Capítulos

1 Samuel

Autoria e Data de Composição

O livro não indica seu autor. A atribuição ao próprio Samuel é descartada pelo fato de que o texto narra eventos posteriores à morte do profeta (1sm25:1). A tradição talmúdica (Bava Batra 14b) sugere que Samuel, Natã e Gade teriam contribuído com material, mas a composição final é anônima.

A maioria dos pesquisadores insere 1 Samuel na Obra Histórica Deuteronomista, a grande narrativa que vai de Deuteronômio a 2 Reis. Originalmente 1 e 2 Samuel formavam um único livro; a divisão em dois volumes veio da Septuaginta grega e foi adotada depois pela Vulgata. A forma final costuma ser datada entre o reinado de Josias (final do século 7 a.C.) e o exílio babilônico (século 6 a.C.), reunindo fontes escritas e tradições orais mais antigas. Uma data específica não pode ser determinada com certeza.

Duas avaliações da monarquia

1 Samuel não fala com uma só voz sobre a realeza. Em um bloco de textos o pedido por um rei é tratado como rejeição de Deus: em 1sm8:7 o Senhor diz a Samuel que o povo "não rejeitou a ti, mas a mim", e o discurso de 1sm12:17 arrola a monarquia como pecado somado à idolatria. Em outro bloco, os capítulos 1sm9:1 a 1sm11:11, o tom se inverte: Saul é ungido por iniciativa divina, o Espírito desce sobre ele, ele liberta Jabés-Gileade e a coroação em Gilgal é celebração, não concessão a contragosto.

A crítica histórico-literária, de Wellhausen em diante, costuma ler essa oscilação não como ambivalência de um único autor, mas como a costura de pelo menos duas tradições: uma fonte antiga favorável à instituição e uma camada antimonárquica mais tardia, sobreposta por redatores que já tinham visto a monarquia fracassar. O argumento se apoia menos em cada passagem isolada e mais no padrão: os blocos se alternam de forma relativamente íntegra e, quando separados, produzem dois relatos coerentes da origem de Saul. Parte dos especialistas resiste aos rótulos "pró" e "antimonárquico", argumentando que a questão do texto não é monarquia sim ou não, e sim se o rei se submeterá a Deus e ao profeta.

Leitores que defendem unidade de composição respondem que a literatura do Antigo Oriente Próximo conhecia o recurso de manter avaliações divergentes lado a lado sem harmonizá-las, e que um único autor podia sustentar a tese de que a monarquia é ao mesmo tempo concessão e instrumento: pecado no motivo ("para sermos como todas as nações") e providência no resultado. O que fica genuinamente em aberto é a datação e o número de mãos por trás da forma final; a evidência interna não força uma resposta única. O que as duas leituras concordam em notar é a teologia da realeza limitada: o rei nunca é absoluto, está sempre sob a palavra profética que o unge e que o pode rejeitar, como Saul descobrirá.

Davi e Golias e o problema de Elhanã

O episódio mais famoso do livro guarda uma tensão interna preservada dentro do próprio cânone hebraico. Em 1sm17:45 o jovem Davi derruba o gigante filisteu Golias com uma funda. Mas em 2sm21:19, num apêndice que cataloga feitos contra os gigantes de Gate, o Texto Massorético diz que Elhanã, filho de Jaaré-Oregim, o belemita, matou Golias, o geteu, e descreve a lança dele com a mesma fórmula de 1sm17:7 (a haste como eixo de tear de tecelão). Não são dois inimigos parecidos: é o mesmo nome, a mesma origem e a mesma arma descrita com a mesma imagem.

A harmonização tradicional se apoia em 1cr20:5, onde o Cronista escreve que Elhanã matou Lami, irmão de Golias. A crítica textual, porém, sugere a direção oposta de dependência: o hebraico de Crônicas e o de Samuel são quase idênticos em consoantes, e a forma mais provável é que o Cronista, ou um copista anterior, tenha reorganizado as letras de "o belemita" para produzir "irmão de Lami", dissolvendo o problema. Vale notar que o próprio texto de Samuel também parece corrompido (Jaaré-Oregim, com "Oregim" repetindo a palavra "tecelões", tem aparência de erro de cópia). Há quem defenda que o Cronista preserva uma forma mais antiga e que Samuel exibe o deslize; a direção da dependência segue debatida. O que os dados manuscritos mostram com clareza é que a tradição sobre quem matou o gigante circulou de mais de uma forma e foi retrabalhada por escribas.

Manuscritos

Data: Fragmentos de Qumran datados de cerca de 200 a.C. a 70 d.C.

Fragmentos de 1 e 2 Samuel foram encontrados nas cavernas de Qumran (especialmente 4QSam). Alguns desses fragmentos divergem do Texto Massorético e se aproximam da versão da Septuaginta grega, sugerindo que circularam tradições textuais distintas. O pesquisador Kyle McCarter reconstruiu a história do texto usando esses fragmentos, mostrando que o texto de Samuel é um dos mais complexos do ponto de vista da crítica textual.

