Capítulos

1 Macabeus
Autoria e Data de Composição
O livro não identifica seu autor. Foi composto em hebraico por um judeu da Palestina, mas esse original não sobreviveu: o texto chegou ao Ocidente apenas em tradução grega (Septuaginta), a partir da qual se fizeram as versões latinas. Jerônimo, ao trabalhar na Vulgata, afirma ter tido em mãos um exemplar hebraico, que chama de Machabaeorum primo.
A datação é relativamente segura. O livro narra os eventos até a morte de Simão (134 a.C.) e a ascensão de João Hircano, e o fecho remete aos anais do sumo sacerdócio de Hircano, o que situa a composição entre aproximadamente 134 e 63 a.C. A maioria dos estudiosos prefere uma data em torno de 100 a.C., depois da morte de Hircano (104 a.C.). O autor escreve de dentro da corte vitoriosa, com tom favorável aos Asmoneus, o que faz da obra a história oficial da dinastia mais do que uma crônica neutra.
Apesar dessa parcialidade, 1 Macabeus é tido como o relato historicamente mais confiável da revolta macabaica. O autor imita a prosa dos livros históricos do Antigo Testamento, datando eventos pela era selêucida, citando cartas, tratados e decretos, e suprimindo quase por completo o sobrenatural: as vitórias vêm de tática, número e coragem, não de prodígios. Esse caráter sóbrio não é sinal de menor religiosidade. O próprio livro afirma que naquele tempo já não havia profeta em Israel (ver as referências abaixo), assumindo um silêncio revelacional. Tendência ideológica não equivale a invenção: o livro registra também derrotas judaicas, como a morte de Judas em Elasa, que um propagandista puro teria silenciado, e sua cronologia e geografia batem com fontes independentes.
Hanucá e a reconsagração do Templo
O livro descreve a profanação do Templo por Antíoco IV, com a instalação da abominação da desolação sobre o altar dos holocaustos em 167 a.C. (ver a referência), e depois a purificação, o novo altar e a instituição de oito dias de festa anual (ver a referência). É a narrativa de fundação de Hanucá. Notável é o que o texto silencia: a célebre lenda do azeite que durou oito dias está ausente daqui e só aparece séculos depois, no Talmude Babilônico (Shabbat 21b). O relato paralelo de 2 Macabeus explica os oito dias por analogia com a festa de Sukkot, não por milagre. A camada milagrosa é, portanto, acréscimo tardio sobre um núcleo originalmente militar e cultual. O judaísmo rabínico, herdeiro dos fariseus e crítico dos Asmoneus, preservou a festa mas reescreveu sua etiologia em torno do óleo, deslocando o protagonismo do feito dos Macabeus para a intervenção divina.
A expressão abominação da desolação liga 1 Macabeus diretamente ao livro de Daniel (ver as referências), que descreve a mesma profanação do mesmo Templo pelo mesmo rei. Daniel 11 é minuciosamente exato dos persas até a profanação de 167 a.C. e então diverge dos fatos verificáveis, anunciando uma morte de Antíoco na Terra Santa que não corresponde à sua morte real no Oriente, em 164 a.C. O consenso crítico lê isso como vaticinium ex eventu, profecia composta durante ou logo após os fatos que descreve, e data as visões de Daniel por volta de 167 a 164 a.C. Quem rejeita de antemão a possibilidade de predição sobrenatural toma essa datação como conclusiva; quem a admite responde que a evidência interna (língua, detalhe histórico) restringe a data de redação sem decidir sozinha a questão da inspiração preditiva, que é filosófica antes de ser textual. Em qualquer leitura, 1 Macabeus funciona como o calendário histórico desinteressado contra o qual a visão de Daniel pode ser aferida.
A dinastia asmoneia e a legitimação
Boa parte das escolhas narrativas serve a um propósito presente: justificar por que uma família sacerdotal de Modin, sem linhagem sadoquita, passou a acumular o sumo sacerdócio e o poder hereditário. O sumo sacerdócio pertencia, pela tradição, à casa de Sadoque, e os Asmoneus não descendiam dela. O livro lida com isso por omissão, ignorando os sumos sacerdotes oníadas que o precederam, e constrói uma legitimidade alternativa por aclamação popular: o decreto que declara Simão líder e sumo sacerdote para sempre traz a ressalva significativa (ver a referência), válido até que surja um profeta fiel, admissão embutida de que o arranjo era provisório. É desse vácuo que nasce a oposição mais célebre: a comunidade de Qumran, cujo Mestre da Justiça parece ter rompido com o Templo justamente sobre a usurpação asmoneia. Há um judaísmo inteiro que leu os Asmoneus como ilegítimos, e os Manuscritos do Mar Morto atestam, de fora, que a ascensão da dinastia foi um evento contestado.
As alianças externas reforçam o programa legitimador. A aliança com Roma (ver a referência) apresenta a dinastia como parceira reconhecida das grandes potências, e seu retrato elogioso de uma República justa diz tanto sobre a conveniência do autor quanto sobre a Roma real, que em 63 a.C. faria de Jerusalém um estado cliente. A correspondência com Esparta (ver a referência), que atribui a judeus e espartanos parentesco comum descendente de Abraão, é o elo mais frágil: a maioria dos especialistas a trata como reconstrução ou fabricação diplomática. Convém a nuance: alegar parentesco mítico entre povos era um recurso corrente da diplomacia helenística, de modo que o gesto é convenção de gênero, não fraude grosseira. A direção da evidência, ainda assim, é clara: trata-se de um texto que seleciona, silencia e provavelmente compõe documentos para sustentar uma dinastia. Isso não o diminui como fonte histórica de primeira ordem, apenas o situa como literatura humana, datável e interessada.
