Capítulos

1 Livro de Adão e Eva
Narrativa cristã antiga que continua o relato de Gênesis a partir do versículo em que Adão e Eva deixam o jardim. Em 79 capítulos, acompanha o casal na Caverna dos Tesouros, a sucessão de enganos de Satã, a instituição das primeiras oferendas, o casamento, o nascimento de Caim e Abel e o primeiro homicídio. É a primeira das duas partes da obra conhecida em inglês como The Conflict of Adam and Eve with Satan.
Autoria e Data de Composição
A obra é anônima e pseudepígrafa: ninguém, nem na Antiguidade, a atribuiu a um autor nomeado. O texto que chegou até nós está em ge'ez (etiópico clássico), traduzido de um original árabe, provavelmente de um cristão do Egito. A datação é debatida. August Dillmann, que publicou a versão alemã no século XIX, propôs os séculos V ou VI. Outros estudiosos preferem os séculos VII a IX, apoiados no fato de que os Anais de Eutíquio de Alexandria (Sa'id ibn Batriq, patriarca de 933 a 940) já trazem as mesmas lendas em formulação quase idêntica, o que fixa um limite superior seguro no século X.
O que não é debatido é o caráter cristão da composição. O livro não é um midrash judaico retrabalhado: a cristologia está no tecido do texto, não em glosas soltas. Deus promete a Adão encarnar-se em sua descendência, morrer, ser sepultado numa rocha por três dias e derramar sangue e água do lado. Quem quer que tenha escrito, escreveu depois do Novo Testamento e a partir dele.
Não confundir com a Vida de Adão e Eva
Circulam sob o rótulo "Livro de Adão e Eva" pelo menos duas obras distintas. Uma é a Vida de Adão e Eva, conservada em latim, com uma recensão grega chamada Apocalipse de Moisés, com penitência no rio Jordão e no Tigre. A origem dela também é disputada: Jan Dochhorn a lê como composição judaica do fim do século I ou início do II; Marinus de Jonge e Johannes Tromp datam a forma grega dos séculos III ou IV e a consideram cristã no estado atual. A outra é esta, o Conflito de Adão e Eva com Satã, cristã, oriental, muito mais longa e com enredo diferente. Os enredos se tocam em motivos isolados (a penitência dentro da água, Satã disfarçado de anjo de luz), mas são livros distintos, de línguas, meios e épocas distintos.
A parceira mais próxima desta obra é a Caverna dos Tesouros siríaca, atribuída na tradição a Efrém, que compartilha o cenário da caverna sob o jardim, o depósito do ouro, do incenso e da mirra, e a cadeia de patriarcas guardiões das relíquias. A dependência é reconhecida, ainda que a direção exata e o número de intermediários continuem discutidos.
Transmissão e traduções
A cadeia usual reconstruída pelos estudiosos é siríaco para árabe, árabe para ge'ez. O texto ge'ez foi editado e traduzido ao alemão por August Dillmann; Ernest Trumpp publicou outra versão alemã, e foi dela que Solomon Caesar Malan fez, em 1882, a tradução inglesa que popularizou a obra no Ocidente. A difusão de massa veio depois, com a antologia The Forgotten Books of Eden (1926), organizada por Rutherford H. Platt, que reimprimiu Malan e é a base de quase todas as edições populares em circulação, inclusive as traduções para o português.
Consequência prática para o leitor: o texto que se lê hoje passou por pelo menos três línguas antes do português. Divergências de nome, número e ordem entre edições são esperadas, e nenhuma versão de bolso deve ser tratada como texto crítico.
