A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 3

Dificuldades da Teoria

Organs of extreme Perfection and Complication

Supor que o olho, com todos os seus inimitáveis mecanismos para ajustar o foco a diferentes distâncias, para admitir diferentes quantidades de luz e para corrigir a aberração esférica e cromática, possa ter sido formado pela seleção natural parece, confesso abertamente, absurdo no mais alto grau. Quando se disse pela primeira vez que o sol ficava parado e que o mundo girava, o senso comum da humanidade declarou a doutrina falsa. Mas o velho dito Vox populi, vox Dei, como todo filósofo sabe, não é confiável na ciência. A razão me diz que, se for possível mostrar que existem inúmeras gradações desde um olho simples e imperfeito até um olho complexo e perfeito, sendo cada grau útil ao seu possuidor, como certamente é o caso; se, além disso, o olho varia continuamente e as variações são herdadas, como também certamente é o caso; e se essas variações forem úteis a algum animal sob condições de vida em mudança, então a dificuldade de acreditar que um olho perfeito e complexo possa ter sido formado pela seleção natural, embora insuperável para a nossa imaginação, não deve ser considerada subversiva da teoria. Como um nervo passa a ser sensível à luz dificilmente nos diz respeito mais do que o modo como a própria vida se originou. Mas posso observar que, que alguns dos organismos mais simples, nos quais não se detectam nervos, são capazes de perceber a luz, não parece impossível que certos elementos sensíveis em seu sarcode se agreguem e se desenvolvam em nervos dotados dessa sensibilidade especial.