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Pastor de Hermas
Livro de revelações cristão escrito em Roma no século II, atribuído a um certo Hermas, ex-escravo alforriado, casado, pai de filhos e homem de negócios arruinado. Uma senhora idosa que se revela ser a Igreja e depois um anjo vestido de pastor lhe entregam visões, mandamentos e parábolas sobre um único tema: se o cristão que peca depois do batismo ainda pode se arrepender, e por quanto tempo essa porta fica aberta.
Pelo número de cópias antigas que sobraram, é o texto cristão extracanônico mais difundido: só Mateus e João deixaram mais manuscritos dos primeiros séculos. Foi lido em assembleia, citado como Escritura por Ireneu, Clemente de Alexandria e Orígenes, copiado dentro do Códice Sinaítico ao lado dos evangelhos, e mesmo assim ficou de fora do cânon. A obra tem 114 capítulos nesta edição, o que faz dela uma das maiores da literatura cristã do século II.
Autoria e Data de Composição
O autor se apresenta pelo nome, Hermas, e conta a própria vida em primeira pessoa: foi vendido como escravo em Roma, foi alforriado, enriqueceu, perdeu tudo, tem esposa de língua solta e filhos que renegaram a fé. Esses dados são internos ao livro e não podem ser confirmados por fonte externa, mas nada neles é implausível para a Roma do século II.
Há três posições clássicas sobre quem foi esse Hermas, e nenhuma é consenso. A mais antiga é a do Fragmento Muratoriano (lista canônica romana, datada em geral entre 170 e 200, com minoria defendendo o século IV): diz que o Pastor foi escrito "muito recentemente, em nossos dias", por Hermas, irmão do bispo Pio de Roma. Isso situaria a obra por volta de 140 a 155 d.C. A segunda é a de Orígenes, que identificou o autor com o Hermas saudado por Paulo em Romanos 16, o que empurraria a composição para o fim do século I. A terceira, dominante hoje na crítica, é que o livro é composto em camadas, escritas ao longo de décadas: as primeiras visões seriam mais antigas, e as parábolas finais, mais tardias.
O argumento a favor da datação antiga está dentro do texto: a senhora idosa manda Hermas entregar uma cópia do livrinho a Clemente, que a enviará às outras cidades, e a Grapta, que exortará viúvas e órfãos. Se esse Clemente é o Clemente de Roma do fim do século I, a cena aponta para uma data em torno de 90 a 100.
Os dados de datação que estão no próprio livro
- Hermas foi vendido como escravo em Roma a uma senhora chamada Rosa — (Pastor de Hermas 1:1)
- A ordem de enviar uma cópia a Clemente, que a mandará às outras cidades, e outra a Grapta — (Pastor de Hermas 8:11)
- A leitura do livrinho aos presbíteros que dirigem a Igreja da cidade — (Pastor de Hermas 8:14)
- A menção de açoites, prisões, cruzes e feras sofridos por causa do Nome — (Pastor de Hermas 10:2)
- A tribulação futura anunciada pela fera, sinal de perseguição esperada e não em curso — (Pastor de Hermas 23:12)
O que o texto não traz também informa a datação: não há bispo único de Roma, e sim presbíteros que dirigem a Igreja em conjunto, ao lado de bispos no plural, doutores e diáconos. Essa estrutura é mais antiga que a monarquia episcopal romana consolidada, e é um dos argumentos mais fortes contra ler o livro como obra tardia de um único autor da metade do século II.
O ministério da Igreja como o livro o descreve
- Apóstolos, bispos, doutores e diáconos como as pedras quadradas e brancas da torre — (Pastor de Hermas 13:2)
- Advertência aos chefes da Igreja e aos que ocupam os primeiros lugares — (Pastor de Hermas 17:12)
- Diáconos que roubaram a subsistência de viúvas e órfãos — (Pastor de Hermas 103:1)
- Bispos hospitaleiros, que receberam os servos de Deus em casa sem hipocrisia — (Pastor de Hermas 104:1)
Como o livro está organizado
A obra tem três partes desiguais: cinco Visões, doze Mandamentos e dez Parábolas (ou Similitudes). As Visões vão do capítulo 1 ao 25, os Mandamentos do 26 ao 49, e as Parábolas do 50 ao 114. A nona Parábola sozinha ocupa quase um terço do livro e reescreve, com outro simbolismo, a visão da torre que já aparecera na terceira Visão.
