A Origem das Espécies - Capítulo XV: Recapitulação e Conclusão 3

Recapitulação e Conclusão

A existência de espécies representativas estreitamente aparentadas em duas áreas quaisquer implica, pela teoria da descendência com modificação, que as mesmas formas ancestrais habitaram antes as duas áreas. E quase sempre constatamos que, onde muitas espécies estreitamente aparentadas habitam duas áreas, algumas espécies idênticas ainda são comuns a ambas. Onde quer que ocorram muitas espécies estreitamente aparentadas, mas distintas, ocorrem também formas duvidosas e variedades pertencentes aos mesmos grupos. É uma regra de grande generalidade que os habitantes de cada área estejam aparentados com os habitantes da fonte mais próxima de onde os imigrantes possam ter vindo. Vemos isso na relação impressionante de quase todas as plantas e animais do Arquipélago de Galápagos, de Juan Fernández e das outras ilhas americanas com as plantas e animais do continente americano vizinho, e na relação dos habitantes do Arquipélago de Cabo Verde e das outras ilhas africanas com o continente africano. É preciso admitir que esses fatos não recebem nenhuma explicação pela teoria da criação.
O fato, como vimos, de que todos os seres orgânicos do passado e do presente podem ser organizados em umas poucas grandes classes, em grupos subordinados a grupos, e com os grupos extintos muitas vezes se encaixando entre os grupos recentes, é compreensível pela teoria da seleção natural, com suas contingências de extinção e divergência de caráter. Por esses mesmos princípios, vemos por que as afinidades mútuas das formas dentro de cada classe são tão complexas e tortuosas. Vemos por que certos caracteres são muito mais úteis do que outros para a classificação; por que os caracteres adaptativos, embora de importância máxima para os seres, têm pouquíssima importância na classificação; por que os caracteres derivados de partes rudimentares, embora de nenhuma serventia para os seres, têm muitas vezes alto valor classificatório; e por que os caracteres embriológicos são frequentemente os mais valiosos de todos. As afinidades reais de todos os seres orgânicos, em contraste com suas semelhanças adaptativas, devem-se à hereditariedade ou comunidade de descendência. O Sistema Natural é um arranjo genealógico, com os graus adquiridos de diferença marcados pelos termos variedades, espécies, gêneros, famílias etc., e temos de descobrir as linhas de descendência pelos caracteres mais permanentes, sejam eles quais forem e por menor que seja sua importância vital.
A estrutura semelhante de ossos na mão de um homem, na asa de um morcego, na nadadeira do boto e na perna do cavalo, o mesmo número de vértebras formando o pescoço da girafa e do elefante, e inúmeros outros fatos do gênero, explicam-se de imediato pela teoria da descendência com modificações sucessivas, lentas e pequenas. A semelhança de padrão na asa e na perna de um morcego, embora usadas para propósitos tão diferentes, nas mandíbulas e patas de um caranguejo, nas pétalas, estames e pistilos de uma flor, é igualmente, em grande medida, compreensível pela visão da modificação gradual de partes ou órgãos que eram originalmente iguais em um progenitor inicial de cada uma dessas classes. Pelo princípio de que variações sucessivas nem sempre surgem em idade precoce, sendo herdadas em um período correspondente, não precoce, da vida, vemos com clareza por que os embriões de mamíferos, aves, répteis e peixes são tão semelhantes entre si e tão diferentes das formas adultas. Podemos deixar de nos espantar com o fato de o embrião de um mamífero ou ave que respira ar ter fendas branquiais e artérias correndo em laços, como as de um peixe que precisa respirar o ar dissolvido na água com a ajuda de brânquias bem desenvolvidas.
O desuso, ajudado às vezes pela seleção natural, muitas vezes terá reduzido órgãos quando eles se tornaram inúteis sob hábitos ou condições de vida alterados. E entendemos, por essa visão, o significado dos órgãos rudimentares. Mas o desuso e a seleção geralmente agem sobre cada criatura quando ela atingiu a maturidade e tem de desempenhar seu pleno papel na luta pela existência, e por isso terão pouco poder sobre um órgão durante a vida inicial. Assim, o órgão não será reduzido ou tornado rudimentar nessa fase precoce. O bezerro, por exemplo, herdou dentes que nunca rompem as gengivas da mandíbula superior, de um progenitor inicial que tinha dentes bem desenvolvidos. E podemos acreditar que os dentes do animal adulto foram outrora reduzidos pelo desuso, porque a língua e o palato, ou os lábios, tornaram-se excelentemente adaptados, pela seleção natural, para pastar sem a ajuda deles. No bezerro, porém, os dentes ficaram inalterados e, pelo princípio da hereditariedade em idades correspondentes, foram herdados de um período remoto até os dias de hoje. Pela visão de cada organismo, com todas as suas partes separadas, tendo sido especialmente criado, é totalmente inexplicável que órgãos com o nítido selo da inutilidade, como os dentes no bezerro embrionário ou as asas atrofiadas sob os élitros soldados de muitos besouros, ocorram com tanta frequência. Pode-se dizer que a natureza se deu ao trabalho de revelar seu esquema de modificação por meio de órgãos rudimentares, de estruturas embriológicas e homólogas, mas somos cegos demais para entender o que ela quer dizer.
