Capítulos

Josué

Autoria e Data de Composição

A tradição rabínica atribui o livro ao próprio Josué, com a parte final que registra sua morte creditada ao sacerdote Eleazarou ao filho deste, Finéias. O texto afirma que Josué escreveu ao menos parte do material (js24:26), mas a própria narrativa fala da morte e do sepultamento de Josué (js24:29) e usa a fórmula "até o dia de hoje" (por exemplo, js4:9 e js15:63) para situações que pressupõem um narrador bem posterior aos eventos. Essas marcas internas tornam insustentável a autoria única por Josué.

Desde a tese de Martin Noth (1943), o estudo histórico-crítico lê Josué como a peça de abertura da História Deuteronomista (DtrH), o arco contínuo que vai de Deuteronômio a 2 Reis e interpreta toda a trajetória de Israel por uma mesma chave: fidelidade à Torá deuteronômica gera posse da terra, infidelidade gera o exílio. Frank Moore Cross refinou o modelo propondo duas edições: uma primeira redação no reinado de Josias (640 a 609 a.C.), que celebra a centralização do culto e projeta um Israel unido conquistando a terra de uma só vez, e uma segunda mão no exílio babilônico (após 586 a.C.), que reescreve o desfecho para explicar a catástrofe. Thomas Römer descreve, em vez de duas edições fixas, uma escola de escribas que revisou o material em camadas josiânica, exílica e persa. Em qualquer dessas reconstruções, a forma que lemos foi composta séculos depois dos eventos que narra, com agenda teológica do período monárquico tardio. A leitura conservadora continua a defender um núcleo de tradição antiga por trás do texto; o ponto disputado é quanto desse núcleo sobrevive e em que mão final ele foi unificado.

Manuscritos

Data: Fragmentos de Qumran datados de cerca de 150 a.C. a 70 d.C.

Fragmentos do livro de Josué foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto, em Qumran. O texto hebraico de Qumran apresenta variações em relação ao Texto Massorético, e a Septuaginta (LXX) grega é em alguns pontos mais curta e difere na ordem de seções, indicando que mais de uma tradição textual do livro circulou na Antiguidade. Esses dados pertencem à crítica textual e não decidem, por si, as questões históricas tratadas abaixo.

Eventos do Livro

Preparação e Travessia do Jordão

A travessia do rio Jordão com a Arca da Aliança
  • Deus comissiona Josué como sucessor de Moisés(Js 1:1)
  • Os dois espias enviados a Jericó e a aliança com Raabe(Js 2:1)
  • Travessia milagrosa do rio Jordão (as águas se detêm)(Js 3:14)
  • Doze pedras memorial erguidas em Gilgal(Js 4:1)
  • Encontro de Josué com o comandante do exército do Senhor(Js 5:13)

Conquista de Canaã

O sol e a lua param na batalha de Gibeão
  • Queda das muralhas de Jericó (sete dias de procissão)(Js 6:1)
  • Pecado de Acã e derrota em Ai(Js 7:1)
  • Conquista de Ai por emboscada(Js 8:1)
  • Aliança enganosa com os gibeonitas(Js 9:1)
  • Batalha de Gibeão: o sol e a lua param (vitória sobre os reis do sul)(Js 10:12)
  • Campanha contra os reis do norte e destruição de Hazor(Js 11:1)

Divisão da Terra entre as Tribos

O sorteio da Terra Prometida diante do Tabernáculo em Siló
  • Início da distribuição das terras ainda por conquistar(Js 13:1)
  • Calebe recebe Hebrom como herança(Js 14:6)
  • Tabernáculo instalado em Siló; sorteio para as tribos restantes(Js 18:1)
  • Estabelecimento das cidades de refúgio(Js 20:1)
  • Cidades designadas à tribo de Levi(Js 21:1)

