Visão do Trono de Deus
Capítulos

1 Enoque
Autoria e Data de Composição
1 Enoque é tradicionalmente atribuído a Enoque, o sétimo patriarca depois de Adão (Gn 5:18-24), sobre quem o Gênesis diz que "andou com Deus e já não era, porque Deus o tomou". Esta atribuição é pseudoepigráfica: o texto não foi escrito pelo Enoque do Gênesis, mas colocado sob seu nome, prática comum na literatura apocalíptica judaica.
Na prática, 1 Enoque não é um livro único, e sim uma coletânea de cinco obras de autores e épocas diferentes, reunidas ao longo do tempo. O consenso acadêmico data o conjunto entre o século 3 a.C. e o século 1 d.C., o que faz da seção mais antiga uma das primeiras apocalípticas judaicas conhecidas. As partes mais recuadas (o Livro dos Vigilantes e o Livro Astronômico) remontam ao século 3 a.C.; o Livro das Parábolas, que introduz o Filho do Homem, é geralmente datado do século 1 d.C. O texto foi escrito em aramaico e hebraico, mas só sobreviveu por inteiro na tradução ge'ez (etíope clássico).
Os Vigilantes, os Nefilim e Gênesis 6
O coração de 1 Enoque é a expansão de quatro versículos enigmáticos do Gênesis (Gn 6:1-4), onde "os filhos de Deus" tomam por esposas "as filhas dos homens" e geram os Nefilim. O Gênesis é lacônico; 1 Enoque transforma isso numa narrativa detalhada. Duzentos anjos, chamados Vigilantes, descem ao Monte Hermom e juram um pacto para tomar mulheres humanas 1 Enoque 6:1-6. Seus líderes são Semjaza (Shemihazah) e Azazel.
Da união nascem os gigantes, que devastam a terra 1 Enoque 7, enquanto Azazel ensina aos homens a metalurgia, as armas, a feitiçaria e os cosméticos 1 Enoque 8. O livro oferece então uma explicação para a origem dos demônios: quando os gigantes morrem, seus espíritos permanecem na terra como espíritos malignos 1 Enoque 15. Deus ordena que os anjos culpados sejam acorrentados até o juízo final e que a terra seja purificada pelo dilúvio 1 Enoque 10.
Vale notar que a leitura de "filhos de Deus" como anjos é apenas uma das interpretações de Gênesis 6. Vários pais da igreja, como Agostinho e João Crisóstomo, defenderam que se tratava dos descendentes piedosos de Sete, e não de seres celestes. As duas leituras aparecem na seção de recepção patrística abaixo.
Eventos do Livro
A divisão em cinco livros, às vezes chamada de "Pentateuco enóquico", organiza materiais de origens distintas. Abaixo, os blocos com suas datações aproximadas e as passagens-chave de cada um.
Livro dos Vigilantes (capítulos 1 a 36)

- A descida dos Vigilantes e o juramento sobre o Monte Hermom — (1 Enoque 6)
- A união com mulheres humanas e o nascimento dos gigantes — (1 Enoque 7)
- Azaziel ensina os homens a forjar armas e artes proibidas — (1 Enoque 8)
- O julgamento dos anjos caídos e o aviso a Noé — (1 Enoque 10)
- Visão da casa de fogo e do trono divino — (1 Enoque 14)
- A origem dos demônios a partir dos espíritos dos gigantes — (1 Enoque 15)
- As câmaras dos mortos — (1 Enoque 22)
- A árvore da vida — (1 Enoque 25)
Provavelmente a parte mais antiga junto ao Livro Astronômico, datada por volta do século 3 a.C.
Livro das Parábolas (capítulos 37 a 71)

- O Ancião de Dias e o Filho do Homem — (1 Enoque 46)
- O Filho do Homem nomeado antes da criação — (1 Enoque 48)
- O julgamento dos reis e poderosos — (1 Enoque 62)
- A ascensão de Enoque ao céu — (1 Enoque 71)
A única das cinco seções ausente em Qumran. Muitos estudiosos a datam do século 1 d.C. Contém a figura do Filho do Homem.
