Jó 25
Então respondeu Bildade, o suíta, e disse:
Esta é a terceira e última fala de Bildade, e o ponto em que a estrutura ordenada dos diálogos se desmancha. Nos dois primeiros ciclos cada amigo (Elifaz, Bildade, Zofar) fala e Jó responde; no terceiro ciclo Zofar não tem fala nenhuma e a de Bildade tem apenas seis versículos. Por isso muitos críticos textuais consideram que o capítulo 25, junto com 24, 26 e 27, chegou até nós em desordem, com trechos possivelmente trocados entre os personagens ou perdidos. As soluções variam: alguns transferem partes do capítulo 26 (atribuído a Jó) de volta para Bildade; outros leem a brevidade como recurso deliberado do autor, mostrando que os argumentos dos amigos se esgotaram.
Com ele estão domínio e temor; ele faz paz nas suas alturas.
A imagem de Deus que 'faz paz nas suas alturas' supõe um pano de fundo do Antigo Oriente Próximo em que a divindade impõe ordem sobre forças celestes potencialmente turbulentas. Nos textos ugaríticos do Ciclo de Baal (séc. XIV-XII a.C.), o deus-tempestade Baal precisa vencer o Mar (Yam) e a Morte (Mot) para estabelecer seu reinado e construir seu palácio no monte Zafom; a 'paz' celeste não é um dado, é uma conquista do deus guerreiro sobre o caos. Aqui a ideia aparece domesticada: o Deus de Israel mantém o domínio sem rival, mas o vocabulário ('domínio', 'temor', 'paz nas alturas') ainda guarda o eco do imaginário do combate cósmico.
Porventura têm número as suas tropas? E sobre quem não se levanta a sua luz?
As 'tropas' (ou exércitos) sem número aludem ao 'exército dos céus', o conjunto dos astros e seres celestes concebidos como hoste militar de Deus, motivo comum na poesia hebraica. 'Sobre quem não se levanta a sua luz' provavelmente designa o sol ou a luminosidade divina que alcança a todos. A frase é curta e elíptica no hebraico, e os tradutores a entendem de modos um pouco diferentes (luz como sol, como providência, ou como a vigilância de Deus).
Como, pois, seria justo o homem para com Deus, e como seria puro aquele que nasce de mulher?
Este é o tema central de Bildade: nenhum ser humano pode ser justo ou puro diante de Deus. Convém notar que Bildade não diz nada novo: ele repete quase literalmente o que Elifaz já havia afirmado (Jó 4:17; Jó 15:14), e o próprio Jó já reconhecera a dificuldade de um mortal ser justo perante Deus (Jó 9:2). Muitos comentadores veem nessa repetição mecânica um sinal de que os amigos ficaram sem argumentos. Importante: a tese de que a culpa de Jó explica seu sofrimento é justamente o que o livro refuta no final, quando Deus declara que os amigos não falaram dele o que era reto (Jó 42:7); a frase isolada sobre a impureza humana é verdadeira, mas a aplicação acusatória que Bildade faz dela não é endossada pelo livro.
Eis que até a lua não resplandece, e as estrelas não são puras aos seus olhos.
'A lua não resplandece e as estrelas não são puras aos seus olhos' é hipérbole poética: mesmo os corpos celestes, tidos como brilhantes e elevados, empalidecem diante da pureza de Deus. A imagem retoma quase palavra por palavra Elifaz em Jó 15:15 (e Jó 4:18, sobre os anjos), reforçando que Bildade está reciclando material anterior. No contexto do Antigo Oriente, em que sol, lua e estrelas eram com frequência divinizados e cultuados, a poesia hebraica os rebaixa deliberadamente à condição de criaturas imperfeitas diante do único Deus.
E quanto menos o homem, que é um verme, e o filho do homem, que é um vermezinho!
O paralelismo hebraico usa dois termos distintos para 'verme': 'rimmah' (o verme da podridão e da decomposição) e 'tolea' (a larva). A força da imagem é o contraste com o verso anterior: se nem a lua e as estrelas são puras, o ser humano, comparado à larva que se cria na corrupção, menos ainda. É a expressão mais extrema do que alguns chamam de 'teologia do verme', a desvalorização total do humano diante de Deus. Vale lembrar que esta é a conclusão de Bildade, não a posição final do livro: Jó, no capítulo seguinte, responderá com ironia que a fala 'ajudou' muito pouco (Jó 26:2-4). A mesma imagem do verme reaparece em outros textos hebraicos com sentido diferente, ora de humilhação (Salmo 22:6), ora de consolo (Isaías 41:14).