Capítulos

O Pastor angélico e a torre em construção

Pastor de Hermas

Livro de revelações cristão escrito em Roma no século II, atribuído a um certo Hermas, ex-escravo alforriado, casado, pai de filhos e homem de negócios arruinado. Uma senhora idosa que se revela ser a Igreja e depois um anjo vestido de pastor lhe entregam visões, mandamentos e parábolas sobre um único tema: se o cristão que peca depois do batismo ainda pode se arrepender, e por quanto tempo essa porta fica aberta.

Pelo número de cópias antigas que sobraram, é o texto cristão extracanônico mais difundido: só Mateus e João deixaram mais manuscritos dos primeiros séculos. Foi lido em assembleia, citado como Escritura por Ireneu, Clemente de Alexandria e Orígenes, copiado dentro do Códice Sinaítico ao lado dos evangelhos, e mesmo assim ficou de fora do cânon. A obra tem 114 capítulos nesta edição, o que faz dela uma das maiores da literatura cristã do século II.

Autoria e Data de Composição

O autor se apresenta pelo nome, Hermas, e conta a própria vida em primeira pessoa: foi vendido como escravo em Roma, foi alforriado, enriqueceu, perdeu tudo, tem esposa de língua solta e filhos que renegaram a fé. Esses dados são internos ao livro e não podem ser confirmados por fonte externa, mas nada neles é implausível para a Roma do século II.

Há três posições clássicas sobre quem foi esse Hermas, e nenhuma é consenso. A mais antiga é a do Fragmento Muratoriano (lista canônica romana, datada em geral entre 170 e 200, com minoria defendendo o século IV): diz que o Pastor foi escrito "muito recentemente, em nossos dias", por Hermas, irmão do bispo Pio de Roma. Isso situaria a obra por volta de 140 a 155 d.C. A segunda é a de Orígenes, que identificou o autor com o Hermas saudado por Paulo em Romanos 16, o que empurraria a composição para o fim do século I. A terceira, dominante hoje na crítica, é que o livro é composto em camadas, escritas ao longo de décadas: as primeiras visões seriam mais antigas, e as parábolas finais, mais tardias.

O argumento a favor da datação antiga está dentro do texto: a senhora idosa manda Hermas entregar uma cópia do livrinho a Clemente, que a enviará às outras cidades, e a Grapta, que exortará viúvas e órfãos. Se esse Clemente é o Clemente de Roma do fim do século I, a cena aponta para uma data em torno de 90 a 100.

Os dados de datação que estão no próprio livro

O que o texto não traz também informa a datação: não há bispo único de Roma, e sim presbíteros que dirigem a Igreja em conjunto, ao lado de bispos no plural, doutores e diáconos. Essa estrutura é mais antiga que a monarquia episcopal romana consolidada, e é um dos argumentos mais fortes contra ler o livro como obra tardia de um único autor da metade do século II.

O ministério da Igreja como o livro o descreve

Como o livro está organizado

A obra tem três partes desiguais: cinco Visões, doze Mandamentos e dez Parábolas (ou Similitudes). As Visões vão do capítulo 1 ao 25, os Mandamentos do 26 ao 49, e as Parábolas do 50 ao 114. A nona Parábola sozinha ocupa quase um terço do livro e reescreve, com outro simbolismo, a visão da torre que já aparecera na terceira Visão.

Atenção a um detalhe desta edição: os subtítulos internos ("Primeiro Mandamento", "Primeira Parábola" e assim por diante) aparecem um capítulo antes do trecho que de fato nomeiam. O Primeiro Mandamento começa no capítulo 26, e não no 25, que ainda pertence à quinta Visão, a da aparição do Pastor. Ao comparar com edições estrangeiras, conte pelo conteúdo, não pelo rótulo.

As Visões

A acusação e o chamado ao arrependimento

O livrinho copiado letra por letra

A torre construída sobre as águas

A explicação das três idades da senhora, dada nos capítulos 19 a 21, é o trecho mais engenhoso da primeira parte: ela apareceu velha, depois de meia-idade e por fim jovem, não porque mude, mas porque muda quem a vê. O espírito envelhecido dos leitores é que a via velha.

As três formas da senhora e a fera

Os Mandamentos

Os doze Mandamentos são a parte mais catequética do livro e a mais citada na Antiguidade. O primeiro deles, com apenas três versículos, é uma fórmula de fé em Deus criador que Ireneu cita como Escritura em Contra as Heresias IV.20.2, sem nomear a fonte, chamando-a apenas de "o escrito".

