O livro de Daniel se apresenta como obra de um exilado judeu na corte babilônica do século 6 a.C. A crítica histórica, em consenso amplo, situa a redação do livro (ao menos sua forma final) por volta de 165 a.C., durante a crise dos Macabeus, quando o rei selêucida Antíoco IV Epífanes perseguia os judeus e profanava o Templo. A diferença de quatro séculos é o coração do debate.
O argumento de Daniel 11
A peça central é a precisão de Daniel 11, que narra as guerras helenísticas com exatidão crescente até o reinado de Antíoco IV (167 a 164 a.C.) e então, segundo a leitura crítica, descreve incorretamente as circunstâncias da morte do rei. Para a crítica, essa é a assinatura do vaticinium ex eventu: o autor conhece a história até o seu próprio presente (cerca de 165 a.C.) e falha ao tentar prever o desfecho.
Além de Daniel 11, a datação tardia se apoia em vários indícios convergentes. O livro contém palavras de origem grega (nomes de instrumentos musicais), difíceis de explicar num texto do século 6 a.C., antes da expansão helenística. Seu hebraico e aramaico têm traços tardios. No cânon judaico, o Tanak, Daniel não está entre os Profetas, mas na terceira seção, os Ketuvim (Escritos), o que sugere que o livro foi concluído depois que a coleção dos Profetas já estava fechada. E os manuscritos de Daniel encontrados em Qumran (Mar Morto) são numerosos, mas nenhum recua a datação para perto do século 6.
Evidência
Datação tradicional (séc. 6 a.C.)
Datação crítica (séc. 2 a.C.)
Daniel 11
Profecia genuína do futuro
História escrita após os fatos
Palavras gregas
Empréstimos antigos
Reflexo do período helenístico
Posição no Tanak
Profeta deslocado
Escrito tardio, após fechar os Profetas
Qumran
Cópias de um texto antigo
Cópias próximas à composição
A leitura tradicional responde que a precisão de Daniel 11 é exatamente o que se esperaria de uma profecia verdadeira, que as palavras gregas podem ser empréstimos antigos por contato comercial, e que a posição no Tanak reflete fatores litúrgicos, não data. O debate sobre Daniel toca de leve a discussão geral sobre composição tardia de textos bíblicos, mas é específico: aqui a disputa é sobre este livro e sua data, não sobre a autoria de obras como o Pentateuco.
O debate
Perspectivas sobre este tema
Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
Crítico HistóricoA precisão de Daniel 11 para no presente do autor e erra o futuro imediato: essa é a assinatura de uma profecia escrita depois dos fatos, por volta de 165 a.C.
A força do argumento de Daniel 11 nao esta na precisao, mas em onde a precisao termina. O capitulo acompanha as guerras entre selecidas e ptolomeus com fidelidade quase de cronica ate o reinado de Antioco IV, e exatamente quando chega aos versos finais (Dn 11:40-45) a narrativa descarrila: descreve uma campanha vitoriosa final do rei contra o Egito, com conquista da Libia e da Etiopia, e a morte dele entre o mar e o monte do Templo. Nada disso aconteceu. Antioco IV morreu na Persia, longe da Judeia, no fim de 164 a.C. Um vidente do seculo 6 que enxerga quatro seculos de geopolitica helenistica com nitidez de manual nao deveria tropecar justamente no unico evento ainda futuro para um escritor de 165 a.C. A leitura tradicional pede que aceitemos uma profecia que acerta tudo, menos o final, e que pare de acertar precisamente no ano em que a critica situa a redacao. E uma coincidencia que pesa.
Sobre as demais evidencias, sou obrigado a conceder onde a concessao e honesta. O argumento das palavras gregas envelheceu mal: sao apenas tres nomes de instrumentos musicais (citara, sambuca, saltetio) em Daniel 3, e meio seculo de estudos mostrou que emprestimos gregos pontuais ja circulavam no aramaico antes de Alexandre. Se o livro tivesse sido composto em pleno mundo helenizado do seculo 2, esperariamos muito mais grego, nao tres palavras. Esse indicio isolado nao sustenta a datacao tardia, e a tabela da pagina faz bem em registrar a resposta tradicional. Mas dois outros indicios continuam firmes e a pagina os apresenta com correcao: o aramaico e o hebraico de Daniel carregam tracos tardios, e sua posicao nos Ketuvim, e nao entre os Profetas do Tanak, sugere que o livro chegou tarde demais para entrar na colecao profetica ja fechada. Qumran confirma muitas copias, nenhuma recuando perto do seculo 6. Nenhum desses pontos prova a data sozinho, mas eles convergem.