Atenção a um detalhe desta edição: os subtítulos internos ("Primeiro Mandamento", "Primeira Parábola" e assim por diante) aparecem um capítulo antes do trecho que de fato nomeiam. O Primeiro Mandamento começa no capítulo 26, e não no 25, que ainda pertence à quinta Visão, a da aparição do Pastor. Ao comparar com edições estrangeiras, conte pelo conteúdo, não pelo rótulo.
As Visões
A acusação e o chamado ao arrependimento
- Hermas ajuda Rosa a sair do Tibre e admira sua beleza — (Pastor de Hermas 1:3)
- A resposta dela, sorrindo: o desejo da maldade entrou no teu coração — (Pastor de Hermas 1:21)
- Para o servo de Deus, a intenção já conduz ao pecado — (Pastor de Hermas 2:14)
- A culpa verdadeira: Hermas ama os filhos e não os corrige — (Pastor de Hermas 3:2)
- A palavra justa de cada dia vence a iniquidade, como o martelo do ferreiro — (Pastor de Hermas 3:7)
O livrinho copiado letra por letra
- Hermas copia o livrinho sem conseguir reconhecer as sílabas — (Pastor de Hermas 5:10)
- Quinze dias de jejum antes de o sentido do texto lhe ser revelado — (Pastor de Hermas 6:1)
- O prazo: depois do dia fixado como limite, a penitência dos justos tem fim — (Pastor de Hermas 6:7)
- A citação do livro perdido de Eldad e Medat — (Pastor de Hermas 7:11)
- A senhora idosa não é a Sibila: é a Igreja — (Pastor de Hermas 8:3)
- Ela aparece idosa porque a Igreja foi criada antes de todas as coisas — (Pastor de Hermas 8:5)
A torre construída sobre as águas
- O lado direito reservado aos que sofreram por causa do Nome — (Pastor de Hermas 9:23)
- A grande torre erguida sobre as águas com pedras quadradas e brilhantes — (Pastor de Hermas 10:14)
- A torre está sobre as águas porque a vida foi salva pela água — (Pastor de Hermas 11:18)
- Os seis jovens que constroem são os anjos criados em primeiro lugar — (Pastor de Hermas 12:2)
- As pedras com rachaduras: os que nutrem rancor mútuo e não conservam a paz — (Pastor de Hermas 14:6)
- O rico é pedra redonda: só serve depois que a riqueza for aparada — (Pastor de Hermas 14:16)
- Quiseram o batismo e recuaram ao perceber a pureza que a verdade exige — (Pastor de Hermas 15:6)
- As sete mulheres que sustentam a torre, da Fé à Caridade — (Pastor de Hermas 16:13)
- Enquanto a torre não estiver terminada, procurai os que têm fome — (Pastor de Hermas 17:10)
- Os chefes da Igreja comparados a envenenadores que trazem o veneno no coração — (Pastor de Hermas 17:15)
A explicação das três idades da senhora, dada nos capítulos 19 a 21, é o trecho mais engenhoso da primeira parte: ela apareceu velha, depois de meia-idade e por fim jovem, não porque mude, mas porque muda quem a vê. O espírito envelhecido dos leitores é que a via velha.
As três formas da senhora e a fera
- Ela apareceu idosa porque o espírito dos ouvintes estava envelhecido e sem força — (Pastor de Hermas 19:3)
- A comparação do idoso que recebe uma herança inesperada e recobra as forças — (Pastor de Hermas 20:3)
- O banco de quatro pés: o mundo sustentado por quatro elementos — (Pastor de Hermas 21:6)
- A fera enorme, parecida com uma baleia, aparece quando o sol brilha — (Pastor de Hermas 22:10)
- O anjo Tegri, posto sobre as feras, fecha a boca do monstro — (Pastor de Hermas 23:9)
- A cor negra é este mundo; o vermelho de fogo e sangue, o modo como ele perecerá — (Pastor de Hermas 24:4)
- O Pastor aparece com pele de cabra, bornal e cajado, e manda escrever — (Pastor de Hermas 25:1)
Os Mandamentos
Os doze Mandamentos são a parte mais catequética do livro e a mais citada na Antiguidade. O primeiro deles, com apenas três versículos, é uma fórmula de fé em Deus criador que Ireneu cita como Escritura em Contra as Heresias IV.20.2, sem nomear a fonte, chamando-a apenas de "o escrito".
