Capítulos

2 Reis

Autoria e Data de Composição

1 e 2 Reis formavam originalmente uma só obra, dividida em dois rolos na tradição grega. A tradição judaica atribui a redação ao profeta Jeremias, mas o texto é anônimo e essa atribuição não tem apoio interno nem aceitação na crítica acadêmica. A leitura majoritária insere a obra na História Deuteronomista (Deuteronômio, Josué, Juízes, Samuel e Reis), um conjunto editado por redatores anônimos que lê toda a monarquia pela grade teológica do Deuteronômio: fidelidade a um único santuário em Jerusalém gera bênção, idolatria gera juízo.

O modelo mais aceito hoje, proposto por Frank Moore Cross sobre a hipótese de Martin Noth, identifica duas mãos. Uma edição pré-exílica, do tempo de Josias (fim do século VII a.C.), culmina nele como o novo Davi, o rei que cumpre a promessa dinástica. Uma redação posterior, já no exílio, acrescenta o desfecho sombrio e relê a história como advertência sobre a aliança quebrada. A costura é visível no próprio texto: Josias é declarado incomparável, sem rei igual antes ou depois (2Rs 23:25), e poucos versículos adiante a ira de Deus é dita irrevogável por causa de Manassés (2Rs 23:26), uma justificativa retroativa para explicar por que a reforma do rei perfeito não bastou para evitar o castigo. A redação final data do século VI a.C., durante o exílio babilônico. O trecho de encerramento (2Rs 25:27-30) menciona a libertação de Joaquim por volta de 561 a.C., o que fixa um limite inferior para a forma atual do texto.

Manuscritos

O texto hebraico é transmitido principalmente pelo Texto Massorético. A Septuaginta apresenta variantes e, em trechos sobre cronologia dos reis, uma organização ligeiramente distinta. Fragmentos de Reis foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto (Qumran), datados entre os séculos II a.C. e I d.C., e confirmam a estabilidade geral do texto hebraico ao longo da transmissão.

Eventos do Livro

Ministério de Eliseu

A cura de Naamã no rio Jordão
  • Elias é arrebatado ao céu num carro de fogo; Eliseu recebe seu manto(2Rs 2:11)
  • Eliseu multiplica o azeite da viúva e ressuscita o filho da sunamita(2Rs 4:1)
  • Cura de Naamã, o general sírio, da lepra(2Rs 5:1)
  • Eliseu e o exército angelical (cavalos e carros de fogo)(2Rs 6:15)
  • Morte de Eliseu; milagre no sepulcro do profeta(2Rs 13:14)

Queda do Reino do Norte

A queda de Samaria e o exílio de Israel pela Assíria
  • Jeú é ungido rei e extermina a casa de Acabe e Jezabel(2Rs 9:1)
  • Assíria conquista Samaria e deporta Israel (c. 721 a.C.)(2Rs 17:5)
  • Repovoamento da Samaria com povos estrangeiros(2Rs 17:24)

Reino de Judá: Reforma e Declínio

A destruição do Templo e a queda de Jerusalém
  • Ezequias purifica o culto e resiste à invasão assíria de Senaqueribe(2Rs 18:1)
  • O texto atribui a um anjo do Senhor a destruição do exército assírio; Senaqueribe recua(2Rs 19:35)
  • Descoberta do Livro da Lei durante a reforma de Josias(2Rs 22:8)
  • Grande reforma religiosa de Josias: destruição dos lugares altos e ídolos(2Rs 23:1)
  • Nabucodonosor saqueia Jerusalém; primeira deportação para a Babilônia(2Rs 24:10)
  • Destruição do Templo e queda de Jerusalém (586 a.C.); exílio babilônico(2Rs 25:8)
  • Joaquim (Jeconias) é libertado da prisão babilônica(2Rs 25:27)

A queda de Samaria e os registros assírios

A queda de Samaria (722-720 a.C.) é um dos raros pontos em que o relato bíblico pode ser confrontado, quase linha a linha, com a documentação do próprio império conquistador. 2Rs 17 atribui o cerco de três anos a Salmaneser V, mas nunca nomeia quem de fato tomou a cidade, dizendo apenas que "o rei da Assíria tomou Samaria". O sucessor de Salmaneser, Sargão II, reivindica a conquista em seus anais e no Prisma de Nimrud, gabando-se de ter deportado 27.290 habitantes. Os anais reais assírios, porém, são literatura de propaganda: monarcas rotineiramente reivindicavam campanhas iniciadas por antecessores, e Sargão tinha motivo político para reescrever Samaria como triunfo seu, sobretudo se foi ele quem derrubou Salmaneser. A reconstrução acadêmica não fecha a questão (propõe-se desde uma única tomada até dois ou mais assaltos), mas o núcleo factual é seguro e corroborado externamente: houve cerco, queda e deportação em massa, e a política assíria de transplante populacional, repovoar Samaria com "gente das nações" (2Rs 17:24), é exatamente o que Sargão descreve ter feito.