Status Deuterocanônico
1 Macabeus integra o cânon católico e de várias igrejas ortodoxas, mas está ausente do cânon hebraico (Tanakh) e do cânon protestante, e não é citado no Novo Testamento. Sua trajetória até o cânon ocidental se deu pela Septuaginta, adotada pelos cristãos desde os primeiros séculos. O fato de o original hebraico ter se perdido e o livro sobreviver apenas em grego contribuiu para sua exclusão do cânon rabínico, fixado com base nos textos em hebraico ou aramaico então disponíveis. O Concílio de Trento (1546, decreto De Canonicis Scripturis) confirmou 1 Macabeus no cânon católico, em resposta à Reforma, que rejeitara os deuterocanônicos.
O caso é instrutivo porque a exclusão não decorre de erro histórico no conteúdo, e sim de critérios formais: o pressuposto de que a inspiração estava ligada à era profética, que o próprio livro declara encerrada, somado à ausência de um texto hebraico recebido pela tradição rabínica. A questão entre as tradições não é se Judas Macabeu existiu ou se o Templo foi profanado, fatos sólidos, mas se um texto que se coloca num período de silêncio profético carrega a mesma autoridade normativa dos livros que reivindicam um profeta por trás. A divergência é, portanto, teológica e de critério de cânon, não uma falha do livro como história. Há aqui uma ironia: o livro excluído de mais cânones é, justamente, um dos mais confiáveis como fonte, e a comunidade que celebra Hanucá é a mesma que não o lê como Escritura.
Conteúdo do Livro
Contexto helenístico e perseguição de Antíoco IV (caps. 1-2)
- Alexandre Magno e a divisão de seu império entre os generais; ascensão do poder selêucida sobre Israel — (1 Macabeus 1:1)
- Antíoco IV Epifânio saqueia o Templo de Jerusalém e leva os tesouros sagrados — (1 Macabeus 1:20)
- Decreto de Antíoco: proibição da Lei judaica, do sábado, da circuncisão; imposição do culto a Zeus no Templo ("abominação desoladora") — (1 Macabeus 1:41)
- O sacerdote Matatias recusa sacrificar aos deuses gregos em Modin e mata o enviado do rei; início da revolta — (1 Macabeus 2:1)
- Matatias convoca: "Todo o zeloso da Lei e fiel à Aliança, que me siga!"; guerrilha nos campos — (1 Macabeus 2:27)
- Morte de Matatias; ele designa Judas como líder militar e Simão como conselheiro — (1 Macabeus 2:65)
Judas Macabeu (caps. 3-9)
- Judas Macabeu assume o comando; vitórias sobre os generais selêucidas Apolônio e Serão — (1 Macabeus 3:1)
- Grande expedição de Lisias; Judas derrota o exército selêucida em Emaús — (1 Macabeus 3:38)
- Purificação e rededicação do Templo (164 a.C.): origem da festa de Hanucá — (1 Macabeus 4:36)
- Judas e Simão socorrem comunidades judaicas perseguidas além das fronteiras de Judá — (1 Macabeus 5:1)
- Morte de Antíoco IV; o novo rei Antíoco V assedia Jerusalém, mas recua por pressões internas — (1 Macabeus 6:1)
- Demétrio I toma o trono selêucida; envia Nicanor, que é derrotado e morto por Judas (Dia de Nicanor) — (1 Macabeus 7:1)
- Judas faz aliança com Roma, reconhecendo a crescente força romana no Mediterrâneo — (1 Macabeus 8:1)
- Judas é morto em batalha em Elasa (160 a.C.); Israel fica sem líder e sob forte repressão — (1 Macabeus 9:1)
Jônatas (caps. 9-12)
- Jônatas, irmão de Judas, assume a liderança da resistência — (1 Macabeus 9:28)
- Jônatas se torna Sumo Sacerdote, nomeado por Alexandre Bala, pretendente selêucida ao trono — (1 Macabeus 10:1)
- Jônatas é capturado por Trifão mediante traição e posteriormente assassinado — (1 Macabeus 12:39)
Simão e fundação da dinastia Asmoneia (caps. 13-16)
- Simão assume o comando; negocia a independência de Israel do domínio selêucida — (1 Macabeus 13:1)
- 170 a.E.S. (143 a.C.): Israel obtém autonomia formal; Simão é aclamado líder, Sumo Sacerdote e general — (1 Macabeus 13:41)
- Período de paz sob Simão: cada um sentado sob sua videira e figueira, sem perturbação — (1 Macabeus 14:4)
- Simão é assassinado pelo genro Ptolomeu em um banquete; seu filho João Hircano assume o governo — (1 Macabeus 16:11)
Evidências Históricas e Arqueológicas
1 Macabeus é amplamente corroborado por fontes externas. O historiador judeu Flávio Josefo (séc. I d.C.) usa o livro extensamente em suas Antiguidades Judaicas, e sua cronologia converge com Políbio e com os fragmentos sobre os selêucidas. Inscrições selêucidas, moedas asmoneia e o registro arqueológico de Jerusalém e arredores são consistentes com o quadro descrito. A profanação do Templo por Antíoco IV em 167 a.C. e a instituição de Hanucá por Judas Macabeu (ver a referência) são fatos amplamente aceitos na historiografia. Vale a comparação com 2 Macabeus (ver a referência), que narra a morte de Antíoco de modo incompatível com 1 Macabeus, antes da reconsagração e por uma doença atroz, ao passo que aqui o rei morre de desgosto na Pérsia depois dela. Os dois textos não podem estar ambos corretos quanto à cronologia e à causa, o que ilustra que se trata de dois autores antigos com fontes e agendas distintas, não de uma única crônica caída pronta.