Antes de tudo, crê que existe um só Deus, que criou e organizou o universo, fazendo passar todas as coisas do não-ser para o ser, que contém tudo e ele próprio não é contido por nada.
Simplicidade, verdade e castidade
- Não fales mal de ninguém nem ouças com prazer o maledicente — (Pastor de Hermas 27:2)
- Dá com simplicidade a todos os necessitados, sem examinar a quem darás — (Pastor de Hermas 27:8)
- Os mentirosos renegam o Senhor e não lhe restituem o depósito recebido — (Pastor de Hermas 28:3)
- Hermas confessa ter vivido de fraude e nunca ter dito palavra verdadeira — (Pastor de Hermas 28:6)
- O marido deve repudiar a esposa adúltera impenitente e viver sozinho — (Pastor de Hermas 29:7)
- Se ela se arrepender, o marido é obrigado a recebê-la de volta — (Pastor de Hermas 29:8)
- Quem enviuvou e se casa de novo não peca, mas tem menos honra diante de Deus — (Pastor de Hermas 32:1)
O ponto doutrinal decisivo do livro está no capítulo 31. Hermas relata que alguns doutores ensinavam não haver outro arrependimento além do batismo. O Pastor concorda com o princípio e abre uma exceção limitada: quem foi chamado antes daquele dia tem direito a uma única penitência posterior. Essa concessão, e a recusa de repeti-la, é o que fez o Pastor ser lido como manual pastoral e, depois, ser atacado como frouxo.
Se, depois desse chamado importante e solene, alguém, seduzido pelo diabo, cometer pecado, ele dispõe de uma só penitência; contudo, se peca repetidamente, ainda que se arrependa, a penitência será inútil para tal homem.
Paciência, cólera e os dois anjos
- O arrependimento é em si mesmo um ato de grande inteligência — (Pastor de Hermas 30:4)
- A gota de absinto que estraga o vaso inteiro de mel — (Pastor de Hermas 33:8)
- A genealogia da cólera: estupidez, amargura, irritação, furor, ressentimento — (Pastor de Hermas 34:9)
- O caminho tortuoso, impraticável, pedregoso e espinhoso — (Pastor de Hermas 35:6)
- Dois anjos acompanham cada homem: o da justiça e o do mal — (Pastor de Hermas 36:2)
- Teme o Senhor e não temas o diabo — (Pastor de Hermas 37:4)
- O catálogo dos vícios de que o servo de Deus deve se abster — (Pastor de Hermas 38:5)
- O catálogo das boas obras: assistir viúvas, visitar órfãos, resgatar escravos — (Pastor de Hermas 38:16)
Dúvida, tristeza e o falso profeta
- A dúvida é filha do diabo e desenraiza da fé até os mais firmes — (Pastor de Hermas 39:13)
- A tristeza é irmã da dúvida e da cólera, e expulsa o Espírito Santo — (Pastor de Hermas 40:1)
- A oração do homem triste não tem força para subir ao altar de Deus — (Pastor de Hermas 42:5)
- O falso profeta responde por encomenda a quem o consulta como adivinho — (Pastor de Hermas 43:4)
- O critério de discernimento: quem cobra pagamento pela profecia não é de Deus — (Pastor de Hermas 43:22)
- O Espírito Santo fala na assembleia dos justos, não quando o homem quer — (Pastor de Hermas 43:17)
- A gota que cai do telhado e fura a pedra: a força do que vem do alto — (Pastor de Hermas 43:44)
- O desejo mau é filho do diabo e mata os servos de Deus — (Pastor de Hermas 45:3)
- Hermas objeta que os mandamentos são duros demais para o homem — (Pastor de Hermas 46:9)
- A resposta do Pastor: com o Senhor no coração, nada é mais fácil que esses mandamentos — (Pastor de Hermas 47:9)
- A parábola dos recipientes meio cheios que o diabo prova primeiro — (Pastor de Hermas 48:6)
As Parábolas
As Parábolas passam da instrução moral para o simbolismo agrícola e arquitetônico. Duas delas ficaram famosas fora do livro: a da cidade estrangeira, que trata do cristão como residente temporário sob outra lei, e a do olmeiro e da videira, que faz do rico e do pobre uma unidade produtiva, cada um devedor do outro.