Livro Astronômico (capítulos 72 a 82)

- O curso das luminárias e o calendário solar de 364 dias — (1 Enoque 72)
- Uriel mostra a Enoque a ordem dos céus — (1 Enoque 80)
- Os livros entregues a Matusalém e os líderes das estrelas — (1 Enoque 82)
Junto ao Livro dos Vigilantes, uma das partes mais antigas, por volta do século 3 a.C.
Livro dos Sonhos (capítulos 83 a 90)

- O primeiro sonho: o dilúvio — (1 Enoque 85)
- A visão dos animais: a história de Israel em alegoria — (1 Enoque 89)
Visões simbólicas da história, provavelmente escritas por volta de 160 a.C.
Epístola de Enoque (capítulos 91 a 108)

- Enoque exorta os filhos antes de partir — (1 Enoque 91)
- O Apocalipse das Semanas: a história dividida em dez semanas — (1 Enoque 93)
- Os ais contra os ricos e violentos — (1 Enoque 94)
- A esperança dos justos: seus nomes inscritos no céu — (1 Enoque 104)
- O nascimento extraordinário de Noé — (1 Enoque 106)
A parte final, composta em camadas até o início da era cristã.
O Filho do Homem
No Livro das Parábolas, Enoque vê o Ancião de Diase, ao seu lado, uma figura "cujo semblante assemelhava-se ao de um homem": o Filho do Homem 1 Enoque 46:1-3. Essa figura é apresentada como um ser pré-existente, nomeado antes da criação 1 Enoque 48:2-3, que se assenta no trono de glória para julgar os reis e os poderosos da terra 1 Enoque 62.
A relação entre esse Filho do Homem e o título usado por Jesus nos evangelhos é debatida. Alguns estudiosos veem nas Parábolas um pano de fundo direto para a linguagem do Novo Testamento; outros apontam que essa seção é justamente a única não encontrada entre os manuscritos de Qumran, o que dificulta saber se ela é anterior, contemporânea ou posterior aos evangelhos. Não há consenso sobre a direção da influência.
Menções no Cânon Bíblico
1 Enoque é citado de forma explícita no Novo Testamento. A referência mais clara está em Jd 1:14-15, onde o autor atribui a Enoque, "o sétimo a partir de Adão", uma profecia sobre o juízo. A citação é quase idêntica ao texto de 1 Enoque 1:12.
Há também paralelos com a descrição dos anjos caídos (capítulos 6 a 11) em 2Pe 2:4 e Jd 1:6, que falam de anjos que não guardaram o seu estado original. Alguns leem ecos do mesmo imaginário em 1Pe 3:19-20, sobre os "espíritos em prisão".
Parábola do Rico e Lázaro
A parábola do Rico e Lázaro (Lc 16:19-31) apresenta paralelos com as visões de 1 Enoque. Em ambas, os mortos são separados por uma barreira intransponível, com os justos em consolo e os ímpios em tormento. A ideia de diferentes moradas para os mortos é detalhada em 1 Enoque 22, onde os espíritos aguardam o julgamento em câmaras separadas.
Paralelos com o Apocalipse
São muitos os pontos de contato entre 1 Enoque e o Apocalipse, tanto em imagens (o trono, a árvore da vida, as bestas) quanto na estrutura do juízo final.