Recapitulei agora os fatos e as considerações que me convenceram por completo de que as espécies foram modificadas ao longo de um longo curso de descendência. Isso se deu principalmente pela seleção natural de numerosas variações sucessivas, pequenas e favoráveis, auxiliada de modo importante pelos efeitos herdados do uso e do desuso das partes, e de modo pouco importante, ou seja, no que diz respeito às estruturas adaptativas, passadas ou presentes, pela ação direta de condições externas e por variações que nos parecem, em nossa ignorância, surgir espontaneamente. Parece que antes subestimei a frequência e o valor dessas últimas formas de variação como causa de modificações permanentes da estrutura, independentes da seleção natural. Mas como minhas conclusões têm sido muito mal interpretadas ultimamente, e como se afirmou que eu atribuo a modificação das espécies exclusivamente à seleção natural, posso ser autorizado a observar que, na primeira edição desta obra e nas seguintes, coloquei em uma posição bastante destacada, ou seja, no fim da Introdução, as seguintes palavras: "Estou convencido de que a seleção natural foi o principal meio de modificação, mas não o único." Isso não adiantou nada. Grande é o poder da deturpação constante. Mas a história da ciência mostra que, felizmente, esse poder não dura muito tempo.
Dificilmente se pode supor que uma teoria falsa explicasse, de modo tão satisfatório quanto a teoria da seleção natural, as várias grandes classes de fatos especificadas acima. Recentemente objetou-se que esse é um método inseguro de argumentar, mas é um método usado para julgar os acontecimentos comuns da vida e foi muitas vezes empregado pelos maiores filósofos naturais. Foi assim que se chegou à teoria ondulatória da luz, e até pouco tempo a crença na rotação da Terra em torno do próprio eixo quase não tinha apoio em evidências diretas. Não é objeção válida dizer que a ciência ainda não lança luz sobre o problema bem mais alto da essência ou da origem da vida. Quem pode explicar qual é a essência da atração da gravidade? Ninguém hoje se opõe a investigar os resultados decorrentes desse elemento desconhecido de atração, apesar de Leibniz ter outrora acusado Newton de introduzir 'qualidades ocultas e milagres na filosofia'.
Não vejo boas razões para que as ideias apresentadas neste volume choquem os sentimentos religiosos de ninguém. É reconfortante, como mostra de quão passageiras são tais impressões, lembrar que a maior descoberta feita pelo homem, a saber, a lei da atração da gravidade, também foi atacada por Leibniz 'como subversiva da religião natural e, por inferência, da religião revelada'. Um célebre autor e teólogo me escreveu que 'aos poucos aprendeu a ver que é uma concepção tão nobre da Divindade acreditar que Ele criou algumas poucas formas originais, capazes de se desenvolverem por si em outras formas necessárias, quanto acreditar que Ele precisou de um novo ato de criação para preencher os vazios causados pela ação de Suas leis'.
Pode-se perguntar por que, até pouco tempo, quase todos os mais eminentes naturalistas e geólogos vivos descreram na mutabilidade das espécies. Não se pode afirmar que os seres orgânicos em estado natural não estejam sujeitos a nenhuma variação. Não se pode provar que o montante de variação ao longo de eras imensas seja uma quantidade limitada. Nenhuma distinção clara foi traçada, nem pode ser, entre espécies e variedades bem marcadas. Não se pode sustentar que as espécies, quando cruzadas entre si, sejam invariavelmente estéreis e as variedades invariavelmente férteis, ou que a esterilidade seja uma dádiva especial e um sinal de criação. A crença de que as espécies eram produções imutáveis era quase inevitável enquanto se julgava que a história do mundo tinha curta duração. E agora que adquirimos alguma ideia do decorrer do tempo, somos propensos demais a supor, sem prova, que o registro geológico é tão perfeito que nos teria fornecido evidências claras da mutação das espécies, caso elas tivessem sofrido mutação.
