A Origem das Espécies - Capítulo XIV: Afinidades Mútuas dos Seres Orgânicos 2

Afinidades, Morfologia, Embriologia

Mas preciso explicar melhor o que quero dizer. Creio que o arranjo dos grupos dentro de cada classe, na devida subordinação e relação entre si, precisa ser estritamente genealógico para ser natural; mas que o grau de diferença nos vários ramos ou grupos, embora aparentados no mesmo grau de sangue com seu progenitor comum, pode variar muito, em razão dos diferentes graus de modificação por que passaram; e isso se exprime classificando as formas sob diferentes gêneros, famílias, seções ou ordens. O leitor entenderá melhor o que se quer dizer se tiver o trabalho de consultar o diagrama do quarto capítulo. Suporemos que as letras A a L representam gêneros aparentados existentes durante a época Siluriana, e descendentes de alguma forma ainda mais antiga. Em três desses gêneros (A, F e I), uma espécie transmitiu descendentes modificados até os dias de hoje, representados pelos quinze gêneros (a14 a z14) na linha horizontal mais alta. Ora, todos esses descendentes modificados de uma única espécie são aparentados em sangue ou descendência no mesmo grau. Podem, metaforicamente, ser chamados de primos no mesmo milionésimo grau, e ainda assim diferem muito uns dos outros, e em graus diferentes. As formas descendentes de A, agora divididas em duas ou três famílias, constituem uma ordem distinta das descendentes de I, também dividida em duas famílias. Nem as espécies vivas descendentes de A podem ser classificadas no mesmo gênero que o progenitor A, nem as de I com o progenitor I. Mas pode-se supor que o gênero existente F14 tenha sido apenas levemente modificado, e nesse caso será classificado junto com o gênero progenitor F; assim como uns poucos organismos ainda vivos pertencem a gêneros silurianos. De modo que o valor comparativo das diferenças entre esses seres orgânicos, todos aparentados entre si no mesmo grau de sangue, acabou se tornando muito desigual. Apesar disso, seu arranjo genealógico permanece estritamente verdadeiro, não no tempo presente, mas em cada período sucessivo de descendência. Todos os descendentes modificados de A terão herdado algo em comum de seu progenitor comum, como também todos os descendentes de I; e assim será com cada ramo subordinado de descendentes em cada estágio sucessivo. Se, porém, supusermos que algum descendente de A ou de I se modificou tanto a ponto de perder todos os traços de sua ascendência, nesse caso seu lugar no sistema natural se perderá, como parece ter ocorrido com uns poucos organismos existentes. Supõe-se que todos os descendentes do gênero F, ao longo de toda a sua linha de descendência, tenham sido pouco modificados, e eles formam um único gênero. Mas esse gênero, embora muito isolado, ainda ocupará a posição intermediária que lhe é própria. A representação dos grupos como aqui dada no diagrama, numa superfície plana, é simples demais. Os ramos deveriam ter divergido em todas as direções. Se os nomes dos grupos tivessem sido simplesmente escritos numa série linear, a representação seria ainda menos natural; e é sabido que não é possível representar numa série, sobre uma superfície plana, as afinidades que descobrimos na natureza entre os seres do mesmo grupo. Assim, o sistema natural é genealógico em seu arranjo, como uma árvore genealógica. Mas o grau de modificação por que passaram os diferentes grupos tem de ser expresso classificando-os sob diferentes coisas chamadas gêneros, subfamílias, famílias, seções, ordens e classes.
Pode valer a pena ilustrar essa visão da classificação tomando o caso das línguas. Se possuíssemos uma árvore genealógica perfeita da humanidade, um arranjo genealógico das raças humanas forneceria a melhor classificação das várias línguas hoje faladas pelo mundo; e se todas as línguas extintas, e todos os dialetos intermediários e em lenta transformação, fossem incluídos, esse arranjo seria o único possível. Mesmo assim, poderia acontecer de algumas línguas antigas terem se alterado muito pouco e dado origem a poucas línguas novas, enquanto outras teriam se alterado bastante, em razão da dispersão, do isolamento e do estado de civilização das várias raças co-descendentes, e teriam assim dado origem a muitos novos dialetos e línguas. Os vários graus de diferença entre as línguas de um mesmo tronco teriam de ser expressos por grupos subordinados a grupos; mas o arranjo adequado, ou mesmo o único possível, ainda seria genealógico; e isso seria estritamente natural, pois ligaria entre si todas as línguas, extintas e recentes, pelas afinidades mais estreitas, e indicaria a filiação e a origem de cada idioma.