Antes de tudo, crê que existe um só Deus, que criou e organizou o universo, fazendo passar todas as coisas do não-ser para o ser, que contém tudo e ele próprio não é contido por nada.

Pastor de Hermas 26:1

Simplicidade, verdade e castidade

O ponto doutrinal decisivo do livro está no capítulo 31. Hermas relata que alguns doutores ensinavam não haver outro arrependimento além do batismo. O Pastor concorda com o princípio e abre uma exceção limitada: quem foi chamado antes daquele dia tem direito a uma única penitência posterior. Essa concessão, e a recusa de repeti-la, é o que fez o Pastor ser lido como manual pastoral e, depois, ser atacado como frouxo.

Se, depois desse chamado importante e solene, alguém, seduzido pelo diabo, cometer pecado, ele dispõe de uma só penitência; contudo, se peca repetidamente, ainda que se arrependa, a penitência será inútil para tal homem.

Pastor de Hermas 31:7

Paciência, cólera e os dois anjos

Dúvida, tristeza e o falso profeta

As Parábolas

As Parábolas passam da instrução moral para o simbolismo agrícola e arquitetônico. Duas delas ficaram famosas fora do livro: a da cidade estrangeira, que trata do cristão como residente temporário sob outra lei, e a do olmeiro e da videira, que faz do rico e do pobre uma unidade produtiva, cada um devedor do outro.

Vós, servos de Deus, sabeis que habitais em terra estrangeira.

Pastor de Hermas 50:1

A cidade estrangeira, o olmeiro e a videira

O jejum verdadeiro e a parábola da vinha

A explicação dessa parábola, nos capítulos 58 e 59, é o trecho mais debatido do livro. O Pastor identifica o filho com o Espírito Santo e o escravo com o Filho de Deus, e diz depois que Deus fez habitar numa carne escolhida o Espírito Santo preexistente, adotando essa carne como companheira. Leitores antigos e modernos discutem se isso é uma cristologia adocionista, uma linguagem pneumática arcaica anterior às formulações trinitárias, ou uma alegoria mal encaixada. O texto não resolve a ambiguidade.

Deus fez habitar na carne que ele havia escolhido o Espírito Santo preexistente, que criou todas as coisas.

Pastor de Hermas 59:8

Os dois pastores: volúpia e castigo

O salgueiro e os ramos

A nona Parábola: a rocha, a porta e as doze montanhas

A partir do capítulo 78 o livro recomeça. O Pastor leva Hermas à Arcádia e lhe mostra a mesma torre da terceira Visão, agora com outro cenário: doze montanhas ao redor de uma planície, uma rocha antiga com uma porta recém-escavada, doze virgens que carregam as pedras e doze mulheres de preto que as arrastam de volta. É a seção mais longa e mais sistemática da obra.

A torre reconstruída

A chave alegórica vem nos capítulos 89 a 95. A rocha é antiga porque o Filho de Deus é anterior à criação; a porta é nova porque ele se manifestou nos últimos dias. As virgens são espíritos, e seus nomes são virtudes que o batizado precisa vestir junto com o Nome. As pedras que sobem do abismo são as gerações anteriores, incluindo apóstolos que teriam pregado aos mortos e os batizado, uma das passagens mais discutidas da literatura cristã primitiva.

A rocha e a porta são o Filho de Deus.

Pastor de Hermas 89:1

A explicação da torre

As doze montanhas, uma a uma

O fim do livro

A décima Parábola e o encargo final

Manuscritos e transmissão

O Pastor sobreviveu em grego apenas de forma fragmentária, e a reconstrução do texto depende de juntar testemunhos de línguas e séculos diferentes.

Os principais são: o Códice Sinaítico (século IV), que traz o livro depois do Apocalipse e da Epístola de Barnabé, mas interrompido no quarto Mandamento; o Papiro Michigan 129 (por volta de 250), que preserva boa parte das Parábolas; o Códice do Monte Atos, dos séculos XIV ou XV, encontrado por Constantino Simonides em 1855, que é o testemunho grego mais completo e ainda assim perde o fecho da obra; e mais de dez fragmentos de papiro de Oxirrinco, o mais antigo dos quais é datado entre o fim do século II e o início do III. Somando tudo, o grego cobre quase toda a obra: o que falta é o trecho final, conhecido só pelas traduções.