Renovação da Aliança e Morte de Josué

A renovação da aliança em Siquém
  • Último discurso de Josué: exortação à fidelidade(Js 23:1)
  • Renovação da aliança em Siquém ("Quanto a mim e à minha casa, serviremos ao Senhor")(Js 24:1)
  • Morte e sepultamento de Josué(Js 24:29)

A historicidade da conquista

Os dois primeiros alvos da campanha são justamente os mais problemáticos para a arqueologia. Em Jericó (Tell es-Sultan), as escavações de Kathleen Kenyon nos anos 1950, com estratigrafia mais controlada que a de John Garstang na década anterior, concluíram que no Bronze Recente (o único período em que a invasão caberia por qualquer datação proposta) não havia cidade fortificada: o sítio era no máximo um povoado ínfimo, em boa parte desabitado, no século 13 a.C. Não há as muralhas que caem em Josué 6. Em Ai (et-Tell), o quadro é ainda mais agudo: o sítio foi destruído por volta de 2400 a.C. e ficou abandonado por mais de um milênio, sem cidade cananeia no período da conquista. O próprio nome "Ai" significa, em hebraico, "a ruína", o que sugere uma etiologia, isto é, uma história contada para explicar um monte de escombros já antigo aos olhos de quem narrava.

A defesa evidencial tem respostas dentro do próprio campo, sem apelar à fé como atalho. A primeira é literária: Josué não descreve ocupação total. O texto registra apenas três cidades incendiadas (Jericó, Ai e Hazor), mantém Israel acampado em Gilgal, e Juízes 1 abre admitindo cananeus por toda parte. Kenneth Kitchen, em On the Reliability of the Old Testament, lê a retórica de varredura total de Josué 10 a 11 como uma convenção militar conhecida no Antigo Oriente Próximo: faraós e reis assírios proclamavam aniquilação completa de inimigos que reaparecem intactos no relatório seguinte. Por essa leitura, tomar esses versículos como inventário arqueológico moderno é anacronismo de gênero. A segunda resposta é cronológica: Garstang datava a destruição de Jericó por volta de 1400 a.C., e Bryant Wood reabriu a disputa apontando cerâmica que diria estar ausente em Kenyon. Convém registrar que Wood é minoria e que sua releitura recebeu críticas técnicas pesadas; ela mostra que a datação de um tell escavado em décadas diferentes carrega margem, mas não constitui consenso.

O problema é maior que dois sítios. Os levantamentos de superfície mostram que o povoamento das colinas centrais saltou de algumas dezenas de aldeias no Bronze Recente para mais de trezentas no Ferro I, num crescimento gradual e culturalmente contínuo com o mundo cananeu (mesma cerâmica, mesma arquitetura de casa de quatro cômodos, com a ausência de ossos de porco como marcador mais citado). Esse padrão sugere que Israel emergiu de dentro de Canaã em vez de conquistá-lo de fora. É dessa lacuna que nascem os três modelos de origem de Israel, e nenhum reproduz o relato de Josué: o modelo da conquista de William Albright, que tentou casar destruições do Bronze Recente com a invasão e foi erodido pelos dados de Jericó e Ai; o modelo da infiltração pacífica de Albrecht Alt e Martin Noth, com pastores seminômades assentando-se aos poucos; e o modelo da revolta camponesa de George Mendenhall e Norman Gottwald, que vê Israel como um levante de cananeus contra as cidades-estado. Ausência de evidência de uma campanha unificada não prova que nada ocorreu, e um pequeno grupo associado ao Êxodo pode ter se somado ao processo; mas o ônus da prova recai sobre quem sustenta a conquista como o livro a descreve.

O herem e a ética do extermínio

Josué traz, na boca de Deus, o mandato do herem, o "voto de destruição": cidades cananeias entregues à aniquilação, "tudo o que respira" (js10:40). Isso é eticamente perturbador para um leitor moderno, e não há razão para suavizá-lo. A comparação regional, porém, desfaz a ideia de que se trate de uma lógica unicamente israelita. A Estela de Mesa, monumento moabita do século 9 a.C., usa o mesmo vocabulário e a mesma teologia: o rei Mesa relata ter "consagrado à destruição" (a mesma raiz semítica do herem) toda a população de Nebo em honra ao deus Quemos, porque o deus lhe ordenara a guerra. O massacre sagrado de uma população inteira em obediência a uma divindade nacional era um topos compartilhado da retórica de conquista da região, não uma singularidade.