Para confirmar essa visão, lancemos um olhar à classificação das variedades, que se sabe ou se acredita serem descendentes de uma única espécie. Elas são agrupadas sob a espécie, com as subvariedades sob as variedades; e em alguns casos, como no pombo doméstico, com vários outros graus de diferença. Seguem-se quase as mesmas regras da classificação das espécies. Os autores insistiram na necessidade de organizar as variedades num sistema natural em vez de artificial; somos advertidos, por exemplo, a não classificar juntas duas variedades de abacaxi apenas porque seu fruto, embora seja a parte mais importante, por acaso é quase idêntico; ninguém junta o nabo sueco e o nabo comum, embora os caules comestíveis e engrossados sejam tão parecidos. Qualquer parte que se mostre mais constante é usada para classificar as variedades: assim, o grande agricultor Marshall diz que os chifres são muito úteis para esse fim no gado, por serem menos variáveis do que a forma ou a cor do corpo etc.; ao passo que nas ovelhas os chifres são bem menos úteis, por serem menos constantes. Ao classificar variedades, entendo que, se tivéssemos uma genealogia real, uma classificação genealógica seria universalmente preferida; e isso foi tentado em alguns casos. Pois poderíamos ter certeza, tivesse havido mais ou menos modificação, de que o princípio da hereditariedade manteria juntas as formas aparentadas no maior número de pontos. Nos pombos volteadores, embora algumas das subvariedades difiram no caráter importante do comprimento do bico, todas são mantidas juntas por terem o hábito comum de voltear; mas a raça de cara curta perdeu quase ou totalmente esse hábito; mesmo assim, sem que ninguém pense no assunto, esses volteadores são mantidos no mesmo grupo, por serem aparentados em sangue e parecidos em alguns outros aspectos.
No caso das espécies em estado natural, todo naturalista na verdade trouxe a descendência para dentro da sua classificação. Afinal, ele inclui no nível mais baixo, o da espécie, os dois sexos; e todo naturalista sabe o quanto eles às vezes diferem enormemente nos caracteres mais importantes. Quase nenhum fato pode ser afirmado em comum entre os machos adultos e os hermafroditas de certos cirrípedes, e mesmo assim ninguém pensa em separá-los. Tão logo as três formas de orquídea, Monachanthus, Myanthus e Catasetum, antes classificadas como três gêneros distintos, foram reconhecidas como produzidas às vezes na mesma planta, passaram a ser imediatamente consideradas variedades; e agora consegui mostrar que são as formas masculina, feminina e hermafrodita da mesma espécie. O naturalista inclui como uma espécie os vários estágios larvais do mesmo indivíduo, por mais que difiram entre si e do adulto; bem como as chamadas gerações alternadas de Steenstrup, que num sentido técnico podem ser consideradas o mesmo indivíduo. Ele inclui monstruosidades e variedades, não pela semelhança parcial com a forma parental, mas porque descendem dela.
A descendência tem sido usada universalmente para agrupar os indivíduos da mesma espécie, ainda que machos, fêmeas e larvas às vezes sejam extremamente diferentes; e também tem sido usada para classificar variedades que sofreram certa modificação, por vezes considerável. Não terá esse mesmo elemento da descendência sido usado de forma inconsciente para agrupar espécies dentro de gêneros, e gêneros dentro de grupos maiores, todos sob o chamado sistema natural? Acredito que sim, foi usado inconscientemente; e assim consigo entender as várias regras e diretrizes que nossos melhores sistematas seguiram. Como não temos genealogias escritas, somos forçados a rastrear a comunidade de descendência por semelhanças de qualquer tipo. Por isso escolhemos os caracteres que têm menos probabilidade de ter sido modificados em relação às condições de vida a que cada espécie esteve recentemente exposta. Sob esse ponto de vista, as estruturas rudimentares são tão boas quanto as outras partes do organismo, e às vezes até melhores. Não nos importa quão insignificante um caráter possa ser (seja a mera inflexão do ângulo da mandíbula, o modo como a asa de um inseto se dobra, ou se a pele é coberta por pelos ou penas): se ele prevalece em muitas espécies diferentes, sobretudo nas que têm hábitos de vida muito distintos, ganha grande valor. Pois conseguimos explicar sua presença em tantas formas com hábitos tão diferentes pela hereditariedade vinda de um ancestral comum. Podemos errar nesse aspecto em relação a pontos isolados de estrutura, mas quando vários caracteres, por mais insignificantes que sejam, coincidem ao longo de um grande grupo de seres com hábitos diferentes, podemos ter quase certeza, pela teoria da descendência, de que esses caracteres foram herdados de um ancestral comum; e sabemos que tais caracteres reunidos têm valor especial na classificação.