Vós, servos de Deus, sabeis que habitais em terra estrangeira.
A cidade estrangeira, o olmeiro e a videira
- O dono desta cidade dirá: obedece às minhas leis ou sai do meu país — (Pastor de Hermas 50:10)
- Em lugar de campos, resgatai os oprimidos e visitai viúvas e órfãos — (Pastor de Hermas 50:19)
- A videira sem o olmeiro fica no chão e seus frutos apodrecem — (Pastor de Hermas 51:3)
- O rico é pobre diante de Deus porque a riqueza o distrai da oração — (Pastor de Hermas 51:8)
- O pobre é rico pela oração, e reza pelo benfeitor que o socorre — (Pastor de Hermas 51:10)
- Este mundo é inverno: justos e pecadores não se distinguem entre si — (Pastor de Hermas 52:3)
- O mundo que vem será verão para os justos e inverno para os pecadores — (Pastor de Hermas 53:3)
O jejum verdadeiro e a parábola da vinha
- O jejum feito por costume é sem valor diante de Deus — (Pastor de Hermas 54:2)
- Jejuar é abster-se do mal e servir ao Senhor de coração puro — (Pastor de Hermas 54:7)
- O escravo decide capinar a vinha, além do que lhe fora mandado — (Pastor de Hermas 55:8)
- O senhor decide fazer do escravo co-herdeiro junto com o próprio filho — (Pastor de Hermas 55:18)
- Calcula o preço da comida do dia de jejum e dá a uma viúva ou órfão — (Pastor de Hermas 56:9)
- A chave da parábola: o campo é este mundo e o dono do campo criou todas as coisas — (Pastor de Hermas 58:4)
A explicação dessa parábola, nos capítulos 58 e 59, é o trecho mais debatido do livro. O Pastor identifica o filho com o Espírito Santo e o escravo com o Filho de Deus, e diz depois que Deus fez habitar numa carne escolhida o Espírito Santo preexistente, adotando essa carne como companheira. Leitores antigos e modernos discutem se isso é uma cristologia adocionista, uma linguagem pneumática arcaica anterior às formulações trinitárias, ou uma alegoria mal encaixada. O texto não resolve a ambiguidade.
Deus fez habitar na carne que ele havia escolhido o Espírito Santo preexistente, que criou todas as coisas.
Os dois pastores: volúpia e castigo
- Guarda tua carne pura, pois carne e espírito não se mancham um sem o outro — (Pastor de Hermas 60:7)
- O pastor das ovelhas dissolutas é o anjo da volúpia e do erro — (Pastor de Hermas 62:1)
- Distinção entre morte e corrupção: uma ainda deixa esperança de penitência — (Pastor de Hermas 62:10)
- O pastor severo de aspecto selvagem é o anjo do castigo, justo mas implacável — (Pastor de Hermas 63:2)
- A aritmética do castigo: uma hora de tormento vale trinta dias — (Pastor de Hermas 64:4)
- Há volúpias que salvam: o prazer de fazer o bem — (Pastor de Hermas 65:15)
- Hermas será atribulado porque, sendo o chefe da família, sua dor arrasta a dos seus — (Pastor de Hermas 66:8)
O salgueiro e os ramos
- O anjo corta ramos do grande salgueiro e os distribui à multidão — (Pastor de Hermas 67:3)
- A árvore permanece inteira depois de tantos ramos cortados — (Pastor de Hermas 67:5)
- Cada grupo é separado pelo estado do ramo devolvido: seco, roído, fendido, verde — (Pastor de Hermas 67:10)
- Coroas de palma para os que devolveram ramos com fruto — (Pastor de Hermas 68:2)
