autor. A distinção entre o elemento material do pecado, a ação em si, e o elemento formal, a falta de retidão, é o instrumento dessa defesa. O leitor cético notará que a distinção resolve a culpa no plano lógico sem encerrar a discussão metafísica sobre como uma causa primeira universal pode não ser responsável pelo que sua causa segunda faz. Esse é exatamente o ponto em que tomistas e molinistas nunca se acertaram, e o texto permite julgar o argumento de Molina por ele mesmo, antes de aceitar ou recusar a conclusão.