Árvore da vida
Anjos glorificam a Deus
Os mortos são entregues para julgamento
Messias reina sobre as nações
Reis e poderosos lançados no fogo
Anjos prendem demônios
4 anjos e 4 cavaleiros recebem autoridade pra punir
Um monstro (ou besta) que vem do mar
Um monstro (ou besta) que vem da terra
Anjos realizam medições
Messias destrói com as palavras
Justos recebem vestes
O Livro dos Gigantes
Ligado de perto a 1 Enoque há uma obra distinta, o Livro dos Gigantes, que expande a história dos filhos dos Vigilantes e dá nome a alguns deles. Fragmentos em aramaico foram identificados entre os Manuscritos do Mar Morto, em Qumran. Esse livro não foi preservado na versão etíope de 1 Enoque e, por isso, ficou conhecido por séculos apenas por meio de fontes posteriores.
Séculos depois, o Livro dos Gigantes tornou-se uma das escrituras centrais do maniqueísmo, a religião fundada por Mani no século 3 d.C., que o traduziu e difundiu em várias línguas. A relação exata entre a obra original judaica e a versão maniqueia é debatida, mas a dependência de uma sobre a outra é amplamente aceita.
Recepção entre os Pais da Igreja
A discussão sobre a autoridade de 1 Enoque é antiga, e muitos pais da igreja escreveram sobre ela. Alguns o tratavam como inspirado, caso de Justino Mártir e Tertuliano. Outros o rejeitavam, caso de Jerônimo e Agostinho. A maior parte das citações abaixo gira em torno da queda dos anjos e da origem dos demônios, o tema que mais marcou a recepção do livro.
Mas os anjos transgrediram esta ordem, e foram capturados pelo desejo das mulheres, e geraram filhos que são chamados de demônios; e, além disso, dizem que esses filhos ensinaram às mulheres toda espécie de encantamentos e artes mágicasDiálogo com Trifão, 79
Justino Mártir (100-165)
Mas os anjos, violando essa ordem, deixaram-se vencer por seu amor pelas mulheres e geraram filhos, que são os chamados demôniosPrimeira Apologia, 5
Justino Mártir (100-165)
Digamos a verdade: antigamente, alguns demônios perversos, fazendo suas aparições, violaram as mulheres, corromperam os jovens e mostraram espantalhos aos homens. Com isso, ficaram apavorados aqueles que não julgavam pela razão as ações praticadas e assim, levados pelo medo e não sabendo que eram demônios maus, deram-lhes nomes de deuses e chamaram cada um com o nome que cada demônio havia posto em si mesmoSegunda Apologia, 5
Justino Mártir (100-165)
Deus fez o universo por meio de Sua Palavra, e ordenou aos anjos que governassem os elementos e os céus. Mas a parte deles que recebeu o encargo sobre a terra falhou em sua administração. Esses anjos se apaixonaram pelas mulheres e geraram filhos, os quais são chamados de gigantes. Eles ensinaram aos homens tudo o que é ilícito, levando-os à idolatria e à feitiçaria.Súplica pelos Cristãos (Legatio), 24
Atenágoras de Atenas (133-190)
Quando uma multidão de anjos foi enviada para proteger os homens e assegurar sua obediência a Deus, aquele que era o principal entre eles, ao ver a beleza das mulheres, foi seduzido por seu encanto e persuadiu os outros a abandonarem sua lealdade a Deus. Assim, esses anjos caíram para a terra e, tomando para si esposas humanas, geraram uma raça perversa.Instituições Divinas, 2:15
Lactâncio (250-325)
Os gigantes que nasceram dessas uniões foram destruídos por Deus em razão de sua maldade. Mas seus espíritos, uma vez que eram gerados por seres celestes, continuaram a existir e passaram a perambular pelo mundo, causando perturbação e engano entre os homens. Esses são os demônios que agora enganam as naçõesInstituições Divinas, 4:26