- O Pastor replanta e rega os ramos secos para ver quais reviverão — (Pastor de Hermas 68:15)
- O salgueiro é a lei de Deus dada ao mundo, e essa lei é o Filho de Deus — (Pastor de Hermas 69:2)
- O anjo grande e glorioso é identificado como Miguel — (Pastor de Hermas 69:4)
- Os coroados são os que lutaram contra o diabo e sofreram pela lei — (Pastor de Hermas 69:7)
- Ramos verdes que voltaram sem fendas: os que se livraram da discórdia — (Pastor de Hermas 71:3)
- Deus negou a penitência aos que se arrependeriam apenas por hipocrisia — (Pastor de Hermas 72:3)
- Apóstatas e traidores da Igreja: ramos secos e carcomidos, mortos para Deus — (Pastor de Hermas 72:6)
- Os que duvidam não estão nem vivos nem mortos — (Pastor de Hermas 73:2)
- A disputa pelos primeiros lugares como pecado de gente boa — (Pastor de Hermas 73:8)
- Os que enriqueceram, ganharam honra entre os pagãos e se separaram dos justos — (Pastor de Hermas 75:1)
- Os que pecaram pouco, por leve concupiscência e rancores miúdos — (Pastor de Hermas 76:1)
A nona Parábola: a rocha, a porta e as doze montanhas
A partir do capítulo 78 o livro recomeça. O Pastor leva Hermas à Arcádia e lhe mostra a mesma torre da terceira Visão, agora com outro cenário: doze montanhas ao redor de uma planície, uma rocha antiga com uma porta recém-escavada, doze virgens que carregam as pedras e doze mulheres de preto que as arrastam de volta. É a seção mais longa e mais sistemática da obra.
A torre reconstruída
- As doze montanhas ao redor da planície, cada uma com um aspecto diferente — (Pastor de Hermas 78:9)
- A rocha antiga, mais alta que as montanhas, com uma porta escavada recentemente — (Pastor de Hermas 79:3)
- As doze virgens de túnica de linho, delicadas mas capazes de sustentar o céu — (Pastor de Hermas 79:11)
- Dez pedras quadradas sobem do abismo e formam o alicerce — (Pastor de Hermas 80:9)
- Pedras de todas as cores tornam-se brancas ao passar pela porta — (Pastor de Hermas 81:14)
- A pedra que não passa pela mão das virgens não muda de cor — (Pastor de Hermas 81:20)
- A construção é interrompida: a torre espera o exame do proprietário — (Pastor de Hermas 82:5)
- O homem alto que ultrapassa a torre bate pedra por pedra com um bastão — (Pastor de Hermas 83:4)
- As pedras rejeitadas são entregues ao Pastor para serem limpas e lavradas — (Pastor de Hermas 84:1)
- As pedras redondas demais e as doze mulheres de preto que as levam embora — (Pastor de Hermas 86:6)
- A torre acabada parece um bloco único, sem a mínima juntura — (Pastor de Hermas 86:11)
- A noite que Hermas passa junto à torre, no meio das virgens — (Pastor de Hermas 88:12)
A chave alegórica vem nos capítulos 89 a 95. A rocha é antiga porque o Filho de Deus é anterior à criação; a porta é nova porque ele se manifestou nos últimos dias. As virgens são espíritos, e seus nomes são virtudes que o batizado precisa vestir junto com o Nome. As pedras que sobem do abismo são as gerações anteriores, incluindo apóstolos que teriam pregado aos mortos e os batizado, uma das passagens mais discutidas da literatura cristã primitiva.
A rocha e a porta são o Filho de Deus.
