Jó 26
Com a sua força fende o mar, e com o seu entendimento abate a soberba.
Aqui o texto evoca o antigo mito do combate contra o caos (o 'Chaoskampf'). 'Fende o mar' e 'abate a soberba': a palavra traduzida 'soberba' é, no hebraico, 'Rahab', nome de um monstro marinho que personifica o caos primordial. O mesmo Rahab reaparece em outras passagens como inimigo derrotado por Deus (cf. Sl 89:10; Is 51:9). O motivo tem paralelos diretos na Mesopotâmia (Marduque rasga o corpo de Tiamat, no 'Enuma Elish') e em Canaã (Baal vence o deus-mar Yam, no Ciclo de Baal de Ugarit).
Pelo seu Espírito ornou os céus; a sua mão formou a serpente enroscadiça.
A 'serpente enroscadiça' (hebraico 'nachash bariach', literalmente 'serpente fugitiva' ou 'serpente que foge') é outro nome do monstro do caos, identificado em outros textos com o Leviatã. A correspondência com a mitologia de Ugarit é notável: no Ciclo de Baal (tabuinha KTU 1.5), o deus Mote recorda que Baal matou 'Litan, a serpente fugitiva, a serpente tortuosa, o tirano de sete cabeças'. A mesma dupla de epítetos, 'fugitiva' e 'tortuosa', reaparece em Is 27:1 aplicada ao Leviatã, o que a maioria dos especialistas vê como herança comum do imaginário cananeu. No verso de Jó, porém, o monstro não é rival de Deus, mas sua criatura: 'a sua mão formou a serpente'.