Evangelho do Pseudo-Mateus 1

Compilação latina medieval atribuída falsamente a Mateus por uma correspondência apócrifa com Jerônimo. Reúne o Protoevangelho de Tiago e o Evangelho da Infância de Tomé e acrescenta cenas que moldaram a arte do Ocidente: o boi e o jumento na manjedoura, os dragões e feras que adoram o menino, a palmeira que se curva e a queda dos ídolos do Egito

Carta de Jerônimo

Aqui começa o livro do Nascimento da Bem-aventurada Maria e da Infância do Salvador. Escrito em hebraico pelo bem-aventurado evangelista Mateus, e traduzido para o latim pelo bem-aventurado presbítero Jerônimo. Aos bispos Cromácio e Heliodoro, ao seu muito amado irmão Jerônimo, presbítero, saudações no Senhor. O nascimento da Virgem Maria e a natividade e a infância de nosso Senhor Jesus Cristo nós os encontramos em livros apócrifos. Mas, considerando que neles estão escritas muitas coisas contrárias à nossa fé, julgamos que todos eles deveriam ser rejeitados, para que por acaso não transferíssemos a alegria de Cristo para o Anticristo. Enquanto, portanto, refletíamos sobre essas coisas, vieram homens santos, Parmênio e Varino, que disseram que vossa Santidade havia encontrado um volume hebraico, escrito pela mão do bem-aventurado evangelista Mateus, no qual também estavam escritos o nascimento da própria virgem mãe e a infância de nosso Salvador. Por isso, suplicamos ao vosso afeto, por nosso Senhor Jesus Cristo mesmo, que o traduzais do hebraico para o latim, não tanto para alcançar aquilo que são os sinais de Cristo, mas para excluir o ardil dos hereges que, a fim de ensinar doutrina, misturaram suas próprias mentiras com a excelente natividade de Cristo, para que, com a doçura da vida, escondessem a amargura da morte. Convirá, portanto, à vossa puríssima piedade ou ouvir-nos como irmãos que suplicam, ou conceder-nos, como bispos que exigem, a dívida de afeto que julgardes devida. Resposta de Jerônimo à carta deles. Aos meus senhores, os santos e bem-aventurados bispos Cromácio e Heliodoro, Jerônimo, humilde servo de Cristo, saudações no Senhor. Aquele que cava no solo onde sabe que ouro não arranca de imediato tudo o que a vala aberta possa derramar; mas, antes que o golpe da trêmula erga ao alto a massa reluzente, ele se demora sobre os torrões para revolvê-los e levantá-los, sobretudo aquele que ainda não acrescentou aos seus ganhos. Uma tarefa árdua me foi imposta, pois aquilo que vossa Bem-aventurança me ordenou o próprio santo apóstolo e evangelista Mateus não escreveu com o propósito de publicar. Pois, se não o tivesse feito de modo um tanto secreto, ele o teria acrescentado também ao seu Evangelho, que publicou. Mas ele compôs este livro em hebraico; e tão pouco o divulgou que, ainda hoje, o livro escrito em hebraico por sua própria mão está em poder de homens muito religiosos, aos quais, em períodos sucessivos de tempo, foi transmitido por aqueles que os precederam. E esse livro eles nunca, em tempo algum, deram a ninguém para traduzir. E assim aconteceu que, quando foi publicado por um discípulo de Maniqueu chamado Leúcio, que também escreveu os falsamente chamados Atos dos Apóstolos, este livro forneceu matéria não de edificação, mas de perdição; e a opinião do Sínodo a seu respeito foi segundo o que merecia: que os ouvidos da Igreja não se abrissem a ele. Cesse agora o rosnar dos que ladram contra nós; pois não acrescentamos este pequeno livro aos escritos canônicos, mas traduzimos o que foi escrito por um apóstolo e evangelista, para que revelemos a falsidade da heresia. Nesta obra, portanto, obedecemos às ordens de bispos piedosos e ao mesmo tempo nos opomos a hereges ímpios. É, pois, o amor de Cristo que cumprimos, crendo que nos ajudarão com suas orações aqueles que, por nossa obediência, alcançam o conhecimento da santa infância de nosso Salvador. Existe ainda outra carta aos mesmos bispos, atribuída a Jerônimo: Pedis-me que vos faça saber o que penso de um livro tido por alguns como sendo sobre a natividade de Santa Maria. E, assim, desejo que saibais que nele muita coisa falsa. Pois um certo Seleuco, que escreveu os Sofrimentos dos Apóstolos, compôs este livro. Mas, assim como escreveu o que era verdadeiro acerca de seus poderes e dos milagres que realizaram, mas disse muita coisa falsa acerca de sua doutrina, também aqui inventou muitas inverdades de sua própria cabeça. Cuidarei de traduzi-lo palavra por palavra, exatamente como está no hebraico, visto que se afirma ter sido composto pelo santo evangelista Mateus, escrito em hebraico e colocado no início de seu Evangelho. Se isso é verdade ou não, deixo ao autor do prefácio e à credibilidade do escritor; quanto a mim, declaro-os duvidosos; não afirmo que sejam claramente falsos. Mas isto digo livremente, e penso que nenhum dos fiéis o negará: que, sejam essas histórias verdadeiras ou invenções, a sagrada natividade de Santa Maria foi precedida por grandes milagres e seguida pelos maiores; e assim, por aqueles que creem que Deus pode fazer essas coisas, podem elas ser cridas e lidas sem prejuízo de sua ou perigo de sua alma. Em suma, na medida do possível, seguindo mais o sentido do que as palavras do escritor, e às vezes caminhando pela mesma senda, embora não nas mesmas pegadas, às vezes desviando um pouco, mas ainda mantendo a mesma estrada, manterei desse modo o estilo da narrativa e nada direi que não esteja ali escrito, ou que, seguindo a mesma linha de pensamento, pudesse ter sido escrito.

Joaquim, pastor justo de Jerusalém, e sua esposa Ana, sem filhos

Naqueles dias havia em Jerusalém um homem chamado Joaquim, da tribo de Judá. Ele era pastor de suas próprias ovelhas, temendo ao Senhor com integridade e simplicidade de coração.
Ele não tinha outra preocupação senão a de seus rebanhos, de cujo rendimento provia de alimento todos os que temiam a Deus, oferecendo dádivas em dobro, no temor de Deus, a todos os que trabalhavam no ensino e que O serviam.
Por isso seus cordeiros, suas ovelhas, sua e tudo quanto possuía costumava dividir em três partes: uma dava aos órfãos, às viúvas, aos estrangeiros e aos pobres; a segunda, aos que adoravam a Deus; e a terceira guardava para si mesmo e para toda a sua casa.
E, fazendo ele assim, o Senhor lhe multiplicou os rebanhos, de modo que não havia homem como ele no povo de Israel. Isso ele começou a fazer quando tinha quinze anos.
E, com a idade de vinte anos, tomou por esposa Ana, filha de Acar, de sua própria tribo, isto é, da tribo de Judá, da família de Davi. E, embora tivessem vivido juntos por vinte anos, não teve dela nem filhos nem filhas.