Lactâncio (250-325)
Os espíritos que estão sob o céu foram designados para governar as ordens do mundo, mas, ao se tornarem amantes do mal, perverteram a humanidade e a ensinaram a cometer toda sorte de iniquidade. Desse modo, a idolatria nasceu da transgressão desses anjos, e os homens passaram a adorar imagens em vez do Deus verdadeiro.Discurso Grego, 7
Taciano (120-180)
Neste mundo existem poderes e anjos que foram designados por Deus para governar as nações. Porém, alguns deles se tornaram apóstatas e perverteram a humanidade com falsas doutrinas e idolatria. Assim, os homens foram levados a adorar falsos deuses e a se afastar do Criador.Contra as Heresias IV, 36:4
Irineu de Lyon (130-202)
Por essa razão, no dilúvio, Deus destruiu a raça dos gigantes, os quais, por sua imensa estatura e força, eram impiedosos e pecadores, trazendo grande corrupção à humanidade.Contra as Heresias V, 5:1
Irineu de Lyon (130-202)
Os espíritos desses gigantes, que foram destruídos pelo dilúvio, agora vagueiam pelo mundo como espíritos malignos. Eles tentam os homens e os afastam do Deus verdadeiro, pois foram gerados por uma união ilícita entre anjos e mulheres humanas.Contra as Heresias V, 24:4
Irineu de Lyon (130-202)
Eu sei que o Livro de Enoque não é recebido por alguns, pois eles não o consideram como Escritura. Mas, sendo ele citado por Judas, não pode ser rejeitado e tem valor para nós.Sobre o Véu das Virgens, 7
Tertuliano (160-220)
Os anjos caídos, ao se unirem às filhas dos homens, ensinaram-lhes artes ilícitas, feitiçarias, encantamentos e toda sorte de idolatria. E é assim que os homens aprenderam a criar imagens e adorar os astros.Sobre a Idolatria, 4
Tertuliano (160-220)
Os demônios não são nada mais do que os espíritos dos gigantes, gerados pela união dos anjos com mulheres mortais. Como punição, Deus os condenou a vagar pela terra e a enganar os homens.Apologia, 22
Tertuliano (160-220)
O mundo antigo foi destruído por um dilúvio porque os anjos, que foram enviados para governá-lo, se tornaram corruptos e geraram uma raça de seres impiedosos.Sobre a Paciência, 5
Tertuliano (160-220)
Os anjos, que foram enviados para supervisionar a Terra, corromperam-se com as mulheres e ensinaram aos homens toda sorte de artes proibidas, como a feitiçaria, a idolatria e a astrologia.Stromata V, 1:10
Clemente de Alexandria (150-215)
E assim, Enoque, agradando ao Senhor, foi levado e não viu a morte. Ele ensinou muitas verdades antes de ser tomado, e os santos preservaram suas palavras.Stromata, 6:11
Clemente de Alexandria (150-215)
Os demônios são os espíritos dos gigantes que pereceram no dilúvio. Uma vez que foram gerados por uma união ilícita entre anjos e mulheres, agora vagueiam pelo mundo, enganando e tentando os homens.Pedagogo, 3:2
Clemente de Alexandria (150-215)
Aqueles que foram estabelecidos como príncipes sobre as nações não cumpriram seu dever corretamente, desviaram-se e caíram, tornando-se os espíritos malignos que agora governam as trevas deste mundo.De Principiis, 1.3.3
Orígenes (185-253)
Enoque, sobre quem as Escrituras testemunham que andou com Deus e foi tomado, nos deixou ensinamentos que, embora não estejam na Lei, foram preservados por alguns como escritos valiosos.Contra Celso, 5.52
Orígenes (185-253)
Os gigantes, descendentes da união ilícita dos anjos com as mulheres, foram destruídos pelo dilúvio, mas seus espíritos não pereceram. Eles vagueiam sobre a terra, perturbando os homens.Homilias sobre Números, 28.2
Orígenes (185-253)
