Capítulos

Papiro de Ipuwer
Origem e Contexto Histórico
O Papiro de Ipuwer é um manuscrito egípcio escrito em hierático, conhecido como "Papyrus Leiden I 344 recto" ou "As Admoestações de Ipuwer". A cópia que sobreviveu é da XIX dinastia, por volta de 1250 a.C. O texto que ela copia é bem mais antigo: a egiptologia o data do fim do Médio Império ou do Segundo Período Intermediário, sem consenso sobre o ano. Ele descreve um colapso que alguns associam ao fim do Império Antigo e outros leem como cenário literário, não como crônica de uma crise específica.
Manuscritos

O documento descreve um mundo caótico onde os papéis sociais foram invertidos e o povo se revolta contra o rei do Egito. O texto termina abruptamente, porque falta a parte final do papiro. Algumas calamidades descritas aqui lembram as pragas do Êxodo, e apologistas defendem que o papiro é eco do mesmo evento. A egiptologia majoritária discorda: classifica o texto como literatura de lamento do Médio Império, aparentada dos lamentos sumérios pelas cidades, e observa que ele fala de asiáticos entrando no Egito, não saindo. A relação entre os dois textos segue disputada, e nenhuma das leituras é demonstrável pelo papiro sozinho.
Aqui você encontra a tradução das porções sobreviventes do Papiro de Ipuwer. Lacunas (espaços não preenchidos ou ausências) no texto do papiro são marcadas por [...]. Alguns comentários sobre a tradução estão incluídos nas seções tanto em Português (padrão) quanto em Inglês.
Como o texto está organizado
O papiro traz um único bloco contínuo, dividido nesta edição em dezessete seções e numerado como um só capítulo. O texto avança por fórmulas repetidas que funcionam como marcadores: uma longa série de lamentos abertos por "De fato", depois uma série de constatações abertas por "Veja", em seguida os imperativos "Lembre-se" (uma lista de ritos abandonados), as frases "É de fato bom quando" (a descrição do mundo em ordem, por contraste) e, no fim, o discurso dirigido ao Senhor de Todos. Os blocos abaixo abrem cada uma dessas camadas.
Conteúdo
A ordem social invertida
- Homens pobres se tornaram donos de riquezas, e quem não tinha sandálias agora possui bens — (Papiro de Ipuwer 1:13)
- Os nobres estão em aflição e o pobre em alegria; toda cidade quer suprimir os poderosos — (Papiro de Ipuwer 1:17)
- "A terra gira como a roda de um oleiro": o ladrão possui riquezas — (Papiro de Ipuwer 1:19)
- As escravas falam livremente, e a palavra da senhora irrita as servas — (Papiro de Ipuwer 1:43)
- Quem não podia fazer o próprio caixão agora é dono de um tesouro — (Papiro de Ipuwer 1:81)
- Os pobres da terra enriqueceram e o antigo proprietário nada tem — (Papiro de Ipuwer 1:93)
A terra em colapso
- O Nilo transborda, mas ninguém ara; ninguém sabe o que acontecerá na terra — (Papiro de Ipuwer 1:11)
- Cidades destruídas e o Alto Egito virado em deserto vazio — (Papiro de Ipuwer 1:23)
- Os distritos devastados e estrangeiros entrando no Egito — (Papiro de Ipuwer 1:27)
- Elefantina e Tinis sem pagar impostos por causa das disputas civis — (Papiro de Ipuwer 1:32)
- A cevada pereceu em toda parte e o armazém está vazio — (Papiro de Ipuwer 1:58)
- Os registros dos escribas do cadastro destruídos e o grão virado propriedade comum — (Papiro de Ipuwer 1:64)
Peste, sangue e luto
- A peste em toda a terra, o sangue em toda parte, a morte não falta — (Papiro de Ipuwer 1:15)
- Muitos mortos enterrados no rio; o fluxo virou sepulcro — (Papiro de Ipuwer 1:16)
- O rio é sangue, e os homens ainda bebem dele — (Papiro de Ipuwer 1:21)
- O riso pereceu; o gemido tomou toda a terra — (Papiro de Ipuwer 1:33)
- Grandes e pequenos dizem "eu gostaria de morrer" — (Papiro de Ipuwer 1:37)
- O gado geme por causa do estado da terra — (Papiro de Ipuwer 1:50)
O rei deposto e os segredos revelados
- Os escritos da sala de conselhos privados levados e seus mistérios divulgados — (Papiro de Ipuwer 1:60)
- As leis jogadas fora e pisadas em lugares públicos — (Papiro de Ipuwer 1:65)
- O rei foi deposto pela turba — (Papiro de Ipuwer 1:71)
- O que a pirâmide ocultava ficou vazio, e o sepultado como falcão perdeu o caixão — (Papiro de Ipuwer 1:72)
- A terra privada da realeza por homens sem lei — (Papiro de Ipuwer 1:73)
- A Serpente tirada de seu buraco e os segredos dos reis revelados — (Papiro de Ipuwer 1:77)
Os ritos esquecidos e o mundo em ordem
- Lembre-se de queimar incenso e oferecer água pela manhã — (Papiro de Ipuwer 1:132)
- Lembre-se de erguer mastros e caiar o templo, para agradar o odor do horizonte — (Papiro de Ipuwer 1:135)
- Lembre-se de fixar as datas e afastar o sacerdote impuro do ofício — (Papiro de Ipuwer 1:136)
- É bom quando as mãos dos homens constroem pirâmides e cavam poços — (Papiro de Ipuwer 1:153)
- É bom quando as camas estão preparadas e cada um tem seu lugar à sombra — (Papiro de Ipuwer 1:156)
O discurso ao Senhor de Todos
- Quem deveria corrigir os males é quem os comete, e ninguém age como piloto na hora do dever — (Papiro de Ipuwer 1:143)
- Autoridade, conhecimento e verdade estão contigo, mas o que estabeleces é confusão — (Papiro de Ipuwer 1:146)
- "Deseja um pastor a morte?": a acusação direta ao governante — (Papiro de Ipuwer 1:147)
- O desejo de que o governante provasse um pouco daquela miséria — (Papiro de Ipuwer 1:148)
- O que Ipuwer disse ao dirigir-se à Majestade do Senhor de Todos — (Papiro de Ipuwer 1:161)
- O texto se interrompe entre tumbas e estátuas queimadas — (Papiro de Ipuwer 1:163)
De fato, a terra gira como a roda de um oleiro.
