Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
Nomes divinos, doublets e estilos divergentes apontam para fontes costuradas, não um autor único.
Por que prestar tanta atenção a um nome? Porque, quando um texto chama Deus de YHWH no Éden e de Elohim na criação dos céus, e essa alternância se mantém ao longo de blocos inteiros que também diferem no vocabulário, no estilo e na teologia, a explicação mais econômica não é o capricho de um único autor. É a costura de tradições distintas. O mesmo vale para os doublets: duas criações em Gênesis 1 e 2, dois relatos do dilúvio entrelaçados, a esposa que vira irmã três vezes.
O lance de Wellhausen, em 1878, foi cronológico antes de ser literário. Ele não inventou a divisão em fontes, que já fermentava desde Astruc em 1753, passando por Eichhorn, Graf e Kuenen. O que ele fez foi virar a ordem do avesso: o aparato sacerdotal minucioso (a fonte P, com seus rituais, genealogias e medidas exatas) não seria o alicerce arcaico da religião de Israel, e sim o seu produto tardio, redigido provavelmente no exílio ou depois. A religião teria caminhado do espontâneo ao institucional.
O que isso implica para a leitura? Que o Pentateuco passa a ser legível como o que de fato aparenta ser: um arquivo, não um ditado. Datar J no século 10 ou 9, E no 9 ou 8, D no tempo das reformas de Josias no século 7 e P no exílio é situar cada voz em um momento e um interesse concretos, com sacerdotes, escribas e reis por trás. Não é necessariamente menos sagrado por isso; é apenas humano e histórico, com camadas que podem ser ouvidas separadamente.
Cabe a concessão honesta: nada disso é fotografia, e a Hipótese Documentária clássica hoje convive com modelos rivais, abordagens suplementares e fragmentárias, e disputas vivas sobre datas e fronteiras das fontes. O ponto que sobrevive a quase todas as revisões é mais modesto e mais resistente: o texto foi composto ao longo do tempo, por muitas mãos. Ler procurando as junções não profana o livro. Apenas troca a pergunta "quem o ditou" pela pergunta "quem o construiu, e por quê".
O texto é composto, mas a divisão JEPD de Wellhausen é reconstrução, não dado bruto.
A crítica tem razão num ponto que nenhum apologista honesto deveria contornar: o texto da Torá é composto. Há repetições, mudança de vocabulário e de teologia, e sinais de trabalho redacional. Wellhausen não inventou isso do nada. O que se discute não é se houve composição, e sim se os quatro documentos hipotéticos (J, E, P, D), datados e empilhados como ele propôs em 1878, são a melhor explicação para esses dados, ou se a crítica leu evidências literárias reais com lentes que hoje sabemos enviesadas.
Pegue o critério mais famoso: a alternância entre YHWH e Elohim como prova de duas fontes. O italiano Umberto Cassuto, que ocupou a cátedra de estudos bíblicos na Universidade Hebraica de Jerusalém, deu o golpe mais elegante. Cassuto mostrou que a troca de nomes divinos é um recurso literário regular do Antigo Oriente, não um remendo de editor: Elohim é o Deus universal de todas as nações, YHWH é o nome do Deus da aliança com Israel, e o mesmo autor escolhe um ou outro conforme o que o trecho quer enfatizar. Kitchen reforça: textos egípcios e mesopotâmicos usam epítetos divinos alternados dentro de um mesmo texto unitário, então usar a alternância como bisturi de fontes prova demais.
O pressuposto que a crítica posterior mais revisou foi o motor filosófico de Wellhausen. Ele leu a história religiosa de Israel dentro de um esquema evolutivo: do culto espontâneo e primitivo (J) para o sacerdotal e legalista (P), e por isso inverteu a cronologia, datando o material sacerdotal como o mais tardio justamente porque era o mais institucional. O problema é que isso é uma premissa sobre como religiões "devem" evoluir, não um dado do texto. Quando a arqueologia mostrou que sistemas sacerdotais complexos já existiam no segundo milênio, o argumento de que P tinha de ser pós-exílico por ser "avançado demais" perdeu o chão.
Sendo justo com os dois lados: o que fica de pé é a observação de que o Pentateuco tem camadas, costuras e história de redação, e isso é compatível com inspiração, a menos que se exija que inspiração signifique um único homem escrevendo de um fôlego só, exigência que o próprio texto não faz. O que é especulativo é a precisão da reconstrução: a divisão verso a verso entre J, E, P e D, as datas absolutas e a ordem evolutiva. Não por acaso a própria academia abandonou amplamente a versão clássica de Wellhausen. Conceder que o texto é composto não obriga a comprar o esquema de 1878.