Diz-se que os anjos que caíram do céu ensinaram à humanidade diversos conhecimentos proibidos, corrompendo assim as mentes dos homens e levando-os à idolatria.Preparação Evangélica, 5.4
Eusébio de Cesareia (260-339)
Antes do dilúvio, os gigantes, nascidos da união dos anjos com as filhas dos homens, espalharam a violência sobre a terra. Mas, pelo juízo divino, foram destruídos pelas águas, restando apenas sua memória nos registros antigos.Crônica, Livro 1
Eusébio de Cesareia (260-339)
Orígenes menciona que o Livro de Enoque era conhecido entre alguns dos antigos, mas não foi aceito universalmente na Igreja, pois sua origem não era clara.História Eclesiástica, 6.25.2
Eusébio de Cesareia (260-339)
Os antigos registram que os gigantes nasceram da união dos anjos caídos com as filhas dos homens. No entanto, tais escritos não são aceitos pela Igreja, pois não fazem parte das Escrituras canônicas.Comentário sobre Daniel, 4.22
Jerônimo (347-420)
Judas, ao citar Enoque, refere-se a uma tradição conhecida entre os judeus, mas não devemos considerar o livro como inspirado, pois sua autenticidade é questionável.Comentário sobre Judas, verso 14
Jerônimo (347-420)
Os demônios que agora atormentam a humanidade são os espíritos dos gigantes destruídos pelo dilúvio. Essa crença é antiga, mas deve ser analisada com cautela, pois não há certeza sobre sua origem.Epístola a Vigilâncio, 5
Jerônimo (347-420)
Muitos acreditam que os "filhos de Deus" mencionados em Gênesis eram anjos que tomaram esposas humanas e geraram gigantes. No entanto, essa interpretação não é aceita universalmente, pois pode ser entendida de outra forma.A Cidade de Deus, 15.23
Agostinho de Hipona (354-430)
Dizem que o Livro de Enoque contém relatos sobre esses anjos caídos, mas tal obra não é aceita como canônica, e devemos ter cautela ao considerá-la como verdade histórica.A Cidade de Deus, 18.38
Agostinho de Hipona (354-430)
Aqueles que afirmam que os anjos pecaram ao se unirem às filhas dos homens interpretam erroneamente as Escrituras. Esses "filhos de Deus" referem-se, na verdade, aos descendentes piedosos de Sete.Sobre o Gênesis contra os Maniqueus, 2.17
Agostinho de Hipona (354-430)
Os anjos caídos, ao desejarem as filhas dos homens, deixaram seu estado celestial e cometeram grande transgressão. Dessa união nasceram os gigantes, que trouxeram destruição à terra.Panarion, 46.1
Epifânio de Salamina (310-403)
Algumas seitas heréticas aceitam o Livro de Enoque como Escritura, mas a Igreja rejeita tal obra, pois sua origem é duvidosa e não está na tradição apostólica.Panarion, 48.3
Epifânio de Salamina (310-403)
Os espíritos dos gigantes, que foram destruídos pelo dilúvio, continuam a agir sobre os homens como demônios. Essa crença tem origem em escritos antigos, mas deve ser considerada com prudência.Panarion, 55.6
Epifânio de Salamina (310-403)
Os anjos, que foram designados para guardar a criação, não permaneceram em sua dignidade e desejaram as filhas dos homens, tornando-se causa de corrupção para a humanidade.Banquete das Dez Virgens, 7.5
Metódio de Olimpo (?-311)
Dizem que os gigantes nasceram de uma união proibida entre seres celestiais e mortais, e por sua grande iniquidade trouxeram destruição sobre a terra. No entanto, devemos olhar para essas tradições com discernimento.Sobre a Ressurreição, 2.6
Metódio de Olimpo (?-311)
Os demônios, que hoje influenciam os homens ao mal, são tidos por alguns como os espíritos dos gigantes, aqueles que pereceram no grande dilúvio. Essa crença é antiga, mas não deve substituir o ensinamento claro das Escrituras.Sobre o Livre Arbítrio, 1.14