Mas a causa principal de nossa relutância natural em admitir que uma espécie tenha dado origem a outras espécies distintas é que somos sempre lentos para admitir grandes mudanças cujas etapas não vemos. A dificuldade é a mesma que tantos geólogos sentiram quando Lyell insistiu pela primeira vez em que longas linhas de penhascos interiores se haviam formado, e grandes vales se haviam escavado, pelas mesmas forças que ainda vemos em ação. A mente não consegue captar o pleno significado do termo de um milhão de anos, e não consegue somar e perceber os efeitos completos de muitas variações ligeiras, acumuladas ao longo de um número quase infinito de gerações.
Embora eu esteja plenamente convencido da verdade das ideias apresentadas neste volume sob a forma de um resumo, de modo algum espero convencer naturalistas experientes, cujas mentes estão abastecidas de uma multidão de fatos, todos observados, ao longo de muitos anos, de um ponto de vista diretamente oposto ao meu. É tão fácil esconder nossa ignorância sob expressões como o 'plano da criação', a 'unidade do projeto' e outras, e julgar que damos uma explicação quando apenas reafirmamos um fato. Qualquer um cuja disposição o leve a dar mais peso a dificuldades não explicadas do que à explicação de certo número de fatos certamente rejeitará a teoria. Alguns poucos naturalistas, dotados de muita flexibilidade de espírito, e que começaram a duvidar da imutabilidade das espécies, podem ser influenciados por este volume. Mas olho com confiança para o futuro, para os naturalistas jovens e em ascensão, que serão capazes de ver os dois lados da questão com imparcialidade. Quem for levado a acreditar que as espécies são mutáveis prestará bom serviço expressando com consciência sua convicção, pois assim se poderá remover a carga de preconceito que sufoca este assunto.
Vários naturalistas eminentes publicaram ultimamente sua crença de que uma multidão de supostas espécies em cada gênero não são espécies reais, mas que outras espécies são reais, isto é, foram criadas de modo independente. Isso me parece uma conclusão estranha de se chegar. Eles admitem que uma multidão de formas, que até pouco tempo eles mesmos julgavam ser criações especiais, e que ainda são assim vistas pela maioria dos naturalistas, e que por consequência têm todos os traços externos característicos de verdadeiras espécies, eles admitem que essas foram produzidas por variação, mas se recusam a estender a mesma visão a outras formas ligeiramente diferentes. Mesmo assim, não pretendem ser capazes de definir, ou mesmo conjecturar, quais são as formas de vida criadas e quais foram produzidas por leis secundárias. Admitem a variação como uma vera causa num caso e a rejeitam arbitrariamente em outro, sem apontar nenhuma distinção entre os dois casos. Virá o dia em que isso será apresentado como uma curiosa ilustração da cegueira da opinião preconcebida. Esses autores não parecem mais espantados com um ato milagroso de criação do que com um nascimento comum. Mas será que eles realmente acreditam que, em inúmeros momentos da história da Terra, certos átomos elementares receberam a ordem de subitamente irromper em tecidos vivos? Acreditam que, a cada suposto ato de criação, foram produzidos um indivíduo ou muitos? Foram todos os infinitos tipos de animais e plantas criados como ovos ou sementes, ou plenamente crescidos? E, no caso dos mamíferos, foram eles criados portando as falsas marcas de nutrição no ventre materno? Sem dúvida algumas dessas mesmas perguntas não podem ser respondidas por quem acredita no surgimento ou na criação de apenas algumas poucas formas de vida, ou de uma única forma. Vários autores sustentaram que é tão fácil acreditar na criação de um milhão de seres quanto na de um só. Mas o axioma filosófico da 'mínima ação', de Maupertuis, leva a mente a admitir mais de bom grado o número menor. E certamente não devemos acreditar que inúmeros seres dentro de cada grande classe foram criados com marcas nítidas, mas enganosas, de descendência de um único progenitor.
Como registro de um estado de coisas anterior, mantive nos parágrafos acima, e em outros lugares, várias frases que dão a entender que os naturalistas acreditam na criação separada de cada espécie. Fui muito censurado por me expressar assim. Mas, sem dúvida, essa era a crença geral quando a primeira edição desta obra apareceu. Antes eu conversava sobre evolução com muitos naturalistas, e nem uma única vez encontrei concordância solidária. É provável que alguns de fato acreditassem na evolução, mas ou se calavam, ou se expressavam de modo tão ambíguo que não era fácil entender o que queriam dizer. Agora as coisas mudaram por completo, e quase todo naturalista admite o grande princípio da evolução. Há, no entanto, alguns que ainda pensam que as espécies deram origem subitamente, por meios totalmente inexplicados, a formas novas e completamente diferentes. Mas, como tentei mostrar, evidências de peso que se opõem à admissão de modificações grandes e abruptas. Sob um ponto de vista científico, e como caminho para investigações posteriores, ganha-se pouca vantagem em acreditar que novas formas se desenvolvem de repente, de modo inexplicável, a partir de formas antigas e muito diferentes, quando comparada com a velha crença na criação das espécies a partir do da terra.