A saída do jardim e a Caverna dos Tesouros
Os primeiros dias fora (capítulos 1 a 8)
- Deus manda Adão habitar numa caverna dentro da rocha, a Caverna dos Tesouros, abaixo do jardim — (1 Livro de Adão e Eva 1:9)
- Ao verem a terra coberta de pedras e areia, os dois se prostram e ficam como mortos — (1 Livro de Adão e Eva 2:2)
- Deus explica que os "cinco dias e meio" são cinco mil e quinhentos anos até a vinda do Salvador — (1 Livro de Adão e Eva 3:6)
- Adão chama a caverna de prisão e lugar de castigo, e a compara ao jardim — (1 Livro de Adão e Eva 4:3)
- Eva assume a culpa da queda e pede que Deus tome sua alma junto com a de Adão — (1 Livro de Adão e Eva 5:8)
- Deus atribui a desobediência ao desejo de divindade e de condição sublime — (1 Livro de Adão e Eva 6:5)
- As feras recebem ordem de não atacar o casal, com uma exceção: a serpente — (1 Livro de Adão e Eva 7:9)
- Perdida a natureza luminosa, Adão passa a enxergar só o que está ao alcance da carne — (1 Livro de Adão e Eva 8:2)
A água, a escuridão e as tentativas de morrer (capítulos 9 a 16)
- Os dois se lançam na água que irriga o jardim, querendo pôr fim a si mesmos — (1 Livro de Adão e Eva 9:9)
- Um anjo os retira da água e os deita na praia como mortos — (1 Livro de Adão e Eva 10:1)
- Dentro da caverna a escuridão os separa: cada um só ouve o ruído do outro — (1 Livro de Adão e Eva 11:4)
- A Palavra de Deus ressuscita Adão e devolve a fala a Eva — (1 Livro de Adão e Eva 12:6)
- Deus explica que a noite não dura para sempre, apenas doze horas, e depois a luz volta — (1 Livro de Adão e Eva 13:10)
- Promessa de que Deus tomará carne da descendência de Adão e enfrentará a mesma escuridão no túmulo — (1 Livro de Adão e Eva 14:4)
- Adão vê o nascer do sol e pensa que o sol é Deus — (1 Livro de Adão e Eva 16:6)
- A Palavra corrige: o sol não é Deus, foi criado para iluminar o dia — (1 Livro de Adão e Eva 16:11)
A serpente muda e o primeiro altar (capítulos 17 a 25)
- A serpente, antes o mais belo dos animais, agora rasteja e come o pó — (1 Livro de Adão e Eva 17:4)
- Depois de atacar o casal, a serpente é emudecida e levada pelo vento até a Índia — (1 Livro de Adão e Eva 18:9)
- Adão se lança do alto da montanha e fica próximo da morte — (1 Livro de Adão e Eva 21:4)
- Eva se lança atrás dele e jaz como morta sobre as pedras — (1 Livro de Adão e Eva 21:7)
- Os dois erguem um altar com as pedras do lugar — (1 Livro de Adão e Eva 23:4)
- Recolhem o próprio sangue misturado ao pó e o oferecem sobre o altar — (1 Livro de Adão e Eva 23:5)
- Um fogo enviado da presença de Deus consome a oferenda — (1 Livro de Adão e Eva 24:2)
- Deus proíbe Adão de se matar outra vez para repetir a oferenda de sangue — (1 Livro de Adão e Eva 25:2)
- A primeira oferenda de Adão se torna hábito — (1 Livro de Adão e Eva 25:8)
Satã, o adversário recorrente
O antagonista da obra não é a morte nem o exílio, é Satã. Ele reaparece em ciclos, sempre com o mesmo método: assumir a forma que a vítima está disposta a receber. Anjo de luz, ancião de cabelos brancos, mensageiro celeste, homem do campo, leão faminto, donzela saída do rio. A moldura teológica é explícita: o engano depende do disfarce, e o disfarce é desfeito quando Adão pergunta a Deus em vez de responder sozinho.
O anjo de luz e os três dons (capítulos 26 a 31)
- Satã transforma suas hostes, cerca a caverna de luz e as faz cantar louvores — (1 Livro de Adão e Eva 27:2)
- Adão desconfia: se fossem de Deus, entrariam e diriam a que vieram — (1 Livro de Adão e Eva 27:8)
- Um anjo revela o disfarce e mostra Satã em sua forma verdadeira — (1 Livro de Adão e Eva 27:12)
- Satã os conduz ao topo de uma montanha altíssima pretendendo lançá-los de lá — (1 Livro de Adão e Eva 28:10)
- Miguel é enviado ao mar da Índia para trazer bastões de ouro — (1 Livro de Adão e Eva 29:6)
- Gabriel desce ao jardim e recebe do querubim o incenso perfumado — (1 Livro de Adão e Eva 30:1)
- Rafael é enviado ao jardim para tratar com o querubim sobre a mirra — (1 Livro de Adão e Eva 30:4)
- Os três dons ficam com Adão como sinal do reino, da divindade e do sofrimento futuros — (1 Livro de Adão e Eva 31:2)
- O inventário: setenta bastões de ouro, doze libras de incenso e três de mirra — (1 Livro de Adão e Eva 31:9)
- A explicação do nome da caverna, e a versão alternativa que a liga aos corpos dos justos — (1 Livro de Adão e Eva 31:10)
Pois Eu virei e salvar-te-ei; e reis trarão para Mim, quando vestido de carne, ouro, incenso e mirra; ouro como sinal do Meu reino; incenso como sinal de Minha natureza divina; e mirra como símbolo de Meu sofrimento e de Minha morte.