Metódio de Olimpo (?-311)
Alguns interpretam os "filhos de Deus" como anjos que se uniram às mulheres, mas essa explicação é absurda e inaceitável. Os anjos são seres espirituais e não possuem natureza carnal.Homilias sobre Gênesis, 6.4
João Crisóstomo (347-407)
Judas menciona Enoque e sua profecia contra os ímpios, mas o livro atribuído a Enoque não deve ser aceito como Escritura, pois sua autenticidade é questionável.Homilia sobre Judas, verso 14
João Crisóstomo (347-407)
Os demônios que hoje enganam os homens não são os espíritos de gigantes ou qualquer outra superstição, mas anjos que caíram por orgulho e se tornaram servos de Satanás.Homilias sobre Mateus, 58.3
João Crisóstomo (347-407)
Alguns dizem que os filhos de Deus que tomaram as filhas dos homens eram anjos, mas isso não pode ser aceito. Os anjos não possuem corpo material nem desejos carnais.Hexameron, 2.5
Ambrósio de Milão (340-397)
Os demônios, que hoje atormentam os homens, não são espíritos dos gigantes, mas anjos decaídos que, em sua rebelião, foram expulsos do céu e agora habitam entre os ímpios.Comentário sobre o Salmo 118, 10.14
Ambrósio de Milão (340-397)
Os gigantes eram homens de grande força e maldade, destruídos pelo dilúvio devido à sua perversidade. Não devemos dar ouvidos a fábulas sobre sua origem divina.De Noe et Arca, 4.8
Ambrósio de Milão (340-397)
Os anjos são espíritos puros, sem corpo nem paixões. Não é correto pensar que tenham caído por desejos carnais, pois isso é uma interpretação infantil das Escrituras.Oratio Theologica, 39.7
Gregório de Nazianzo (329-390)
Os demônios que agora pervertem os homens são os mesmos que foram expulsos do céu por sua arrogância. Não devemos dar crédito a fábulas que dizem que são espíritos de gigantes ou fruto de uniões impuras.Oratio 45 (Sobre a Páscoa), 9.5
Gregório de Nazianzo (329-390)
Se alguém quiser aprender a verdade, deve buscar nas Escrituras reconhecidas pela Igreja, e não em escritos duvidosos como o chamado Livro de Enoque, que não está na tradição apostólica.Cartas, 101.3
Gregório de Nazianzo (329-390)
Manuscritos
Os fragmentos mais antigos de 1 Enoque foram encontrados em aramaico nas cavernas de Qumran, junto aos Manuscritos do Mar Morto, e são datados de cerca de 200 a.C. a 100 a.C. Eles atestam quatro das cinco seções do livro. A exceção é o Livro das Parábolas (capítulos 37 a 71), ausente em Qumran, fato muito citado por quem propõe uma data mais tardia para essa seção. A versão grega sobreviveu fragmentada, sobretudo pelo Códice Panopolitano, achado em Akhmim no fim do século 19, e por citações do cronista bizantino Jorge Sincelo. O texto completo só existe em ge'ez (etíope clássico), com 108 capítulos.

Uma diferença significativa entre as versões está nos capítulos 6 a 11, sobre a queda dos anjos: o texto etíope é mais detalhado quanto ao papel de Enoque como intermediário entre os anjos e Deus, enquanto o grego encurta essas passagens. A maior divergência, porém, são as Parábolas (capítulos 37 a 71), presentes no etíope e ausentes nos manuscritos gregos e de Qumran.
Canonicidade Hoje
1 Enoque é considerado canônico apenas na Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo e na Igreja Ortodoxa Eritreia, que possuem o cânon cristão mais extenso. É também valorizado pela comunidade judaica etíope Beta Israel. Para as demais tradições, judaica rabínica, católica, ortodoxa oriental e protestante, o livro permanece não canônico, ainda que estudado como fonte histórica importante para entender o judaísmo do Segundo Templo e o cenário em que nasceu o cristianismo.