Eventos do Livro

Samuel: Nascimento, Chamado e Ministério

O chamado do menino Samuel em Siló
  • Ana ora pelo filho e faz voto de consagrá-lo ao Senhor(1Sm 1:10)
  • Nascimento de Samuel; Ana o entrega ao sacerdote Eli em Siló(1Sm 1:20)
  • Deus chama Samuel durante a noite; início do ministério profético(1Sm 3:1)
  • Israel derrotado pelos filisteus; a Arca da Aliança é capturada(1Sm 4:10)
  • A Arca entre os filisteus: pragas em Asdode, Gate e Ecrom(1Sm 5:1)
  • Os filisteus devolvem a Arca a Israel em uma carroça com vacas(1Sm 6:1)
  • Samuel convoca Israel ao arrependimento; vitória em Mizpá(1Sm 7:3)

O Primeiro Rei: Saul

Samuel unge Saul como rei
  • Israel pede um rei; Samuel adverte sobre os perigos da monarquia(1Sm 8:1)
  • Saul, da tribo de Benjamim, encontra Samuel enquanto busca jumentas(1Sm 9:1)
  • Samuel unge Saul em segredo como primeiro rei de Israel(1Sm 10:1)
  • Saul derrota os amonitas em Jabés-Gileade; consolidação do reinado(1Sm 11:11)
  • Saul oferece sacrifício sem autorização; Samuel anuncia rejeição divina(1Sm 13:8)
  • Jônatas ataca sozinho um posto filisteu; Saul faz voto irresponsável(1Sm 14:1)
  • Saul poupa o rei Agague e o melhor dos rebanhos; segunda rejeição divina(1Sm 15:1)
  • "Obedecer é melhor do que sacrificar": palavras de Samuel a Saul(1Sm 15:22)

Ascensão de Davi

Davi poupa a vida de Saul na caverna de En-Gedi
  • Samuel unge Davi, filho de Jessé, como rei em Belém(1Sm 16:1)
  • Davi entra na corte de Saul como músico para acalmar o rei(1Sm 16:14)
  • Davi enfrenta o gigante filisteu Golias com funda e pedras(1Sm 17:45)
  • Aliança de amizade entre Davi e Jônatas; Saul começa a invejar Davi(1Sm 18:1)
  • Saul ordena a morte de Davi; Davi foge com ajuda de Mical e Jônatas(1Sm 19:1)
  • Davi foge para Nobe e depois para Gate (entre os filisteus)(1Sm 21:1)
  • Davi poupa a vida de Saul na caverna de En-Gedi(1Sm 24:3)
  • Morte de Samuel; Davi, Nabal e Abigail(1Sm 25:1)
  • Davi poupa Saul novamente, no acampamento, enquanto dorme(1Sm 26:8)
  • Saul consulta a feiticeira de Endor; Samuel aparece e anuncia sua morte(1Sm 28:7)
  • Batalha do Monte Gilboa: morte de Saul e Jônatas(1Sm 31:1)

Historicidade de Saul e Davi

O período descrito, a transição do sistema dos juízes para a monarquia (aproximadamente entre 1100 e 1010 a.C.), coincide com a presença confirmada dos filisteus na costa de Canaã, documentada arqueologicamente. Nenhuma fonte extra-bíblica menciona Saul ou Samuel pelo nome. Para Davi a situação é diferente: a Estela de Tel Dan(inscrição aramaica de meados do século 9 a.C., atribuída provavelmente a Hazael de Damasco) traz a expressão "Casa de Davi". Alguns leem a mesma expressão na Estela de Mesa(Moabe), mas a leitura depende de reconstruir uma letra apagada e é contestada: Finkelstein, Naaman e Römer a rejeitam, e há quem leia ali o nome "Balaque". Convém medir o que isso prova: a Estela de Tel Dan atesta que, cerca de um século após a data tradicional de Davi, um reino vizinho identificava a dinastia de Judá por um fundador epônimo chamado Davi. Ela não menciona Golias, nem Saul, nem a unção por Samuel. O salto entre "houve um fundador chamado Davi" e "a narrativa de 1 Samuel é factual" continua sendo um salto.

Sobre o texto, muitos pesquisadores leem a chamada História da Ascensão de Davi (de 1sm16:1 a 2sm5:1) como apologia real, gênero conhecido no Antigo Oriente Próximo, com paralelo na Apologia do rei hitita Hatusili III. A narrativa se esforça repetidamente para inocentar Davi de cada morte conveniente à sua ascensão (a de Saul, a de Jônatas, mais tarde a de Abner e Isboseth): Davi está sempre por perto, sempre lucrando, sempre com um álibi e um lamento. Um texto que precisa tanto provar que seu herói não matou para subir pressupõe que essa suspeita circulava, o que, por sua vez, pressupõe um Davi histórico em torno do qual havia disputa política.

A escala da monarquia é o ponto mais disputado. A "cronologia baixa" de Israel Finkelstein redata em cerca de um século camadas tradicionalmente atribuídas a Salomão e reduz a Jerusalém do século 10 a uma aldeia de altiplano, situando o surgimento de um Estado israelita real só no século 9. Outros arqueólogos, como William Dever e Amihai Mazar, defendem uma cronologia mais alta e uma Jerusalém já fortificada no século 10; a disputa segue viva, inclusive entre datações de carbono-14 concorrentes. O que se extrai com relativa segurança é modesto: a existência de um fundador dinástico chamado Davi tem hoje apoio externo razoável, mas o grande império que a tradição lhe atribui não encontra correspondência clara no registro material conhecido. A arqueologia ancora um personagem real sem confirmar a magnitude do reino que a memória dinástica lhe atribuiu.