A passagem lê os presentes dos magos como um cumprimento anunciado no princípio do mundo. O texto do evangelho é o outro lado dessa leitura.
Jejum na água, fome e os dois figos (capítulos 32 a 42)
- Adão e Eva entram na água e permanecem de pé orando até o fim de trinta e cinco dias — (1 Livro de Adão e Eva 32:8)
- Satã evita Adão, dirige-se a Eva e assume a forma de um anjo de Deus — (1 Livro de Adão e Eva 33:4)
- Eva acredita na aparição e sai da água antes de cumprir o voto — (1 Livro de Adão e Eva 33:8)
- Adão relembra a criação na terceira hora de uma sexta-feira e a nomeação dos animais — (1 Livro de Adão e Eva 34:7)
- O querubim traz dois figos das mesmas árvores em que o casal se escondera — (1 Livro de Adão e Eva 36:2)
- Adão e Eva se contêm e preferem pedir o fruto da Árvore da Vida — (1 Livro de Adão e Eva 37:2)
- Deus adia o fruto da Árvore da Vida para o cumprimento dos cinco mil e quinhentos anos — (1 Livro de Adão e Eva 38:2)
- Pedem a Água da Vida na nascente onde o rio se divide em quatro correntes — (1 Livro de Adão e Eva 41:5)
- A resposta: a Água da Vida será o sangue derramado na terra do Gólgota — (1 Livro de Adão e Eva 42:7)
O fogo em volta da caverna e a rocha (capítulos 43 a 49)
- Satã junta lenha e ateia fogo ao redor da caverna para consumi-la — (1 Livro de Adão e Eva 43:14)
- A Palavra de Deus manda Satã se afastar e ele foge — (1 Livro de Adão e Eva 44:4)
- Ao atravessarem a passagem aberta no fogo, os dois têm os corpos chamuscados — (1 Livro de Adão e Eva 46:1)
- Satã calcula que, matando Adão, ficaria com a terra sem herdeiros — (1 Livro de Adão e Eva 47:8)
- As hostes escolhem uma rocha lisa e sem furos para esmagar o casal adormecido — (1 Livro de Adão e Eva 48:5)
- Por ordem de Deus a rocha se torna cobertura e não os fere — (1 Livro de Adão e Eva 48:7)
- A rocha é apresentada como sinal do sepultamento e dos três dias antes da ressurreição — (1 Livro de Adão e Eva 49:8)
Vestes de pele e novos assédios (capítulos 50 a 59)
- Deus indica peles de carneiro deixadas por leões para que façam vestimentas — (1 Livro de Adão e Eva 50:7)
- Satã tenta destruir as peles e é preso ao lado delas até o casal chegar — (1 Livro de Adão e Eva 51:4)
- Adão observa que vestir peles de animais mortos é levar sobre si uma marca da morte — (1 Livro de Adão e Eva 52:2)
- Um anjo trabalha as peles diante deles e mostra como enfiar os espinhos — (1 Livro de Adão e Eva 52:6)
- Satã aparece na forma de dois leões enfurecidos — (1 Livro de Adão e Eva 53:1)
- Deus anuncia o dilúvio que virá sobre a descendência que se corromper — (1 Livro de Adão e Eva 53:7)
- O querubim avança com a espada de fogo e a chama não faísca sobre eles — (1 Livro de Adão e Eva 54:5)
- Os anjos narram a revolta de Satã, as promessas feitas às hostes e a queda do céu — (1 Livro de Adão e Eva 55:9)
- Deus desafia Adão a pedir a Satã um jardim, um corpo e uma alma racional — (1 Livro de Adão e Eva 56:6)
- Satã se identifica como o que se escondeu na serpente e admite que nunca cumpre o que promete — (1 Livro de Adão e Eva 57:5)
- As hostes invadem a caverna na trigésima noite do jejum e golpeiam o casal até deixá-lo morto — (1 Livro de Adão e Eva 59:3)
O velho de cabelos brancos e as figueiras (capítulos 60 a 65)
- Satã se apresenta como criatura de carne e osso, a primeira feita por Deus — (1 Livro de Adão e Eva 60:6)
- Ele apela aos próprios cabelos brancos e chora diante de Adão e Eva — (1 Livro de Adão e Eva 60:26)
- A Palavra de Deus amaldiçoa Satã e manda o casal voltar para a caverna — (1 Livro de Adão e Eva 61:2)