Conseguimos entender por que uma espécie ou um grupo de espécies pode se afastar de seus parentes em vários de seus caracteres mais importantes e, ainda assim, ser classificado com segurança junto deles. Isso pode ser feito sem risco, e é feito com frequência, desde que um número suficiente de caracteres, por mais sem importância que sejam, revele o vínculo oculto da comunidade de descendência. Que duas formas não tenham um único caráter em comum; ainda assim, se essas formas extremas estiverem ligadas por uma cadeia de grupos intermediários, podemos de imediato inferir sua comunidade de descendência e colocá-las todas na mesma classe. Como verificamos que os órgãos de grande importância fisiológica (aqueles que servem para preservar a vida sob as mais diversas condições de existência) são em geral os mais constantes, atribuímos a eles valor especial; mas se esses mesmos órgãos, em outro grupo ou seção de um grupo, mostram-se muito diferentes, passamos imediatamente a valorizá-los menos na classificação. Veremos em breve por que os caracteres embriológicos têm tão grande importância classificatória. A distribuição geográfica às vezes pode ser empregada de forma útil para classificar gêneros grandes, porque todas as espécies do mesmo gênero que habitam uma região distinta e isolada provavelmente descendem dos mesmos pais.
Semelhanças analógicas. Com base nas ideias acima, conseguimos entender a distinção muito importante entre afinidades reais e semelhanças analógicas ou adaptativas. Lamarck foi o primeiro a chamar atenção para esse tema, e foi seguido com competência por Macleay e outros. A semelhança na forma do corpo e nos membros anteriores em forma de nadadeira entre dugongos e baleias, e entre essas duas ordens de mamíferos e os peixes, é analógica. Também é analógica a semelhança entre um camundongo e um musaranho (Sorex), que pertencem a ordens diferentes; e a semelhança ainda mais próxima, ressaltada pelo Sr. Mivart, entre o camundongo e um pequeno marsupial (Antechinus) da Austrália. Essas últimas semelhanças, a meu ver, explicam-se pela adaptação a movimentos ágeis semelhantes através de matagais e ervas, junto com o ocultamento dos inimigos.
Entre os insetos inúmeros exemplos; assim, Lineu, enganado pela aparência externa, chegou a classificar um inseto homóptero como mariposa. Vemos algo parecido até em nossas variedades domésticas, como na forma do corpo notavelmente semelhante entre as raças melhoradas do porco chinês e do porco comum, que descendem de espécies distintas; e nos caules igualmente espessados do nabo comum e do nabo sueco, que é uma espécie distinta. A semelhança entre o galgo e o cavalo de corrida não é muito mais fantasiosa do que as analogias que alguns autores traçaram entre animais profundamente diferentes.
Adotando a ideia de que os caracteres têm importância real para a classificação na medida em que revelam descendência, entendemos com clareza por que os caracteres analógicos ou adaptativos, embora da maior importância para o bem-estar do ser, têm valor quase nulo para o sistemata. Pois animais que pertencem a duas linhas de descendência muito distintas podem ter se adaptado a condições semelhantes e, assim, adquirido uma semelhança externa próxima; mas tais semelhanças não revelam, e antes tendem a ocultar, o parentesco de sangue. Assim também entendemos o aparente paradoxo de que esses mesmos caracteres são analógicos quando um grupo é comparado com outro, mas dão afinidades verdadeiras quando os membros do mesmo grupo são comparados entre si. Assim, a forma do corpo e os membros em forma de nadadeira são apenas analógicos quando se comparam baleias com peixes, pois são adaptações para nadar pela água em ambas as classes; mas entre os vários membros da família das baleias, a forma do corpo e os membros em forma de nadadeira oferecem caracteres que exibem afinidade verdadeira. Pois, como essas partes são tão semelhantes em toda a família, não podemos duvidar de que foram herdadas de um ancestral comum. O mesmo vale para os peixes.
Poderiam ser dados muitos casos de semelhanças notáveis em seres bem distintos, entre partes ou órgãos isolados que se adaptaram às mesmas funções. Um bom exemplo é a semelhança estreita entre as mandíbulas do cão e do lobo da Tasmânia, ou Thylacinus, animais muito separados no sistema natural. Mas essa semelhança se limita à aparência geral, como na proeminência dos caninos e no formato cortante dos molares. Pois os dentes na verdade diferem bastante: o cão tem de cada lado da mandíbula superior quatro pré-molares e apenas dois molares; o Thylacinus tem três pré-molares e quatro molares. Os molares também diferem muito entre os dois animais em tamanho relativo e estrutura. A dentição adulta é precedida por uma dentição de leite bem diferente. Qualquer um pode, é claro, negar que os dentes em ambos os casos tenham se adaptado para rasgar carne pela seleção natural de variações sucessivas; mas, se isso for admitido em um caso, não consigo entender que seja negado no outro. Fico contente em constatar que uma autoridade tão alta como o Professor Flower chegou a essa mesma conclusão.