A explicação da torre
- A rocha é antiga porque o Filho nasceu antes de toda a criação — (Pastor de Hermas 89:2)
- Ninguém entra na cidade senão pela única porta que ela tem — (Pastor de Hermas 89:5)
- A torre é a Igreja, e as virgens são espíritos santos — (Pastor de Hermas 90:1)
- Levar o nome sem a veste das virgens não adianta nada — (Pastor de Hermas 90:3)
- A pausa na construção existe para dar tempo ao arrependimento — (Pastor de Hermas 91:2)
- As quatro virgens mais fortes: Fé, Temperança, Força e Paciência — (Pastor de Hermas 92:2)
- As quatro mulheres de preto mais fortes: Incredulidade, Intemperança, Desobediência e Engano — (Pastor de Hermas 92:6)
- As quatro camadas do alicerce: primeira geração, justos, profetas, apóstolos — (Pastor de Hermas 92:9)
- O selo é a água: desce-se morto e sobe-se vivo — (Pastor de Hermas 93:6)
- Os apóstolos pregaram e selaram também os que morreram antes deles — (Pastor de Hermas 93:7)
- As doze montanhas são as doze tribos que habitam o mundo inteiro — (Pastor de Hermas 94:3)
- Quem conhece a Deus e ainda pratica o mal será duplamente castigado — (Pastor de Hermas 95:5)
As doze montanhas, uma a uma
- Primeira montanha, preta: apóstatas e blasfemadores, sem penitência — (Pastor de Hermas 96:1)
- Segunda, seca: hipócritas e mestres do mal — (Pastor de Hermas 96:3)
- Terceira, de espinhos e cardos: os ricos e os enredados em negócios — (Pastor de Hermas 97:2)
- Quarta: os vacilantes que sacrificam aos ídolos ao ouvir falar de perseguição — (Pastor de Hermas 98:4)
- Quinta, pedregosa: os que querem ser mestres sendo insensatos — (Pastor de Hermas 99:3)
- Sexta, cheia de fendas: os rancorosos e maledicentes — (Pastor de Hermas 100:1)
- Sétima, exuberante: os que sempre foram simples e inocentes — (Pastor de Hermas 101:1)
- Oitava, cheia de fontes: apóstolos e doutores que anunciaram no mundo inteiro — (Pastor de Hermas 102:1)
- Nona, com répteis e feras: os espertos e maledicentes são as feras da montanha — (Pastor de Hermas 103:13)
- Décima, de árvores que abrigam ovelhas: bispos que protegeram necessitados e viúvas — (Pastor de Hermas 104:2)
- Décima primeira, cheia de frutos: os que sofreram pelo Nome sem renegar — (Pastor de Hermas 105:5)
- Décima segunda, branca: os que são como crianças, sem malícia — (Pastor de Hermas 106:1)
- As pedras redondas cortadas em parte: riquezas aparadas sem serem retiradas — (Pastor de Hermas 107:11)
- Ai dos pastores, se alguma ovelha for encontrada transviada — (Pastor de Hermas 108:10)
- A parábola do lavadeiro que devolve a roupa rasgada — (Pastor de Hermas 109:5)
O fim do livro
A décima Parábola e o encargo final
- As formas igualadas nas pedras eram os pecados apagados dos penitentes — (Pastor de Hermas 110:8)
- Só ao Pastor foi conferido o poder da penitência para o mundo inteiro — (Pastor de Hermas 111:7)
- Quem despreza os mandamentos do Pastor torna-se réu do próprio sangue — (Pastor de Hermas 112:10)
- As virgens só permanecem numa casa limpa — (Pastor de Hermas 113:8)
- Quem conhece a miséria alheia e não a remedia é réu do sangue do miserável — (Pastor de Hermas 114:10)
- A construção da torre está parada por causa da demora em fazer o bem — (Pastor de Hermas 114:12)
Manuscritos e transmissão
O Pastor sobreviveu em grego apenas de forma fragmentária, e a reconstrução do texto depende de juntar testemunhos de línguas e séculos diferentes.
Os principais são: o Códice Sinaítico (século IV), que traz o livro depois do Apocalipse e da Epístola de Barnabé, mas interrompido no quarto Mandamento; o Papiro Michigan 129 (por volta de 250), que preserva boa parte das Parábolas; o Códice do Monte Atos, dos séculos XIV ou XV, encontrado por Constantino Simonides em 1855, que é o testemunho grego mais completo e ainda assim perde o fecho da obra; e mais de dez fragmentos de papiro de Oxirrinco, o mais antigo dos quais é datado entre o fim do século II e o início do III. Somando tudo, o grego cobre quase toda a obra: o que falta é o trecho final, conhecido só pelas traduções.
As lacunas gregas são cobertas por traduções antigas: duas versões latinas independentes, a Vulgata (provavelmente do século II ou III) e a Palatina (século V), além de uma versão etíope e fragmentos coptas, médio-persas e georgianos. O número de cópias antigas é alto para uma obra não canônica, indício direto de quanto ela circulou.