Datação do Papiro
A datação do papiro é incerta e as estimativas variam muito. A do Êxodo também: a cronologia de Eusébio preservada por Jerônimo o põe por volta de 1512 a.C. (século XVI); o Seder Olam Rabbah, da tradição rabínica, em 1312 a.C. (século XIV); a datação tardia mais comum entre os arqueólogos, quando aceitam algum fundo histórico, fica no século XIII a.C. Egiptólogos costumam situar a composição do papiro entre os séculos XX e XVIII a.C., bem antes de qualquer dessas datas. Uma parte dos apologistas contorna isso datando a composição de um período posterior, o que a maioria dos especialistas não aceita.
| Período de Datação | Contexto Egípcio | Consequências |
|---|---|---|
| 2181 a.C. - 2055 a.C. | Primeiro Período Intermediário (Dinastias VII a XI) | Ocorreu muito antes do Êxodo |
| 1991 a.C. - 1802 a.C. | Dinastia XII (Médio Império) | Ocorreu muito antes do Êxodo |
Evidências do Êxodo
Alguns autores apontam paralelos entre o Papiro de Ipuwer e o livro do Êxodo, sobretudo as pragas. O caso mais citado é o rio transformado em sangue, ao lado de uma desolação que atinge ricos e pobres. Egiptólogos respondem que a frase sobre o sangue provavelmente descreve o sedimento vermelho que tinge o Nilo em cheias desastrosas, ou é imagem poética de desordem.
A tabela reúne os paralelos mais citados por quem defende a aproximação.
| Tema | Papiro Ipuwer | Bíblia |
|---|---|---|
| Ouro e prata no pescoço das servas | Papiro Ipuwer 1:29 | Êxodo 12:35-36 |
| Sangue em toda parte | Papiro Ipuwer 1:15 | Êxodo 7:21 |
| Rios transformados em sangue | Papiro Ipuwer 1:21 | Êxodo 7:20-24 |
| Referência à praga de granizo | Papiro Ipuwer 1:44 | Êxodo 9:24-25,31-32 |
| Gado sofre com a praga | Papiro Ipuwer 1:50 | Êxodo 9:2-3 |
| Morte dos primogênitos | Papiro Ipuwer 1:51 | Êxodo 12:29 |
| Luto e Lamento | Papiro Ipuwer 1:33 | Êxodo 12:30 |
| Fogo indo adiante dos israelitas | Papiro Ipuwer 1:70-71 | Êxodo 13:21 |
Vale ler as passagens no próprio papiro antes de julgar a força de cada paralelo: o texto egípcio não narra pragas enviadas por um deus contra o Egito, e sim descreve um colapso social e natural sem causa declarada. Onde o Êxodo tem uma sequência de dez golpes com autor e propósito, o papiro tem lamento acumulado, muitas vezes em frases mutiladas. Os links abaixo levam a cada passagem citada na comparação.
As passagens que alimentam a comparação
- Ouro, prata, lápis-lazúli e turquesa no pescoço das servas — (Papiro de Ipuwer 1:29)
- O sangue em toda parte e a morte que não falta — (Papiro de Ipuwer 1:15)
- O rio é sangue — (Papiro de Ipuwer 1:21)
- As árvores derrubadas e os galhos arrancados — (Papiro de Ipuwer 1:44)
- O gado que geme pelo estado da terra — (Papiro de Ipuwer 1:50)
- Os filhos dos príncipes atirados contra as paredes — (Papiro de Ipuwer 1:51)
- O luto e o gemido por toda a terra — (Papiro de Ipuwer 1:33)
- O fogo que subiu alto e avança contra os inimigos da terra — (Papiro de Ipuwer 1:70)
De fato, o rio é sangue, mas os homens bebem dele.