Os casos extraordinários apresentados num capítulo anterior, de peixes muito diferentes que possuem órgãos elétricos, de insetos muito diferentes que possuem órgãos luminosos, e de orquídeas e asclepiadáceas com massas de pólen dotadas de discos viscosos, enquadram-se nessa mesma categoria das semelhanças analógicas. Mas esses casos são tão admiráveis que foram apresentados como dificuldades ou objeções à nossa teoria. Em todos eles é possível detectar alguma diferença fundamental no crescimento ou desenvolvimento das partes, e em geral na sua estrutura amadurecida. O fim alcançado é o mesmo, mas os meios, embora pareçam superficialmente iguais, são essencialmente diferentes. O princípio antes mencionado sob o nome de variação analógica provavelmente entrou em jogo muitas vezes nesses casos; ou seja, os membros da mesma classe, ainda que apenas distantemente aparentados, herdaram tanto em comum em sua constituição que tendem a variar de modo semelhante sob causas excitantes semelhantes; e isso obviamente ajudaria na aquisição, pela seleção natural, de partes ou órgãos notavelmente parecidos entre si, independentemente de sua herança direta de um progenitor comum.
Como espécies pertencentes a classes distintas muitas vezes se adaptaram, por leves modificações sucessivas, a viver em circunstâncias quase semelhantes (por exemplo, a habitar os três elementos: terra, ar e água), talvez possamos entender por que às vezes se observou um paralelismo numérico entre os subgrupos de classes distintas. Um naturalista impressionado por um paralelismo dessa natureza, ao elevar ou rebaixar arbitrariamente o valor dos grupos em várias classes (e toda a nossa experiência mostra que essa valoração ainda é arbitrária), poderia facilmente estender o paralelismo por uma ampla faixa; e assim provavelmente surgiram as classificações septenárias, quinárias, quaternárias e ternárias.
outra classe curiosa de casos em que a semelhança externa próxima não depende da adaptação a hábitos de vida semelhantes, mas foi adquirida para fins de proteção. Refiro-me ao modo admirável, descrito primeiro pelo Sr. Bates, como certas borboletas imitam outras espécies bem distintas. Esse excelente observador mostrou que, em algumas regiões da América do Sul, onde, por exemplo, uma Ithomia abunda em enxames vistosos, outra borboleta, a saber, uma Leptalis, é muitas vezes encontrada misturada no mesmo bando; e esta se assemelha tão de perto à Ithomia em cada tom e listra de cor, e até no formato das asas, que o Sr. Bates, com os olhos aguçados por onze anos de coleta, embora sempre atento, era continuamente enganado. Quando os imitadores e os imitados são capturados e comparados, constata-se que são muito diferentes na estrutura essencial e que pertencem não a gêneros distintos, mas muitas vezes a famílias distintas. Se essa imitação ocorresse em apenas um ou dois casos, poderia ser deixada de lado como uma coincidência estranha. Mas, se partimos de uma região onde uma Leptalis imita uma Ithomia, podemos encontrar outras espécies imitadora e imitada, pertencentes aos mesmos dois gêneros, com semelhança igualmente próxima. Ao todo, são enumerados nada menos que dez gêneros que incluem espécies imitadoras de outras borboletas. Os imitadores e os imitados habitam sempre a mesma região; nunca encontramos um imitador vivendo longe da forma que imita. Os imitadores são quase invariavelmente insetos raros; os imitados, em quase todos os casos, abundam em enxames. Na mesma região em que uma espécie de Leptalis imita de perto uma Ithomia, às vezes outros lepidópteros imitando a mesma Ithomia: de modo que, no mesmo lugar, espécies de três gêneros de borboletas, e até uma mariposa, são todas muito parecidas com uma borboleta de um quarto gênero. Merece atenção especial o fato de que muitas das formas imitadoras da Leptalis, assim como das formas imitadas, podem, por meio de uma série gradual, ser mostradas como meras variedades da mesma espécie; enquanto outras são, sem dúvida, espécies distintas. Mas por que, pode-se perguntar, certas formas são tratadas como imitadas e outras como imitadoras? O Sr. Bates responde a essa pergunta de forma satisfatória ao mostrar que a forma imitada mantém a roupagem habitual do grupo a que pertence, enquanto as falsificadoras mudaram de roupagem e não se parecem com seus parentes mais próximos.