Capítulos

Gênesis
Autoria e Data de Composição
Gênesis, como todo o Pentateuco, é tradicionalmente atribuído a Moisés. Nessa leitura, o texto teria sido escrito no período do êxodo, o que situaria a composição entre os séculos 15 e 13 a.C., conforme a cronologia que se adote para a saída do Egito. Essa atribuição é assumida por boa parte das tradições judaica e cristã e era pressuposta pela maioria dos leitores antigos.
A crítica histórico-literária moderna chegou a outra conclusão. Ela observa, dentro do próprio texto, duplicações (dois relatos de criação em Gn 1:1 e Gn 2:4, com nomes divinos, ordem dos eventos e vocabulário diferentes; dois fios entrelaçados no dilúvio), além de anacronismos que pressupõem um autor posterior a Moisés. A partir dessas observações, Julius Wellhausen sistematizou no fim do século 19 a Hipótese Documental: o Pentateuco resultaria da combinação de quatro fontes compostas em épocas distintas, convencionalmente chamadas J (javista), E (eloísta), D (deuteronomista) e P (sacerdotal), com o primeiro relato de criação atribuído a P e o segundo, mais antigo, a J. Esse texto teria sido editado ao longo de séculos, possivelmente até o exílio babilônico (século 6 a.C.).
Convém registrar que o consenso em torno do modelo clássico de Wellhausen se desfez desde os anos 1970, e hoje convivem propostas suplementares, fragmentárias e neodocumentárias que discordam sobre o número, a extensão e a data das fontes. Há também quem defenda, a partir do conhecimento do Antigo Oriente Próximo (como Kenneth Kitchen), que parte das premissas evolucionistas da hipótese não se confirma e que “autoria” no mundo antigo incluía tradição transmitida e atualizada, distinta da noção moderna de autor único. As posições divergem, portanto, sobre quantas mãos e quando, mais do que sobre se o texto passou por edição.
Manuscritos
O texto de Gênesis nos chega por várias tradições manuscritas que não coincidem em todos os pontos. O Texto Massorético, base das Bíblias hebraicas, tem como testemunha completa mais antiga o códice de Leningrado (cerca de 1008 d.C.). A Septuaginta (LXX), tradução grega feita a partir do século 3 a.C., e o Pentateuco Samaritano, em escrita hebraica própria, preservam formas independentes do texto. Entre os Manuscritos do Mar Morto, encontrados em Qumran (cerca de 150 a.C. a 70 d.C.), há fragmentos de Gênesis em hebraico, várias gerações mais antigos que o códice de Leningrado.
Essas tradições divergem de modo concreto nas genealogias de Gn 5:1 e Gn 11:10: as idades em que cada patriarca gera o filho seguinte, e portanto a cronologia total de Adão a Abraão, mudam conforme o manuscrito. O Massorético soma cerca de 2000 anos nesse intervalo; o Pentateuco Samaritano, cerca de 2250; e a Septuaginta, cerca de 3400 (a LXX ainda insere um segundo Cainã em Gn 11, ausente do Massorético, que reaparece na genealogia de Lucas 3:36). As diferenças são sistemáticas demais para serem erro de cópia e indicam ajustes ligados a esquemas cronológicos. Como há três somas concorrentes, não há um número único que se possa tratar como a cronologia original.
Eventos do Livro
Adão e Eva

Noé

Abraão

- Chamado de Abraão (Abrão) — (Gn 12:1)
- Abraão no Egito — (Gn 12:10)
- Separação de Abraão e Ló — (Gn 13:5)
- Aliança de Deus com Abraão — (Gn 15:1)
- Nascimento de Ismael — (Gn 16:15)
- Aliança da circuncisão com Abraão — (Gn 17:9)
- Destruição de Sodoma e Gomorra — (Gn 19:24)
- Nascimento de Isaque — (Gn 21:1)
- Sacrifício de Isaque — (Gn 22:1)
- Casamento de Isaque e Rebeca — (Gn 24:1)