O que o autor bíblico faz com esse material é outra coisa. Os versículos 7 a 23 abandonam a crônica e passam a um longo sermão: o Norte caiu não porque a Assíria fosse militarmente esmagadora, mas porque o povo "pecou contra o Senhor seu Deus". A queda é lida retroativamente como prova de uma tese teológica, na voz da escola deuteronomista, por quem já escrevia sob a sombra do exílio de Judá. Convém não confundir as questões: que um redator tenha dado forma teológica ao evento não o torna menos real, e os prismas e estratos de destruição confirmam o que aconteceu sem poderem arbitrar por que aconteceu.

Ezequias e Senaqueribe (701 a.C.)

O cerco de 701 a.C. é um dos episódios mais bem documentados de toda a Bíblia fora dela, e a evidência corta para os dois lados. O Prisma de Senaqueribe(conhecido como Prisma de Taylor ou de Chicago) narra a destruição de 46 cidades fortificadas de Judá e descreve Ezequias trancado em Jerusalém "como um pássaro na gaiola". 2Rs 18:13 já concede que Senaqueribe tomou todas as cidades fortificadas, de modo que a fonte assíria confirma a magnitude do desastre. O decisivo é a omissão: num gênero cujo propósito era celebrar conquistas, Senaqueribe para na metáfora do pássaro engaiolado e nunca reivindica a captura de Jerusalém nem a deposição de Ezequias, que permanece no trono pagando tributo. As duas fontes convergem num ponto: o exército mais poderoso da época cercou Jerusalém e foi embora sem tomá-la.

A divergência está na explicação. Onde o assírio fala de tributo e retirada, 2Rs 19:35 atribui o fim do cerco a um anjo do Senhor que mata 185 mil soldados numa noite. Heródoto, mais de um século depois, registra uma tradição egípcia segundo a qual o exército de Senaqueribe foi paralisado por uma praga de ratos. O número redondo e a figura do anjo exterminador situam o relato bíblico na historiografia teológica, não no relatório militar; a evidência é compatível tanto com uma intervenção sobrenatural quanto com epidemia, motim ou crise política em Nínive, e nenhum prisma confessaria derrota. O que a arqueologia ancora em terreno verificável é a moldura do relato: o túnel de Siloé, atribuído a Ezequias em 2Rs 20:20, existe, foi escavado na rocha sob a Cidade de Davi por cerca de meio quilômetro, e a inscrição encontrada nele em 1880 descreve as duas equipes de cavadores se encontrando no meio, o tipo exato de preparativo que um rei faria sabendo que a Assíria vinha. A paleografia aponta para o fim do século VIII a.C., compatível com Ezequias, embora uma minoria defenda datação mais baixa.

A reforma de Josias e o fim da monarquia

A reforma de Josias (2Rs 22-23) é o ponto onde o livro mais se aproxima de revelar a própria gênese. O relato conta que, durante obras no Templo por volta de 622 a.C., o sumo sacerdote Hilquias "encontra" um livro da Lei esquecido, cuja leitura desencadeia uma reforma radical: centralização do culto em Jerusalém, destruição dos lugares altos, expurgo dos cultos a outros deuses. Desde de Wette (1805), a crítica observa que o programa desse livro coincide ponto a ponto com o núcleo legal do Deuteronômio, em especial a exigência de um único santuário, ausente nos demais livros do Pentateuco. A leitura mais econômica é que o Deuteronômio, ou seu núcleo, foi composto na época da reforma e legitimado pela narrativa do achado. Reconhecer atividade editorial, porém, não dissolve a historicidade do período, e a corrente que dialoga com a arqueologia nota que a forma de tratado de aliança subjacente ao Deuteronômio tem paralelos antigos, abrindo espaço para que a reforma tenha aplicado uma tradição legal pré-existente, não inaugurado um texto recém-escrito.

É no fim que 2 Reis encontra sua confirmação externa mais sólida. A Crônica Babilônicaregistra que Nabucodonosor tomou "a cidade de Judá" e capturou seu rei no segundo dia de Adar de seu sétimo ano, o que se converte a 16 de março de 597 a.C., sincronizando com precisão de dias a primeira deportação. As tábuas de rações da Babilônianomeiam "Ya'u-kinu, rei da terra de Yahudu" e seus filhos recebendo provisões, atestando Joaquim como cativo real exatamente como o epílogo (2Rs 25:27-30) o descreve sendo mantido à mesa do rei babilônico. A destruição de Jerusalém em 586 a.C. tem ainda as Cartas de Laquis e camadas de destruição em escavações. A ancoragem é assimétrica: quanto mais recente o evento, mais documentado; quanto mais antigo, mais o registro externo rareia. Para o período tardio da monarquia, 2 Reis é historiografia razoavelmente ancorada, uma obra escrita por mãos situadas que conheciam bem a história que estavam vivendo e moldaram o passado para dar-lhe sentido.