K. Lawson Younger, comparando Josué com anais militares assírios, egípcios e hititas, argumenta que a linguagem de aniquilação total ("não deixei sobrevivente") era fórmula retórica padrão de relato de vitória, não contabilidade literal de cadáveres. Merneptah gabava-se de que "Israel está destruído, sua semente não existe mais" enquanto Israel seguia existindo. Essa leitura de gênero alivia a tensão histórica entre o Josué que parece descrever extermínio total e o Juízes que mostra cananeus vivos por toda parte, e o texto registra exceções de fundo (Raabe, a cananeia poupada e integrada, e os gibeonitas), o que indica que a ascendência não era o critério. Resta, no entanto, o problema moral: mesmo reduzido em extensão, permanece a ordem divina de violência contra populações. O paralelo com Quemos e a convenção literária explicam a forma do texto e o atrito com Juízes, mas não entregam uma teodiceia pronta para o mandato em si. As duas questões, a histórica e a ética, devem ser mantidas distintas.

As listas geográficas e a datação

Os capítulos 13 a 21 mudam de registro: saem da narrativa de conquista e passam a um material que, na forma, parece um cadastro, com listas de fronteiras e de cidades organizadas por distritos. Desde Albrecht Alt (1925), e depois com Noth, Aharoni e Na'aman, a leitura crítica dominante entende que esses capítulos refletem um documento administrativo da monarquia de Judá, séculos posterior à era da ocupação. O indício mais forte está na lista de cidades de Judá e Benjamim (js15:21 e js18:21), que organiza o reino em distritos coerentes (a Sefelá, o Neguebe, o deserto, a montanha), o tipo de divisão provincial que faz sentido para um Estado já consolidado, com fisco e governadores, e não para um confederado de tribos recém-chegadas. A datação exata segue disputada (do século 9 ao período persa).

A defesa observa que origem administrativa não equivale a invenção tardia. Listas topográficas e cadastrais são um gênero antiquíssimo no Antigo Oriente Próximo, presente já no terceiro milênio, e documentos de cartório costumam preservar nomes e fronteiras muito anteriores à cópia que os transmite. Além disso, o próprio texto admite repetidamente que a conquista foi incompleta (js13:1; js15:63; js16:10; js17:12), com cidades como Jebus fora do controle israelita "até o dia de hoje", uma confissão estranha para um documento que estivesse idealizando as posses de uma monarquia consolidada. O que fica em aberto é a estratigrafia editorial: quanto do material é fronteira antiga e quanto é distrito monárquico atualizado. A crítica acerta ao detectar camadas; o que ela não demonstra é que a existência de uma camada administrativa esvazie a antiguidade da divisão tribal que essa camada registra.

Hazor e os paralelos com o cânon

Hazor (Tell el-Qedah), no norte, mostra uma destruição violenta por fogo no Bronze Recente que cabe na moldura cronológica de Josué 11, embora a identidade dos destruidores siga disputada (israelitas, Povos do Mar ou conflito interno entre cidades cananeias são todas hipóteses correntes). No restante do cânon, a divisão das tribos serve de base geográfica para Juízes, Samuel e Reis, e a tensão entre a conquista "completa" de Josué e os cananeus remanescentes de Juízes 1 é o atrito interno mais discutido do livro. O discurso de renovação da aliança em Siquém (js24) reproduz a estrutura dos tratados de suserania do Antigo Oriente Próximo, traço que estudiosos conservadores leem como indício de antiguidade do material e que críticos atribuem ao molde deuteronomista; o paralelo formal é reconhecido por ambos, a inferência sobre a data, não.