Jacó e Esaú

- Nascimento de Esaú e Jacó (filhos de Isaque) — (Gn 25:24)
- Jacó rouba a bênção de Esaú — (Gn 27:1)
- Jacó sonha com uma escada para o céu — (Gn 28:12)
- Jacó se casa com Raquel e Lia — (Gn 29:21)
- Nascimento dos filhos de Jacó (doze tribos de Israel) — (Gn 29:32)
- Jacó luta com o anjo (e é renomeado Israel) — (Gn 32:24)
José

- José é vendido pelos irmãos como escravo — (Gn 37:28)
- José no Egito (interpretação de sonhos e ascensão) — (Gn 41:1)
- Reunião de José com seus irmãos e reconciliação — (Gn 45:1)
- A família de Jacó se muda para o Egito — (Gn 46:1)
- Morte de Jacó — (Gn 49:33)
Ciência, História e Paralelos Antigos
Idade da Terra e origem das espécies
O relato de Gênesis abriu, na era moderna, um debate sobre como conciliar o texto com a cosmologia, a geologia e a biologia. As posições vão do criacionismo de Terra jovem, que lê os dias e as genealogias como cronologia literal, ao criacionismo de Terra antiga e à evolução teísta, que entendem o texto como afirmação teológica sobre origem e propósito, não como manual científico. Parte dessa discussão depende de como se lê o gênero do texto: há quem argumente que Gn 1 descreve ordem e função de um cosmos antigo, e não cronometragem física. O ponto em aberto é real e não se resolve por decreto de nenhum dos lados.
Os patriarcas e a arqueologia
Não há, até hoje, evidência arqueológica direta de Abraão, Isaque ou Jacó: nenhuma inscrição, documento ou estrato que os nomeie. Para figuras de chefes seminômades, a ausência desse tipo de vestígio é o esperado, e não prova nem a existência nem a inexistência. Cidades citadas no livro, como Ur e Harã, são historicamente verificáveis e dão contexto geográfico ao texto. Por outro lado, alguns detalhes parecem anacrônicos para a data tradicional dos patriarcas, como os camelos domesticados em larga escala, os filisteus e a expressão “Ur dos caldeus”. Há quem leia esses traços como atualizações de um editor posterior sobre um núcleo antigo, e quem os leia como sinal de composição tardia. A leitura por costumes (os arquivos de Nuzi e Mari), muito usada em meados do século 20 para datar os relatos no segundo milênio, foi depois contestada por mostrar paralelos genéricos demais.
Paralelos mesopotâmicos
O relato da criação e o do dilúvio têm paralelos próximos em tradições mesopotâmicas anteriores ou contemporâneas ao texto bíblico. O dilúvio de Gênesis ecoa de perto a tábua XI do Épico de Gilgamesh 11:1 e a versão do Épico de Atrahasis 3:1: o herói avisado pela divindade, a embarcação, os animais, o pouso sobre uma montanha, as aves enviadas para testar o recuo das águas e o sacrifício ao desembarcar. A cosmologia de Gn 1 (águas primordiais, um firmamento que separa águas) dialoga com o épico babilônico Enuma Elish 1:1. As longevidades de Gn 5, que culminam em Matusalém, têm análogo na Lista Real Suméria, que atribui reinados enormes aos reis anteriores ao dilúvio, com queda abrupta depois dele.
O que esses paralelos provam é objeto de leituras opostas. Para uns, eles indicam dependência literária, com Israel herdando enredos comuns do Antigo Oriente e os reescrevendo. Para outros, indicam uma memória cultural compartilhada de eventos antigos, reinterpretada de forma independente. Em ambas as leituras chama atenção o contraste teológico: onde os textos mesopotâmicos têm panteões divididos (no Atrahasis, os deuses enviam o dilúvio porque a humanidade fazia barulho demais), Gênesis apresenta um único Deus que age por juízo moral e firma aliança com Noé. Quanto à extensão do dilúvio, não há evidência geológica de uma inundação global simultânea; muitos situam na origem dessas narrativas inundações catastróficas localizadas na planície mesopotâmica.