Ciclo de Baal 6
Mito ugarítico de Ras Shamra (KTU 1.1 a 1.6), copiado pelo escriba Ilimilku, séc. XIII a.C.
Coluna i: Anat encontra e sepulta Baal; Athtar tenta o trono
Ela abre um talho com uma pedra, faz incisões com uma lâmina.
Então chora até se fartar de chorar; bebe lágrimas em goles fundos, como vinho.
Em voz alta ela chama Shapsh, a Tocha dos Deuses:
"Levanta Baal, o Poderoso, e o coloca sobre mim, eu te peço."
Atendendo, Shapsh, a Tocha dos Deuses, ergue Baal, o Poderoso, e o assenta sobre o ombro de Anat.
Anat o leva até a Fortaleza de Zafon; lamenta por ele e também o sepulta, deitando-o nas cavidades dos espíritos da terra.
Ela abate setenta búfalos como tributo a Baal, o Poderoso;
abate setenta bois como tributo a Baal, o Poderoso;
abate setenta cabeças de gado miúdo como tributo a Baal, o Poderoso;
abate setenta veados como tributo a Baal, o Poderoso;
abate setenta cabras-monteses como tributo a Baal, o Poderoso;
abate setenta corças como tributo a Baal, o Poderoso.
[...] Anat [...] Yabamat Liimmim.
Dali ela parte em sua jornada rumo a El, das Nascentes das Águas, no meio das Fontes dos Dois Abismos.
Penetra o Campo de El e entra no pavilhão do Rei Pai Shunem.
Aos pés de El ela se curva e cai por terra, prostra-se e lhe presta honra.
Ela levanta a voz e clama:
"Que Asherah se alegre agora, e seus filhos, Elath e o bando de seus parentes; pois Baal, o Poderoso, está morto, pereceu o Príncipe, Senhor da Terra."
Em voz alta El clama à Senhora Asherah do Mar:
"Escuta, Senhora Asherah do Mar: dá-me um de teus filhos e eu o farei rei."
A Senhora Asherah do Mar disse:
"Pois então, façamos rei a Yadi' Yalhan."
O Bondoso El Benigno respondeu:
"Fraco demais. Não consegue competir com Baal, nem arremessar a lança com Glória-Coroada, o Filho de Dagon."
A Senhora Asherah do Mar replicou:
"Bem, façamos então Athtar, o Tirano; que Athtar, o Tirano, seja rei."
Sem demora Athtar, o Tirano, sobe à Fortaleza de Zafon e se senta no trono de Baal, o Poderoso.
Mas seus pés não alcançam o estrado, nem sua cabeça chega ao topo.
Então Athtar, o Tirano, declara:
"Não vou reinar na Fortaleza de Zafon."
Athtar, o Tirano, desce, desce do trono de Baal, o Poderoso, e passa a reinar sobre a Terra de El, toda ela.
[Cerca de trinta linhas faltam no topo da coluna ii.]
Coluna ii: Anat captura e destrói Mot
[...] Passa um dia, passam dias, e Anat, a Donzela, se aproxima dele.
Como o coração de uma vaca por seu bezerro, como o coração de uma ovelha por seu cordeiro, assim é o coração de Anat por Baal.
Ela agarra Mot pela dobra de sua veste, segura-o pela barra de seu manto.
Levanta a voz e clama:
"Agora, Mot, devolve meu irmão."
O Divino Mot responde:
"O que queres, Anat, a Donzela?
Eu mesmo fui e vaguei por cada monte até o coração da terra, por cada colina até as entranhas mais fundas da terra.
Faltava o sopro de vida entre os homens, faltava o sopro de vida entre as multidões da terra.
Cheguei aos prados da terra de Dabr, à beleza do campo de Shihlmemat.
Devorei Baal, o Poderoso. Fiz dele um cordeiro em minha boca; como um cabrito em minha garganta ele foi triturado.
Até Shapsh, a Tocha dos Deuses, que paira sobre a vastidão do céu, está na mão do Divino Mot."
Passa um dia, passam mesmo dias, dos dias aos meses.
Então Anat, a Donzela, se aproxima dele.
Como o coração de uma vaca por seu bezerro, como o coração de uma ovelha por seu cordeiro, assim é o coração de Anat por Baal.
Ela agarra o Divino Mot: com a espada o fende, com o joeiro o joeira, com fogo o queima, com a mó o mói, no campo o semeia.
As aves comem seus restos, consumindo suas partes, voando de pedaço em pedaço.
[Cerca de quarenta linhas faltam no topo das colunas iii e iv.]
Colunas iii-iv: Baal está vivo; El se alegra; mensagem a Shapsh
[...] que Baal, o Poderoso, tinha morrido, que o Príncipe, Senhor da Terra, tinha perecido.
