A Origem das Espécies - Introdução 1

Introdução

Ao considerar a origem das espécies, é bem concebível que um naturalista, refletindo sobre as afinidades mútuas dos seres orgânicos, sobre suas relações embriológicas, sua distribuição geográfica, sua sucessão geológica e outros fatos semelhantes, chegue à conclusão de que as espécies não foram criadas de modo independente, mas descenderam, como as variedades, de outras espécies. Ainda assim, tal conclusão, mesmo que bem fundamentada, seria insatisfatória até que se pudesse mostrar como as inúmeras espécies que habitam este mundo foram modificadas a ponto de adquirir aquela perfeição de estrutura e de adaptação mútua que com razão desperta nossa admiração. Os naturalistas referem-se continuamente a condições externas, como clima, alimento e assim por diante, como a única causa possível da variação. Num sentido limitado, como veremos adiante, isso pode ser verdade; mas é absurdo atribuir a meras condições externas a estrutura, por exemplo, do pica-pau, com seus pés, sua cauda, seu bico e sua língua tão admiravelmente adaptados para capturar insetos sob a casca das árvores. No caso do visco, que extrai seu alimento de certas árvores, que tem sementes que precisam ser transportadas por certos pássaros, e que tem flores de sexos separados que exigem de modo absoluto a ação de certos insetos para levar o pólen de uma flor a outra, é igualmente absurdo explicar a estrutura desse parasita, com suas relações com vários seres orgânicos distintos, pelos efeitos das condições externas, ou do hábito, ou da vontade da própria planta.