Pode-se perguntar até onde estendo a doutrina da modificação das espécies. A pergunta é difícil de responder, porque, quanto mais distintas são as formas que consideramos, tanto mais escassos em número e fracos em força ficam os argumentos a favor da comunidade de descendência. Mas alguns argumentos do maior peso se estendem muito longe. Todos os membros de classes inteiras estão ligados entre si por uma cadeia de afinidades, e todos podem ser classificados segundo o mesmo princípio, em grupos subordinados a grupos. Restos fósseis às vezes tendem a preencher intervalos muito amplos entre as ordens existentes.
Órgãos em condição rudimentar mostram com clareza que um progenitor antigo tinha o órgão em condição plenamente desenvolvida, e isso, em alguns casos, implica um enorme montante de modificação nos descendentes. Ao longo de classes inteiras, estruturas diversas se formam segundo o mesmo padrão, e em idade muito precoce os embriões se assemelham estreitamente entre si. Por isso não posso duvidar de que a teoria da descendência com modificação abranja todos os membros de uma mesma grande classe ou reino. Creio que os animais descendem de no máximo quatro ou cinco progenitores, e as plantas, de um número igual ou menor.
A analogia me levaria um passo além, a saber, à crença de que todos os animais e plantas descendem de algum único protótipo. Mas a analogia pode ser um guia enganoso. Mesmo assim, todos os seres vivos têm muito em comum, em sua composição química, sua estrutura celular, suas leis de crescimento e sua vulnerabilidade a influências nocivas. Vemos isso até num fato tão insignificante quanto o de que o mesmo veneno muitas vezes afeta plantas e animais de modo semelhante, ou o de que o veneno secretado pela mosca-das-galhas produz crescimentos monstruosos na roseira silvestre ou no carvalho. Em todos os seres orgânicos, com exceção talvez de alguns dos mais baixos, a reprodução sexuada parece ser essencialmente igual. Em todos, até onde se sabe atualmente, a vesícula germinativa é a mesma, de modo que todos os organismos partem de uma origem comum. Se olharmos mesmo para as duas grandes divisões, a saber, os reinos animal e vegetal, certas formas baixas são tão intermediárias em caráter que os naturalistas disputaram a qual reino deveriam ser atribuídas. Como observou o professor Asa Gray, 'os esporos e outros corpos reprodutivos de muitas das algas inferiores podem reivindicar ter primeiro uma existência caracteristicamente animal e depois uma existência inequivocamente vegetal'. Portanto, pelo princípio da seleção natural com divergência de caráter, não parece inacreditável que, a partir de alguma forma baixa e intermediária desse tipo, tanto animais quanto plantas tenham se desenvolvido. E, se admitimos isso, devemos igualmente admitir que todos os seres orgânicos que viveram nesta Terra podem descender de alguma forma primordial única. Mas essa inferência se baseia principalmente na analogia, e é indiferente que seja ou não aceita. Sem dúvida é possível, como insistiu o sr. G. H. Lewes, que, no primeiro início da vida, muitas formas diferentes tenham evoluído. Mas, se foi assim, podemos concluir que apenas pouquíssimas deixaram descendentes modificados. Pois, como observei recentemente a respeito dos membros de cada grande reino, como os Vertebrata, os Articulata e outros, temos evidência clara, em suas estruturas embriológicas, homólogas e rudimentares, de que dentro de cada reino todos os membros descendem de um único progenitor.
Quando as ideias apresentadas por mim neste volume, e pelo sr. Wallace, ou quando ideias análogas sobre a origem das espécies forem geralmente admitidas, podemos prever vagamente que haverá uma considerável revolução na história natural. Os sistematas poderão prosseguir em seus trabalhos como no presente, mas não serão incessantemente atormentados pela sombria dúvida sobre se esta ou aquela forma é uma verdadeira espécie. Disso tenho certeza, e falo por experiência, será um alívio nada pequeno. Cessarão as intermináveis disputas sobre se cerca de cinquenta espécies de amoras-silvestres britânicas são ou não boas espécies. Os sistematas terão apenas que decidir (não que isso seja fácil) se alguma forma é suficientemente constante e distinta das demais para ser passível de definição, e, se for definível, se as diferenças são suficientemente importantes para merecer um nome específico. Este último ponto se tornará uma consideração bem mais essencial do que é no presente, pois diferenças, por menores que sejam, entre quaisquer duas formas, se não forem fundidas por gradações intermediárias, são vistas pela maioria dos naturalistas como suficientes para elevar ambas as formas à categoria de espécie.