Contra Celso - Livro VI 5

Filosofia grega, Platão e o conhecimento de Deus

Observe agora se aquele que nos acusa de ter cometido erros do tipo mais ímpio, e de termos nos afastado do (verdadeiro sentido) dos enigmas divinos, não está ele mesmo claramente em erro, por não notar que nos escritos de Moisés, que são muito mais antigos não do que Heráclito e Ferécides, mas até do que Homero, faz-se menção desse ser maligno e de sua queda do céu. Pois a serpente (de quem deriva o Ofioneu mencionado por Ferécides), tendo se tornado a causa da expulsão do homem do Paraíso divino, prefigura de modo obscuro algo semelhante, tendo enganado a mulher com a promessa de divindade e de bens maiores. E diz-se que o homem também seguiu o exemplo dela. E, além disso, quem mais poderia ser o anjo destruidor mencionado no Êxodo de Moisés senão aquele que foi o autor da destruição para os que lhe obedeceram e não resistiram às suas obras malignas, nem lutaram contra elas? Além disso, (o bode) que no livro de Levítico é enviado (para o deserto), e que na língua hebraica é chamado Azazel, não era outro senão este. E era preciso enviá-lo para o deserto e tratá-lo como sacrifício expiatório, porque sobre ele caiu a sorte. Pois todos os que pertencem à parte pior, por causa de sua maldade, estando opostos aos que são a herança de Deus, são abandonados por Deus. E mais, a respeito dos filhos de Belial no livro de Juízes, de quem se diz que são filhos, senão dele, por causa de sua maldade? E, além de todos esses casos, no livro de Jó, que é mais antigo até do que o próprio Moisés, o diabo é descrito de modo nítido apresentando-se diante de Deus e pedindo poder contra Jó, para envolvê-lo em provações do tipo mais doloroso. A primeira delas consistiu na perda de todos os seus bens e de seus filhos, e a segunda em afligir todo o corpo de com a chamada doença da elefantíase. Deixo de lado o que poderia ser citado dos Evangelhos a respeito do diabo que tentou o Salvador, para não parecer que respondo a Celso citando escritos mais recentes sobre essa questão. No último (capítulo) de também, no qual o Senhor declara a Jó, em meio à tempestade e às nuvens, o que está registrado no livro que leva o seu nome, não poucas coisas que se referem à serpente. Ainda não mencionei as passagens de Ezequiel, onde ele fala, por assim dizer, de Faraó, ou de Nabucodonosor, ou do príncipe de Tiro. Nem as de Isaías, onde se faz lamento pelo rei da Babilônia, das quais não pouco se poderia aprender a respeito do mal, quanto à natureza de sua origem e geração, e quanto a como ele veio a existir a partir de alguns que tinham perdido as asas e que tinham seguido aquele que foi o primeiro a perder as suas.