- Satã enterra os dois figos do lado de fora da caverna para escondê-los — (1 Livro de Adão e Eva 62:2)
- Deus faz crescer ali duas figueiras e frustra o plano do adversário — (1 Livro de Adão e Eva 63:9)
- Ao comerem os figos, sentem neles uma mistura de pão saboroso e sangue — (1 Livro de Adão e Eva 64:7)
- A dor do primeiro alimento e a constatação de que agora pertencem à terra — (1 Livro de Adão e Eva 65:9)
Trigo, oblação e o lado trespassado (capítulos 66 a 69)
- Descem à terra do solo escuro e encontram ali trigo espigado e maduro — (1 Livro de Adão e Eva 66:8)
- Deus dá a Adão a sabedoria de transformar o cereal em pão — (1 Livro de Adão e Eva 66:9)
- Satã queima o monte de trigo e entorna a bilha de água — (1 Livro de Adão e Eva 67:5)
- Numa árvore encontram maná sólido, e os anjos mandam comer dele quando tiverem fome — (1 Livro de Adão e Eva 68:8)
- A oblação de trigo é interpretada como figura da carne oferecida continuamente no altar — (1 Livro de Adão e Eva 68:12)
- Adão fixa a oferenda em três dias por semana: quarta, sexta e domingo — (1 Livro de Adão e Eva 68:20)
- Satã trespassa o lado direito de Adão com uma pedra afiada, e saem sangue e água — (1 Livro de Adão e Eva 69:3)
- Deus diz que o mesmo lhe acontecerá quando for trespassado — (1 Livro de Adão e Eva 69:6)
O episódio do lado trespassado é o ponto em que a tipologia da obra fica mais explícita. O leitor de língua portuguesa reconhece de imediato a cena do evangelho a que o texto se dirige.
Casamento, filhos e o primeiro homicídio (capítulos 70 a 79)
- Satã e dois companheiros se passam pelos anjos do ouro, do incenso e da mirra — (1 Livro de Adão e Eva 70:9)
- Adão é induzido a jurar de mãos dadas antes de saber o que lhe será pedido — (1 Livro de Adão e Eva 70:15)
- Adão desmascara os visitantes e os expulsa como demônios — (1 Livro de Adão e Eva 71:3)
- Satã e dez de suas hostes se transformam em donzelas de beleza incomparável — (1 Livro de Adão e Eva 72:1)
- As falsas donzelas chamam do outro lado do rio e de lá saem maridos e filhos — (1 Livro de Adão e Eva 72:7)
- Adão recusa decidir sobre o casamento sem uma ordem de Deus — (1 Livro de Adão e Eva 72:19)
- Os anjos mandam entregar o ouro a Eva como presente de casamento — (1 Livro de Adão e Eva 73:4)
- Da saída do jardim ao casamento passam duzentos e vinte e três dias — (1 Livro de Adão e Eva 73:8)
- No oitavo dia os pais dão nome ao primogênito e à irmã: Caim e Luluva — (1 Livro de Adão e Eva 74:6)
- O nome Caim é lido como "aquele que odeia" — (1 Livro de Adão e Eva 74:7)
- Nascem Abel e sua irmã Aclia, e Eva não concebe mais — (1 Livro de Adão e Eva 75:11)
- Satã instiga Caim contra Abel usando a partilha das irmãs em casamento — (1 Livro de Adão e Eva 76:10)
- Deus aceita a oferenda de Abel por causa do coração, antes do presente — (1 Livro de Adão e Eva 77:5)
- Caim empurra Abel do altar para oferecer sozinho o próprio presente — (1 Livro de Adão e Eva 78:18)
- Abel junta as pedras que estavam à mão e oferece sobre elas — (1 Livro de Adão e Eva 78:19)
- Caim atrai Abel ao campo com o pretexto de abençoar os rebanhos — (1 Livro de Adão e Eva 78:35)
- Abel suplica ao irmão pelo ventre que os carregou — (1 Livro de Adão e Eva 79:6)
- Caim mata Abel com uma pedra e não se arrepende — (1 Livro de Adão e Eva 79:7)
- A terra rejeita o corpo de Abel três vezes seguidas — (1 Livro de Adão e Eva 79:13)
- Os sete castigos são interpretados como as sete gerações reservadas a Caim — (1 Livro de Adão e Eva 79:27)
Ó meu irmão, tem piedade de mim. Pelos seios que sugamos, não me golpeies! Pelo ventre que nos carregou e nos trouxe ao mundo, não me golpeies até a morte com esta vara!
