Capítulos

Deuteronômio
Autoria e Data de Composição
A tradição judaica e cristã atribui Deuteronômio a Moisés, com exceção do capítulo final (Dt 34), que relata a morte do próprio Moisés e é geralmente atribuído a um editor posterior, como Josué ou Esdras. Dentro dessa perspectiva, a composição seria do século 15 ou 13 a.C.
O debate acadêmico sobre Deuteronômio é um dos mais antigos e intensos na crítica bíblica. Em 1805, Wilhelm de Wette propôs que o livro seria idêntico ao "livro da lei" encontrado no Templo durante o reinado do rei Josias (2 Rs 22), em cerca de 621 a.C., e que teria sido escrito pouco antes para legitimar a reforma religiosa de Josias: centralização do culto em Jerusalém e eliminação dos santuários locais. Julius Wellhausen expandiu essa tese, e ela se tornou o pilar da hipótese documental (fonte D).
Alguns estudiosos modernos chegam a propor que Deuteronômio teria sido composto ainda depois, durante o exílio babilônico (séculos 6 a 5 a.C.), por grupos sacerdotais ou profético-deuteronomistas. Pesquisadores conservadores contestam essa datação tardia argumentando que a forma literária do livro (tratado de suserania) é mais típica do segundo milênio a.C. do que do primeiro. Não há consenso definitivo.
Manuscritos
Data: Cerca de 150 a.C. a 70 d.C.
Deuteronômio é um dos livros mais representados nos Manuscritos do Mar Morto de Qumran: foram identificadas cerca de trinta e três cópias fragmentárias, o que o coloca como o segundo texto mais copiado pela comunidade de Qumran, atrás apenas dos Salmos (cerca de 39 cópias) e à frente de Isaías (cerca de 22 cópias). Os fragmentos abrangem extensas porções do texto e estão predominantemente em hebraico, com algumas variantes em relação ao Texto Massorético posterior.
Eventos do Livro
Primeiro Discurso: Retrospecto da Jornada

Segundo Discurso: A Lei Renovada

- Repetição dos Dez Mandamentos diante da nova geração — (Dt 5:6)
- O Shemá: "Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor" — (Dt 6:4)
- Ordenação de não fazer aliança com os povos de Canaã — (Dt 7:1)
- Lei da centralização do culto em um único lugar escolhido por Deus — (Dt 12:1)
- Pena de morte para profetas falsos e cidades que aderirem à idolatria — (Dt 13:1)
- Lei do rei: critérios para o futuro monarca de Israel — (Dt 17:14)
- Promessa de um profeta como Moisés que virá depois dele — (Dt 18:15)
- Leis sobre casamento, divórcio e proteção social de viúvas, órfãos e estrangeiros — (Dt 24:1)
Terceiro Discurso: Bênçãos e Maldições

- Cerimônia de renovação da aliança nos montes Gerizim e Ebal — (Dt 27:1)
- Bênçãos pela obediência e maldições pela desobediência (incluindo a profecia do exílio) — (Dt 28:1)
- Moisés apresenta a escolha entre a vida e a morte, o bem e o mal — (Dt 30:15)
Conclusão: Cântico, Bênção e Morte de Moisés

- Josué é formalmente apresentado como sucessor de Moisés perante Deus — (Dt 31:14)
- O Cântico de Moisés: poema que exalta a fidelidade de Deus e a infidelidade de Israel — (Dt 32:1)
- Bênção de Moisés às doze tribos de Israel — (Dt 33:1)
- Moisés vê a Terra Prometida do Monte Nebo e morre aos 120 anos; sepultado em lugar desconhecido — (Dt 34:1)
Paralelos e Influência
Estrutura de Tratado Suserano
Pesquisadores como George Mendenhall e Klaus Baltzer observaram que Deuteronômio segue de perto a estrutura dos tratados de suserania hititas do segundo milênio a.C.: prólogo histórico, estipulações, lista de testemunhas, bênçãos e maldições. Esse paralelo formal é usado por conservadores para argumentar uma datação mais antiga do que a proposta por Wellhausen. No entanto, formas similares também existem em tratados assírios do século 7 a.C., o que não resolve o debate.
Influência no Restante da Bíblia
Deuteronômio exerceu influência determinante sobre os livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis, formando o conjunto chamado de História Deuteronomista, proposto por Martin Noth em 1943. Esses livros avaliam os reis e o povo de Israel com os critérios de fidelidade estabelecidos em Deuteronômio. O Shemá (Dt 6:4) e o mandamento de amar a Deus "de todo o coração, de toda a alma e de toda a força" (Dt 6:5) são citados por Jesus como o maior mandamento (Mt 22:37), demonstrando a centralidade desse livro na fé judaica e cristã.