O Que São os Nefilins de Gênesis 6:1-4?

Quatro versículos antes do dilúvio

Logo antes do relato do dilúvio, Gênesis insere uma cena curta e estranha. Em apenas quatro versículos, o texto fala de "filhos de Deus" que tomam por esposas as "filhas dos homens", menciona que havia "gigantes na terra" naqueles dias e os descreve como "os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama". Depois disso, sem explicar nada do que acabou de dizer, a narrativa segue direto para a corrupção universal e o dilúvio.

1 E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas,

2 Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.

3 Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos.

4 Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama.

A passagem levanta mais perguntas do que responde. Quem são os "filhos de Deus"? Quem são essas "filhas dos homens", como se fossem um grupo distinto? E qual a relação entre essa união e os "gigantes" mencionados no verso 4? O texto não articula essas ligações: ele justapõe os elementos e deixa o leitor preencher as lacunas.

A palavra "nefilim"

Onde traduções como a Almeida trazem "gigantes", o hebraico tem a palavra nefilim. O termo aparece só duas vezes em toda a Bíblia: aqui em Gênesis 6:4 e em Números 13:33, quando os espias que voltam de Canaã relatam ter visto homens de estatura descomunal. A própria escolha de "gigantes" nas versões portuguesas vem da Septuaginta grega, que traduziu nefilim por gigantes.

33 Também vimos ali gigantes, filhos de Anaque, descendentes dos gigantes; e éramos aos nossos olhos como gafanhotos, e assim também éramos aos seus olhos.

A origem do nome é disputada. A leitura mais comum o liga à raiz hebraica nafal, "cair", o que produziria o sentido de "os caídos", interpretação que alimentou séculos depois a ideia de anjos decaídos. Outra proposta, derivada do aramaico, o aproxima de "gigantes" ou "valentes". O texto de Gênesis não define o termo: apenas o usa, como se o leitor antigo já soubesse a quem se referia.

O que o texto afirma e o que cala

O que Gênesis 6:1-4 efetivamente diz é pouco e ambíguo. Afirma que houve uma união entre dois grupos chamados "filhos de Deus" e "filhas dos homens", que dela ou na mesma época existiram os nefilins, e que estes ficaram famosos. O texto não diz que os nefilins nasceram dessa união (a sintaxe permite, mas não obriga), não diz se os "filhos de Deus" eram seres celestes ou humanos, e não emite juízo explícito de condenação sobre eles.

Esse silêncio é a chave de tudo o que vem depois. Por não explicar quem eram os "filhos de Deus", o texto abriu espaço para duas grandes leituras antigas, e por não detalhar os nefilins, deixou um vácuo que uma vasta literatura paralela (1 Enoque, Jubileus, os Testamentos) se encarregou de preencher com riqueza de detalhes. As próximas páginas seguem esses dois caminhos.