Gênesis narra o homicídio em um único versículo, sem diálogo. A obra preenche o silêncio com uma cena inteira, e é esse tipo de expansão que caracteriza o livro do começo ao fim.
Relação com o texto de Gênesis
O livro se apoia em um punhado de ganchos do relato canônico e desenvolve cada um deles: a expulsão, o querubim com a espada, as túnicas de peles, as duas ofertas, o assassinato de Abel. Onde Gênesis é lacônico, esta obra é minuciosa. A promessa de um descendente que ferirá a cabeça da serpente é o eixo em torno do qual todo o enredo de consolação se organiza.
As túnicas de peles são outro caso claro de expansão: no texto canônico Deus veste o casal, e ponto. Aqui há a busca das peles, a tentativa de Satã de destruí-las, o anjo que ensina a costura e a reflexão de Adão sobre vestir a morte de outro ser vivo.
Nem tudo é expansão: há divergência. O texto canônico não conhece a Caverna dos Tesouros, nem os bastões de ouro, nem as irmãs gêmeas Luluva e Aclia, nem uma promessa explícita de encarnação feita a Adão. São acréscimos da tradição posterior, e o livro os apresenta como se fossem o próprio relato antigo.
O disfarce de Satã e o Novo Testamento
A cena em que Satã cerca a caverna de luz e põe suas hostes a cantar louvores é a aplicação narrativa de uma imagem paulina. A obra a dramatiza mais de uma vez, sempre com o mesmo desfecho: o disfarce cai quando Adão para de deduzir e passa a perguntar.
Cronologia dos cinco mil e quinhentos anos
O número que estrutura o livro inteiro é 5.500: o intervalo entre a saída do jardim e a vinda do Salvador. Adão entende mal a expressão "cinco dias e meio" e Deus a converte em anos, com base na equivalência entre um dia e mil anos. Essa cronologia não é invenção da obra: circulava na cronografia cristã antiga, aparece na Caverna dos Tesouros siríaca e em computistas que situavam a encarnação no ano 5500 da criação. A presença dela é mais um indício de composição em ambiente cristão oriental, não judaico.
Canonicidade e recepção
A obra nunca foi canônica em tradição alguma, e isso inclui a Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, cujo cânon amplo abriga livros como Jubileus e 1 Enoque mas não este. O livro circulou em ge'ez como leitura devocional e narrativa, não como Escritura. Em árabe teve circulação suficiente para que suas lendas reaparecessem nos Anais de Eutíquio de Alexandria, no século X.
No Ocidente moderno, a fama do livro vem quase toda da antologia de 1926 de Platt, que o apresentou junto a outros textos sob o rótulo comercial de "livros esquecidos do Éden". O rótulo sugere supressão deliberada, o que não corresponde ao que se sabe: não há registro de concílio, decreto ou lista que tenha proibido esta obra especificamente. Ela simplesmente não foi recebida como Escritura em lugar nenhum.
Como ler
O valor histórico da obra não está em informar sobre Adão, e sim em documentar como o cristianismo oriental dos primeiros séculos imaginava o mundo imediatamente após a queda: uma terra hostil, um adversário incansável, uma liturgia nascente de jejum, altar e oblação, e uma promessa de reparação datada com precisão aritmética. Lida assim, é uma fonte de primeira ordem sobre piedade e imaginação cristã antiga, e não um suplemento do livro de Gênesis.