Vale separar o que esta em jogo, e a pagina faz isso bem. Aqui nao discuto a fe nem a pratica religiosa, discuto uma afirmacao especifica: a de que Daniel e profecia preditiva genuina do seculo 6, e nao historia narrada depois dos fatos. Esse genero, o vaticinium ex eventu, era comum na literatura apocaliptica judaica e nao envolve fraude no sentido moderno; era uma convencao para dar autoridade a uma mensagem de resistencia dirigida aos judeus perseguidos por Antioco, os mesmos cuja coragem 2Mc 7:9 celebra. O ponto e que a inerrancia preditiva so se sustenta se ignorarmos o erro de Dn 11:40-45, e e metodologicamente mais simples uma data de 165 a.C. que explica de uma vez a precisao ate Antioco, a falha logo depois, a lingua tardia e o lugar nos Escritos. O onus probatorio recai sobre quem afirma o sobrenatural, e neste livro, ao contrario do que ocorre com promessas como Is 53:5 lidas a distancia, o texto deixou uma costura visivel: a profecia para de acertar no exato instante em que o profeta para de lembrar.
Apologista EvidencialA datacao tardia de Daniel nao e um fato comprovado, e uma inferencia que so se sustenta se a profecia preditiva for excluida por principio antes do exame da evidencia.
E preciso conceder o que a pagina coloca com honestidade: a precisao de Daniel 11 ate Antioco IV e impressionante, os tres emprestimos gregos em Daniel 3 sao reais, e a posicao do livro nos Ketuvim e nos tracos tardios do aramaico sao dados que pedem explicacao. Quem ignora isso nao esta defendendo Daniel, esta defendendo uma caricatura dele. O ponto que separa as duas leituras nao e a existencia desses fatos, mas a premissa que entra antes deles. O argumento do vaticinium ex eventu so funciona se ja se decidiu, de antemao, que uma profecia genuina do futuro e impossivel. Repare na estrutura do raciocinio que a propria pagina descreve: o autor acerta a historia ate 165 a.C. e erra a morte de Antioco, logo escreveu em 165. Mas o fato de o texto narrar com exatidao algo e tratado como prova de composicao tardia justamente porque a alternativa preditiva foi descartada por metodo, nao por evidencia. Isso e uma escolha filosofica disfarcada de conclusao historica.
Nos pontos secundarios, a evidencia esta mais dividida do que a tabela sugere. Kitchen, no volume classico sobre os problemas de Daniel, mostrou que os tres termos gregos sao todos nomes de instrumentos musicais, exatamente a categoria de palavra que viaja por contato comercial seculos antes de conquista militar, e que mercadores gregos circulavam pelo Oriente Proximo bem antes de Alexandre. Se a datacao tardia estivesse correta, esperariamos pesada influencia grega na administracao, no vocabulario politico, nos nomes de cargos, e e ai que o livro e silencioso: o pano de fundo administrativo e persa e babilonico, nao helenistico. O aramaico de Daniel, alias, e do tipo imperial oriental, nao do aramaico ocidental tardio que dominaria a Palestina do seculo 2. A posicao nos Ketuvim tambem nao prova data de composicao, ja que a divisao tripartite do Tanak mistura criterios liturgicos e de status, e nada impede que um livro antigo tenha entrado tarde naquela secao.
O dado que mais incomoda a tese de 165 a.C. vem de Qumran, e a pagina e justa ao mencionar que os manuscritos sao numerosos. Copias paleograficamente datadas do fim do seculo 2 a.C., como 4QDan-c, deixam uma janela apertada demais: se o original foi escrito em 165, ele teria de ser composto, copiado, difundido, aceito como autoritativo e levado a uma comunidade do deserto em cerca de quarenta anos, algo raro para qualquer texto que alcanca status de Escritura. Isso nao prova o seculo 6, mas pressiona a data tardia para o limite mais antigo possivel e enfraquece a ideia de uma fabricacao recentissima. Sendo honesto sobre o que fica em aberto: o aramaico com tracos posteriores e a forma final do livro sao compativeis com edicao redacional ao longo do tempo, e e plausivel que um nucleo antigo tenha recebido moldura posterior. O que a evidencia nao entrega e a conclusao confiante de que Daniel 11 e historia disfarcada. Essa conclusao depende inteiramente de uma premissa antinaturalista que a arqueologia e a linguistica, por si sos, nao confirmam.