E vejam, Baal, o Poderoso, está vivo! E vejam, o Príncipe, Senhor da Terra, existe!
"Num sonho, Bondoso El Benigno, numa visão, Criador das Criaturas, os céus choveram gordura, os vales correram com mel.
Assim soube que Baal, o Poderoso, estava vivo, que o Príncipe, Senhor da Terra, existia.
Num sonho, Bondoso El Benigno, numa visão, Criador das Criaturas, os céus choveram gordura, os vales correram com mel."
O Bondoso El Benigno se alegra.
Põe os pés no estrado, abre as mandíbulas e ri.
Levanta a voz e clama:
"Agora vou me sentar e descansar, e minha alma ficará em paz no meu peito, pois Baal, o Poderoso, está vivo, o Príncipe, Senhor da Terra, existe."
Em voz alta El clama a Anat, a Donzela:
"Escuta, Anat, a Donzela. Dize a Shapsh, a Tocha dos Deuses:
'Ressecado está o sulco do solo, Shapsh; ressecado está o sulco do solo de El. Baal descuida do sulco de sua lavoura.
Onde está Baal, o Poderoso? Onde está o Príncipe, Senhor da Terra?'"
Anat, a Donzela, parte.
Dali ela segue em sua jornada rumo a Shapsh, a Tocha dos Deuses.
Levanta a voz e clama:
"Mensagem do Touro El, teu pai, palavra do Bondoso, teu progenitor:
Ressecado está o sulco do solo, Shapsh; ressecado está o sulco do solo de El. Baal descuida do sulco de sua lavoura.
Onde está Baal, o Poderoso? Onde está o Príncipe, Senhor da Terra?"
Shapsh, a Tocha dos Deuses, respondeu:
"[...] no [...] de teu irmão, no [...] de teu parente, e procurarei Baal, o Poderoso."
Anat, a Donzela, disse:
"[...] Shapsh; que [...] te guarde, que [...]."
[Cerca de trinta e cinco linhas faltam.]
Coluna v: Baal retoma o trono; o retorno de Mot
Baal agarra os filhos de Asherah.
Golpeia Rabbim nas costas. Golpeia Dokyamm com um porrete, e [...] derruba por terra.
Baal sobe ao seu trono de realeza, o Filho de Dagon ao seu assento de domínio.
Dos dias aos meses, dos meses aos anos.
Vejam, depois de sete anos, o Divino Mot [...] a Baal, o Poderoso.
Ele levanta a voz e diz:
"Por tua causa, Baal, sofri a queda. Por tua causa vi a joeiragem com o joeiro; por tua causa vi o fendimento com a espada;
por tua causa vi a queima com fogo; por tua causa vi a moagem com a mó; por tua causa vi a peneiragem com a peneira;
[...] no solo, por tua causa, a semeadura sobre o mar [...]."
[As linhas seguintes estão danificadas e obscuras, e cerca de trinta e cinco linhas adicionais faltam.]
Coluna vi: Combate final, intervenção de Shapsh e entronização de Baal
Voltando a Baal da Fortaleza de Zafon, ele levanta a voz e clama:
"Meus irmãos tu me deste, Baal, meus [...]; os filhos de minha mãe, meus [...]."
Eles se chocam como camelos: Mot resiste firme, Baal resiste firme.
Marram como búfalos: Mot resiste firme, Baal resiste firme.
Mordem como serpentes: Mot resiste firme, Baal resiste firme.
Escoiceiam como corcéis: Mot cai, Baal cai.
Do alto, Shapsh clama a Mot:
"Escuta agora, Divino Mot. Por que lutas com Baal, o Poderoso? Por quê?
Se o Touro El, teu pai, te ouvir, ele arrancará os pilares de tua morada, derrubará teu trono de realeza, quebrará teu cetro de domínio."
Muito amedrontado ficou o Divino Mot, tomado de pavor ficou Ghazir, o Amado de El.
Mot [...].
Baal o assenta no trono de seu reino, sobre o assento de seu domínio.
[As linhas 36 a 42 faltam, estão danificadas ou são ininteligíveis.]
"Comerás o pão da honra, beberás o vinho do favor.
Shapsh governará os reunidos; Shapsh governará os seres divinos.
[...] deuses [...] mortais, [...] Kothar, teu companheiro, e Khasis, teu íntimo."
No mar do monstro e do dragão, Kothar wa-Khasis avança; Kothar wa-Khasis segue viagem.
Cólofon do escriba
Escrito por Ilimilku, o de Shuban.
Ditado por Attanu, o Adivinho, Chefe dos Sacerdotes, Chefe dos pastores do templo.
Doado por Niqmaddu, Rei de Ugarit, Senhor de Yargub, Soberano de Tharumeni.