Recepção e canonicidade
Nenhum outro texto cristão extracanônico chegou tão perto do cânon nem foi rejeitado com tanta explicitação. Os testemunhos se dividem em três blocos.
A favor: Ireneu cita o primeiro Mandamento como "o escrito", fórmula que reserva à Escritura. Clemente de Alexandria cita a obra com naturalidade e trata as visões como revelação. Orígenes a considera "divinamente inspirada", ainda que registre que nem todos concordavam, e a atribui ao Hermas de Romanos 16. O Códice Sinaítico a copia dentro do mesmo volume dos evangelhos e das cartas.
Contra: o Fragmento Muratoriano diz que o Pastor deve ser lido em particular, mas não publicamente na Igreja, "nem entre os profetas, cujo número está completo, nem entre os apóstolos", porque é obra recente demais. Tertuliano, depois de aderir ao montanismo, ataca o livro em Sobre a Pudicícia e o chama de escritura que favorece os adúlteros, justamente por causa da segunda penitência. Eusébio de Cesareia o classifica entre os escritos disputados. Atanásio, na 39ª Carta Festal de 367, o exclui do cânon mas o mantém entre os livros que os catecúmenos devem ler.
Depois disso, a obra sai do circuito litúrgico e vira leitura de catequese, uso que a lista de Atanásio já autorizava. O motivo declarado na exclusão não foi heresia, e sim a datação: para a lista muratoriana, o livro era recente demais para caber entre apóstolos e profetas. Tertuliano, por sua vez, atacou o conteúdo.
Paralelos bíblicos
O Pastor não cita a Bíblia por capítulo e versículo, mas seu vocabulário é claramente devedor da literatura judaica e cristã anterior. Os pontos de contato mais evidentes:
Passagens que dialogam com a obra
- Paulo saúda um Hermas entre os cristãos de Roma, o candidato de Orígenes a autor — (Rm 16:14)
- O homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos, tema central do livro — (Tg 1:8)
- Purificai os corações, vós de ânimo dobre — (Tg 4:8)
- A semente sufocada pelos cuidados e pela sedução das riquezas — (Mt 13:22)
- Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino — (Mt 18:3)
- A casa edificada sobre a rocha — (Mt 7:24)
- O corpo como templo do Espírito Santo — (1Co 6:19)
- A tribulação produz perseverança, caráter e esperança — (Rm 5:3-4)
- O apelo para que não haja divisões e todos falem a mesma coisa — (1Co 1:10)
- Os cristãos como estrangeiros e peregrinos neste mundo — (1Pe 2:11)
Um detalhe único: o Pastor é a única fonte antiga a citar o livro de Eldad e Medat, obra judaica perdida ligada aos dois anciãos que profetizaram no acampamento em Números 11. A citação de Hermas é tudo o que sobrou dela.
O Senhor está próximo daqueles que fazem penitência, como está escrito no livro de Eldad e Medat, que profetizaram para o povo no deserto.
O que está em jogo no livro
O Pastor é o primeiro documento cristão a enfrentar de frente um problema que o Novo Testamento deixou em aberto: o que fazer com o batizado que peca. A resposta que ele dá, uma segunda e última chance concedida por decreto divino num prazo determinado, é um compromisso entre duas posições extremas que já existiam na Roma do século II, a dos rigoristas que negavam qualquer perdão pós-batismal e a dos que dispensavam o problema.
Esse compromisso teve consequências duradouras. A disciplina penitencial que a Igreja antiga desenvolveu nos séculos seguintes, com prazos, provações e reconciliação única, encontra aqui sua primeira formulação escrita. E foi exatamente esse ponto que fez Tertuliano montanista atacar o livro. A obra é, ao mesmo tempo, um documento de piedade popular romana e uma peça central na história da penitência cristã.
Vale também como retrato social. O livro fala sem eufemismo de cristãos ricos que temem ser pedidos, de comerciantes absorvidos pelos negócios, de diáconos que desviam o dinheiro das viúvas, de profetas que cobram para profetizar e de fiéis que sacrificam aos ídolos no primeiro sinal de perseguição. Poucos textos do século II mostram uma comunidade cristã com tantas rachaduras visíveis.