A Origem das Espécies - Capítulo XIII: Distribuição Geográfica (continuação) 4
Distribuição Geográfica (continuação)
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Nestes capítulos procurei mostrar o seguinte. Se levarmos em conta nossa ignorância sobre os efeitos completos das mudanças de clima e do nível das terras, que certamente ocorreram no período recente, e de outras mudanças que provavelmente ocorreram; se lembrarmos o quanto ignoramos a respeito dos muitos meios curiosos de transporte ocasional; e se tivermos em mente, o que é uma consideração muito importante, com que frequência uma espécie pode ter ocupado de forma contínua uma ampla área e depois se extinguido nas regiões intermediárias, então não é uma dificuldade intransponível acreditar que todos os indivíduos de uma mesma espécie, onde quer que sejam encontrados, descendem de pais comuns. Somos levados a essa conclusão, à qual muitos naturalistas chegaram sob a designação de centros únicos de criação, por diversas considerações gerais, em especial pela importância das barreiras de todos os tipos e pela distribuição análoga de subgêneros, gêneros e famílias.
Quanto a espécies distintas que pertencem ao mesmo gênero, e que segundo nossa teoria se espalharam a partir de uma única fonte parental, as dificuldades estão longe de ser intransponíveis se fizermos as mesmas concessões de antes à nossa ignorância e lembrarmos que algumas formas de vida mudaram muito lentamente, dispondo assim de períodos de tempo enormes para sua migração. Ainda assim, nesse caso, como no dos indivíduos de uma mesma espécie, essas dificuldades costumam ser grandes.
Como exemplo dos efeitos das mudanças climáticas sobre a distribuição, tentei mostrar o papel tão importante que o último período Glacial desempenhou. Ele afetou até mesmo as regiões equatoriais e, durante as alternâncias do frio no norte e no sul, permitiu que as produções de hemisférios opostos se misturassem, deixando algumas delas isoladas nos cumes das montanhas em todas as partes do mundo. Para mostrar o quanto são variados os meios de transporte ocasional, discuti com algum detalhe os meios de dispersão das produções de água doce.
Se as dificuldades não são intransponíveis para admitir que, no longo curso do tempo, todos os indivíduos de uma mesma espécie, e também das várias espécies que pertencem ao mesmo gênero, procedem de uma única fonte, então todos os grandes fatos centrais da distribuição geográfica se explicam pela teoria da migração, somada à modificação posterior e à multiplicação de novas formas. Podemos assim entender a grande importância das barreiras, sejam de terra ou de água, não só ao separar mas também, aparentemente, ao formar as várias províncias zoológicas e botânicas. Podemos assim entender a concentração de espécies aparentadas dentro das mesmas áreas, e como, em diferentes latitudes, por exemplo na América do Sul, os habitantes das planícies e das montanhas, das florestas, dos pântanos e dos desertos estão ligados entre si de modo tão misterioso, e estão também ligados aos seres extintos que antes habitavam o mesmo continente. Tendo em mente que a relação mútua de um organismo com outro é da maior importância, podemos ver por que duas áreas, com condições físicas quase iguais, frequentemente são habitadas por formas de vida muito diferentes. Pois conforme o tempo decorrido desde que os colonizadores entraram em uma das regiões, ou em ambas; conforme a natureza da comunicação que permitiu a entrada de certas formas e não de outras, em maior ou menor número; conforme as que entraram tenham vindo ou não a competir de modo mais ou menos direto entre si e com os habitantes nativos; e conforme os imigrantes fossem capazes de variar com maior ou menor rapidez, surgiriam nas duas ou mais regiões, independentemente de suas condições físicas, condições de vida infinitamente variadas. Haveria uma quantidade quase infinita de ação e reação orgânica, e encontraríamos alguns grupos de seres muito modificados e outros apenas ligeiramente; alguns desenvolvidos com grande força, outros existindo em números escassos. E é isso que de fato encontramos nas várias grandes províncias geográficas do mundo.
Sobre esses mesmos princípios podemos entender, como procurei mostrar, por que as ilhas oceânicas têm poucos habitantes, mas por que, desses, uma grande proporção é endêmica ou exclusiva; e por que, em relação aos meios de migração, um grupo de seres tem todas as suas espécies exclusivas, ao passo que outro grupo, mesmo dentro da mesma classe, tem todas as suas espécies iguais às de uma região vizinha do mundo. Podemos ver por que grupos inteiros de organismos, como os batráquios e os mamíferos terrestres, estão ausentes das ilhas oceânicas, enquanto as ilhas mais isoladas possuem suas próprias espécies exclusivas de mamíferos aéreos, ou morcegos. Podemos ver por que, nas ilhas, deveria existir alguma relação entre a presença de mamíferos, em condição mais ou menos modificada, e a profundidade do mar entre essas ilhas e o continente. Podemos ver claramente por que todos os habitantes de um arquipélago, embora distintos como espécie nas várias ilhotas, deveriam ser intimamente aparentados entre si, e estar também aparentados, mas de modo menos próximo, aos do continente mais próximo, ou de outra fonte de onde os imigrantes possam ter vindo. Podemos ver por que, se existem em duas áreas espécies muito próximas ou representativas, por mais distantes que estejam uma da outra, quase sempre também se encontrarão ali algumas espécies idênticas.
Como o falecido Edward Forbes insistia com frequência, há um paralelismo notável nas leis da vida ao longo do tempo e do espaço. As leis que governam a sucessão das formas em tempos passados são quase as mesmas que governam, no presente, as diferenças entre áreas distintas. Vemos isso em muitos fatos. A permanência de cada espécie e de cada grupo de espécies é contínua no tempo, pois as aparentes exceções à regra são tão poucas que podem razoavelmente ser atribuídas ao fato de ainda não termos descoberto, num depósito intermediário, certas formas que ali estão ausentes mas aparecem acima e abaixo. Assim também no espaço: é certamente a regra geral que a área habitada por uma única espécie, ou por um grupo de espécies, é contínua, e as exceções, que não são raras, podem, como tentei mostrar, ser explicadas por migrações antigas sob circunstâncias diferentes, ou por meios ocasionais de transporte, ou pelo fato de a espécie ter se extinguido nas regiões intermediárias. Tanto no tempo quanto no espaço, as espécies e os grupos de espécies têm seus pontos de desenvolvimento máximo. Grupos de espécies que vivem durante o mesmo período de tempo, ou dentro da mesma área, costumam ser marcados por pequenas características em comum, como de relevo ou de cor. Ao olhar para a longa sucessão das eras passadas, assim como ao olhar para províncias distantes em todo o mundo, vemos que as espécies de certas classes diferem pouco entre si, ao passo que as de outra classe, ou apenas de uma seção diferente da mesma ordem, diferem muito entre si. Tanto no tempo quanto no espaço, os membros de organização mais simples de cada classe geralmente mudam menos do que os de organização mais elevada, mas há, em ambos os casos, exceções marcantes à regra. Segundo nossa teoria, essas várias relações ao longo do tempo e do espaço são inteligíveis. Pois, quer olhemos para as formas de vida aparentadas que mudaram ao longo de eras sucessivas, quer para aquelas que mudaram depois de migrar para regiões distantes, em ambos os casos elas estão ligadas pelo mesmo vínculo da geração comum; em ambos os casos as leis da variação foram as mesmas, e as modificações foram acumuladas pelos mesmos meios da seleção natural.