As lacunas gregas são cobertas por traduções antigas: duas versões latinas independentes, a Vulgata (provavelmente do século II ou III) e a Palatina (século V), além de uma versão etíope e fragmentos coptas, médio-persas e georgianos. O número de cópias antigas é alto para uma obra não canônica, indício direto de quanto ela circulou.

Recepção e canonicidade

Nenhum outro texto cristão extracanônico chegou tão perto do cânon nem foi rejeitado com tanta explicitação. Os testemunhos se dividem em três blocos.

A favor: Ireneu cita o primeiro Mandamento como "o escrito", fórmula que reserva à Escritura. Clemente de Alexandria cita a obra com naturalidade e trata as visões como revelação. Orígenes a considera "divinamente inspirada", ainda que registre que nem todos concordavam, e a atribui ao Hermas de Romanos 16. O Códice Sinaítico a copia dentro do mesmo volume dos evangelhos e das cartas.

Contra: o Fragmento Muratoriano diz que o Pastor deve ser lido em particular, mas não publicamente na Igreja, "nem entre os profetas, cujo número está completo, nem entre os apóstolos", porque é obra recente demais. Tertuliano, depois de aderir ao montanismo, ataca o livro em Sobre a Pudicícia e o chama de escritura que favorece os adúlteros, justamente por causa da segunda penitência. Eusébio de Cesareia o classifica entre os escritos disputados. Atanásio, na 39ª Carta Festal de 367, o exclui do cânon mas o mantém entre os livros que os catecúmenos devem ler.

Depois disso, a obra sai do circuito litúrgico e vira leitura de catequese, uso que a lista de Atanásio já autorizava. O motivo declarado na exclusão não foi heresia, e sim a datação: para a lista muratoriana, o livro era recente demais para caber entre apóstolos e profetas. Tertuliano, por sua vez, atacou o conteúdo.

Paralelos bíblicos

O Pastor não cita a Bíblia por capítulo e versículo, mas seu vocabulário é claramente devedor da literatura judaica e cristã anterior. Os pontos de contato mais evidentes:

Passagens que dialogam com a obra

  • Paulo saúda um Hermas entre os cristãos de Roma, o candidato de Orígenes a autor(Rm 16:14)
  • O homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos, tema central do livro(Tg 1:8)
  • Purificai os corações, vós de ânimo dobre(Tg 4:8)
  • A semente sufocada pelos cuidados e pela sedução das riquezas(Mt 13:22)
  • Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino(Mt 18:3)
  • A casa edificada sobre a rocha(Mt 7:24)
  • O corpo como templo do Espírito Santo(1Co 6:19)
  • A tribulação produz perseverança, caráter e esperança(Rm 5:3-4)
  • O apelo para que não haja divisões e todos falem a mesma coisa(1Co 1:10)
  • Os cristãos como estrangeiros e peregrinos neste mundo(1Pe 2:11)

Um detalhe único: o Pastor é a única fonte antiga a citar o livro de Eldad e Medat, obra judaica perdida ligada aos dois anciãos que profetizaram no acampamento em Números 11. A citação de Hermas é tudo o que sobrou dela.

O Senhor está próximo daqueles que fazem penitência, como está escrito no livro de Eldad e Medat, que profetizaram para o povo no deserto.

Pastor de Hermas 7:11

(Nm 11:26)

O que está em jogo no livro

O Pastor é o primeiro documento cristão a enfrentar de frente um problema que o Novo Testamento deixou em aberto: o que fazer com o batizado que peca. A resposta que ele dá, uma segunda e última chance concedida por decreto divino num prazo determinado, é um compromisso entre duas posições extremas que já existiam na Roma do século II, a dos rigoristas que negavam qualquer perdão pós-batismal e a dos que dispensavam o problema.

Esse compromisso teve consequências duradouras. A disciplina penitencial que a Igreja antiga desenvolveu nos séculos seguintes, com prazos, provações e reconciliação única, encontra aqui sua primeira formulação escrita. E foi exatamente esse ponto que fez Tertuliano montanista atacar o livro. A obra é, ao mesmo tempo, um documento de piedade popular romana e uma peça central na história da penitência cristã.

Vale também como retrato social. O livro fala sem eufemismo de cristãos ricos que temem ser pedidos, de comerciantes absorvidos pelos negócios, de diáconos que desviam o dinheiro das viúvas, de profetas que cobram para profetizar e de fiéis que sacrificam aos ídolos no primeiro sinal de perseguição. Poucos textos do século II mostram uma comunidade cristã com tantas rachaduras visíveis.